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15/09/2004

Kerry faz campanha frouxa e não enfrenta Bush

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYTimes
Trata-se de uma façanha notável: o candidato oscilante e vacilante John Kerry está conseguindo até mesmo emplacar simultaneamente nos dois lados da questão da ambição.

Ao longo de sua vida inteira, ele tem sido visto como um homem dos mais ambiciosos na meta de se tornar presidente, e dos mais dedicados em se casar com herdeiras, de tal forma que isso acabou se tornando repulsivo; os seus camaradas de classe no colégio St. Paul's tocavam "Hail to the Chief" com kazoos (instrumento de canto/sopro que imita o timbre do trompete) quando ele aparecia, e, no Senado, Bob Dole zombou da paixão do senador do Massachusetts por câmeras, dando-lhe o apelido de "Live Shot" (um trocadilho que pode significar tanto "filmagem ao vivo" quanto "baleado vivo").

Mas, neste verão, quando aquela sede de poder deveria ter corrido pelas suas veias, John Kerry foi se tornando tímido e apático. Ele deixou a multidão dos partidários de Bush e dos "perseguidores de veteranos da guerra do Vietnã" fazerem a maior das algazarras em volta dele, e, por um período que pareceu durar uma eternidade, ele não replicou à altura. Pior: ele caiu igual a um patinho dentro de cada uma das armadilhas que a turma dos representantes da Bush Inc preparou para ele.

Finalmente, o único democrata que ousou enfrentar de cabeça erguida os poderosos chefões da extrema direita lembrou ao candidato o mantra da escola preparatória para a universidade: dê um soco bem na cara do bandido, e faça-o com a mesma freqüência que as notícias são publicadas.

Antes de se ver "fora do ar" por causa de sua operação de implante de quatro válvulas no coração, Bill Clinton andou batendo papo com John Kerry por telefone, já no seu leito de hospital, intimando-o a partir para o ataque.

A equipe de assessores de Clinton --James Carville, Paul Begala, Joe Lockhart, Mike McCurry, Stan Greenberg, Lanny Davis-- interveio para dar um novo alento à liderança cambaleante de Bob Shrum, que havia aconselhado Kerry a não tomar iniciativas negativas (e deixado John Edwards --que era tido como um político combativo-- desaparecer sem deixar pistas).

Kerry ouviu atentamente o que "Shrummy" (apelido do ex-presidente) tinha a dizer, apesar de este estrategista renomado pelos seus talentos de orador ainda não ter pronunciado um mísero discurso sequer em seu favor até então.

Ao escrever sobre a "Maldição de Shrummy", no "The Washington Post", Mark Leibovich enfatizou: "É comum vê-lo sentado no banco de trás de um carro sendo dirigido por um jovem assessor, uma imagem que reforça um comportamento bastante majestoso. Ele adora culinária e bons vinhos, enquanto os seus ternos são criados sob medida por um alfaiate de Georgetown".

Os democratas não esconderam seu espanto ao assistirem ao espetáculo de um antigo presidente, no leito de hospital, tentando ressuscitar um aprendiz de presidente.

"Howard Dean havia conseguido levantar o ânimo das tropas mas agora, Kerry transformou-se num homem afeminado", comentou um observador familiarizado com o Partido Democrata, comparando a situação com a cena de "O Poderoso Chefão" na qual o cantor Johnny Fontane chega para o casamento da filha de Don Corleone e se queixa de que o diretor de um estúdio vem o tratando com dureza.

Então, Don Corleone dá um tapa no cantor e literalmente late a frase seguinte: "Aja como um homem!".

Bush e Cheney subiram nas pesquisas porque eles transformaram a sua convenção num filme de faroeste. Eles eram os "Sete Homens e um Destino" do filme, com os olhares cortantes como aço, os samurais pistoleiros cavalgando para salvar a cidade apavorada: Rudolph Giuliani, John McCain, Arnold Schwarzenegger, Zell Miller, Dick Cheney, George W. Bush e Papai Bush, o qual teve o desplante de comparar Kerry com Jane Fonda.

O vice-presidente encarnou mais ainda o tema do faroeste ao conceder ao canal de televisão ABC uma entrevista na sua fazenda do Wyoming.

"Cheney poderia muito bem ter atuado no papel do caubói cavalgando em velocidade sobre a sua sela e segurando as rédeas para não atropelar uma menininha com seu pônei", escreveu Alessandra Stanley na sua coluna de comentários sobre televisão de The New York Times.

Depois do 11 de setembro de 2001, os americanos querem que homens valentões e brigões os protejam da Al Qaeda. Eles parecem consentir com a possibilidade de Bush e Cheney encarnarem os personagens durões assim como em tantos filmes.

Aliás, estes estavam tão ocupados com a sua "guerra de vaidade" no Iraque que eles deixaram passar oportunidades decisivas para vencer a Al Qaeda e gastaram, na ocupação de um país estrangeiro, um dinheiro que poderia ter sido utilizado para proteger os portos americanos e para produzir planos, muito antes da tragédia de Beslan, visando a proteger as crianças dos terroristas.

Mas a Casa Branca, de maneira inteligente, assimilou as imagens dos filmes de faroeste, deixando Kerry no papel de estrela de um gênero de filme de bastante menos sucesso, o filme de "farleste" (o Estado de Kerry, o Massachusets, ficaa no nordeste do Estados Unidos).

Nos filmes de faroeste, os heróis são homens de decisões rápidas e destrutivas, e de ação, encenadas em desfiladeiros nas suas fazendas; no filmes de "farleste", os heróis travam diálogos abstratos e repletos de nuances, articulados de maneira travada em mansões de Beacon Hill e durante expedições de windsurfe na orla de Nantucket.

Nos filmes de "farleste", os heróis enfraquecidos ficam irritados quando pessoas do tipo "errado" freqüentam os seus clubes em Boston, e fazem trocadilhos, no estilo de "Late George Apley" (novela sobre a alta-sociedade de Boston, de John Phillips Marquand, de 1938, vencedora do prêmio Pulitzer, e que se tornou uma comédia no cinema), sobre as regras a serem observadas em eventos que exigem o traje a rigor.

Nos filmes de faroeste, os heróis suas companheiras e mulheres com cavalheirismo, mas eles também lhes dão a ordem de se retirar. Nos filmes de Farleste, Teresa empunha a carabina e chama todos os membros da oposição de "idiotas".

Existe uma razão que explica por que os filmes de farleste nunca fizeram sucesso em Hollywood. Um chá elegante no salão nunca foi tão emocionante quanto são os acontecimentos do meio-dia no meio da praça da cidade. Republicanos, por outro lado, agem como num filme de faroeste Jean-Yves de Neufville

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