UOL Notícias Internacional
 

15/09/2004

Kerry precisa desmascarar as mentiras de Bush

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
No domingo passado (12/09), uma multidão festiva se reuniu em torno de um veículo blindado norte-americano em chamas. Foi quando um helicóptero abriu fogo. Uma criança e um jornalista de uma rede árabe de televisão estavam entre os mortos. Mais tarde, o canal de TV transmitiu repetidamente a cena em que o jornalista se contorcia e gritava: "Estou morrendo, estou morrendo".

Tais cenas, que engrossam as fileiras dos nossos inimigos ao fazer com que os Estados Unidos aparentem ser, ao mesmo tempo, fracos e brutais, são inevitáveis na guerra de guerrilha em que o presidente Bush nos meteu. Osama Bin Laden deve estar rindo.

As organizações de notícias dos Estados Unidos sofrem pressões constantes para relatar boas novas sobre o Iraque. Na verdade, o título de uma manchete da revista "Newsweek" resume a situação: "É pior do que você pensa".

Os ataques contra as forças da coalizão estão se intensificando e se tornam mais efetivos; zonas onde nenhum estrangeiro entra, que os militares preferem chamar de "enclaves insurgentes", estão se espalhando --até mesmo em Bagdá. Estamos perdendo terreno.

E as perdas não ocorrem só no Iraque. A Al Qaeda se reagrupou. A invasão do Iraque, que tinha a intenção de demonstrar o poderio norte-americano, teve o efeito exatamente contrário: regimes sórdidos de todo o mundo sentem-se fortalecidos agora que as nossas forças estão atoladas no conflito iraquiano.

Quando um jornalista de The New York Times perguntou a Bush sobre o programa nuclear da Coréia do Norte, que está em andamento, "ele abriu as mãos e deu de ombros".

Mas muitos eleitores ainda acreditam que Bush esteja fazendo um bom trabalho quanto à proteção dos Estados Unidos.

Se o senador John Kerry realmente possui assessores que lhe dizem para não atacar Bush nas questões de segurança nacional, o candidato deveria demiti-los. Quando um Dick Cheney diz ao eleitor para votar em Bush ou morrer, responder com discursos sobre empregos e saúde pública não resolve o problema.

Kerry deveria contra-atacar afirmando que Bush está colocando a nação em perigo ao subordinar a segurança nacional a questões políticas. No início de 2002, o governo Bush, cujo foco já se voltara para o Iraque, ignorou pedidos de envio de mais tropas ao Afeganistão. Como resultado, o Taleban está ressurgindo, e Osama Bin Laden ainda anda a solta.

Ao se prepararem para a guerra no Iraque, os comandantes queriam uma força de invasão maior para ajudar a controlar o país. Mas autoridades civis, ansiosas por provar que as guerras podem ser travadas a baixo custo, se recusaram a atendê-los. E essa é uma das principais razões pelas quais os nossos soldados ainda estão morrendo no Iraque.

Em abril deste ano, tropas dos Estados Unidos, com certeza agindo sob ordens da Casa Branca, após a televisão norte-americana ter mostrado imagens chocantes de empreiteiros mortos, atacaram Fallujah.

O general James Conway, comandante dos fuzileiros navais responsável pela operação, se opôs a "atacar por vingança", mas foi voto vencido --e a sua opinião foi novamente desconsiderada com um decisão igualmente desastrosa de interromper o ataque após o seu início. "Depois que você se compromete com uma missão, é necessário permanecer comprometido com ela", afirmou Conway.

Mas Bush, ao se deparar com a perspectiva de um número de baixas que teria prejudicado o seu índice de aprovação, recuou.

Será que Kerry, que votou a favor da guerra no Iraque, pode criticar o conflito? Sim, ao demonstrar que só votou a favor da guerra para conferir poder de fogo a Bush. Depois que esse poder de fogo forçou Saddam Hussein a permitir o retorno dos inspetores de armas de destruição em massa, não havia mais necessidade de invadir o país.

E Kerry deveria continuar batendo em Dick Cheney, que tenta compensar a inexistência das armas de destruição em massa com mentiras, mais uma vez, dizendo que Saddam Hussein possuía vínculos com a Al Qaeda.

Alguns acadêmicos estão exigindo que Kerry apresente um plano específico para o Iraque --uma exigência que nunca foi feita com relação a Bush.

Kerry deveria virar a mesa e perguntar o que --além de fingir que tudo está indo bem-- Bush pretende fazer quanto a essa desastrosa espiral de violência. E o candidato democrata pode perguntar por que alguém deveria confiar em um líder que se recusa a substituir as pessoas que provocaram o desastre porque acha que é má política admitir um erro.

Kerry pode argumentar que não teria desautorizado os comandantes que desejavam manter a pressão sobre a Al Qaeda, e tampouco desprezado as advertências do ex-general Erick Shinseki, então chefe do Estado Maior do Exército, que dizia que a manutenção da paz de pós-guerra exigiria um contingente maior.

Ele não teria também ignorado os alertas de Conway sobre os perigos de se atacar Fallujah, nem feito pouco caso dos protestos do comandante quanto ao cancelamento da missão pela metade.

Por outro lado, Kerry pode argumentar que teria demitido Paul Wolfowitz, o vice-secretário da Defesa que ridicularizou Shinseki. E ele teria certamente exonerado Donald Rumsfeld por não ter mobilizado tropas suficientes, pelas atrocidades da prisão Abu Ghraib e por outros episódios.

A verdade é que, ao politizar a "guerra contra o terrorismo", Bush está colocando os Estados Unidos em perigo. E Kerry precisa dizer isso. Democrata tem que dizer que o presidente põe os EUA em risco Danilo Fonseca

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