UOL Notícias Internacional
 

16/09/2004

CIA nega Bush e prevê futuro sombrio para Iraque

The New York Times
Douglas Jehl

Em Washington
Uma Estimativa Nacional de Inteligência confidencial, preparada para o presidente Bush no final de julho, faz uma avaliação sombria das perspectivas para o Iraque, disseram funcionários do governo nesta quarta-feira (15/09).

A estimativa traça três possibilidades para o Iraque até o final de 2005, com a pior sendo desdobramentos que poderiam levar a uma guerra civil, disseram os funcionários. O resultado mais favorável descrito é um Iraque cuja estabilidade permanecerá tênue em termos políticos, econômicos e de segurança.

"Há uma quantidade significativa de pessimismo", disse um funcionário do governo que leu o documento, que tem cerca de 50 páginas. Os funcionários se recusaram a discutir os pareceres chaves --declarações concisas, cuidadosamente redigidas das conclusões dos analistas de inteligência-- incluídos no documento.

A estimativa de inteligência, a primeira sobre o Iraque desde outubro de 2002, foi preparada pelo Conselho Nacional de Inteligência e foi aprovada pela Junta Nacional de Inteligência Estrangeira sob John E. McLaughlin, o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA).

Tais estimativas podem ser requisitadas pela Casa Branca ou pelo Congresso, mas esta foi iniciada pelo conselho de inteligência sob George J. Tenet, que deixou o cargo de diretor da CIA em 9 de julho, disseram os funcionários do governo.

Como descrito pelos funcionários, o tom pessimista da nova estimativa contrasta das declarações dos membros do governo Bush nos últimos dias, incluindo comentários feitos nesta quarta-feira por Scott McClellan, o porta-voz da Casa Branca, que afirmou que progressos estavam ocorrendo no Iraque.

"Como vocês sabem, em cada passo do caminho no Iraque havia pessimistas que diziam que não podia ser feito", disse McClellan em uma coletiva de imprensa. "E a cada passo do caminho, a liderança iraquiana e o povo iraquiano provaram que estavam errados porque estão determinados a ter um futuro livre e pacífico."

O presidente Bush, que foi informado sobre a nova estimativa de inteligência, não mudou significativamente o tom de seus comentários públicos sobre o curso da guerra ao longo do verão, enfatizando consistentemente o progresso apesar de reconhecer que ainda restam dificuldades.

O oponente de Bush, o senador John Kerry, criticou a posição pública otimista do governo sobre o Iraque nesta quarta-feira, e questionou se será possível realizar eleições em janeiro, como planejado.

"Eu acho muito difícil de imaginar no momento como distribuir as cédulas em locais como Fallujah, Ramadi, Najaf e outras partes do país sem o estabelecimento da segurança", disse Kerry em um telefonema para Don Imus, o apresentador de um programa de rádio, transmitido ao vivo.

"Eu sei que as pessoas que supostamente administrarão tal eleição acreditam que precisam de um período mais longo de tempo e maior segurança antes que possam até mesmo começar a fazer isto, e simplesmente não há como fazê-lo a esta altura. Assim, não estou certo se o presidente está sendo honesto com o povo americano sobre a situação a esta altura."

A situação no Iraque provocou duros comentários tanto de republicanos quanto de democratas em uma audiência sobre o redirecionamento dos gastos para reconstrução para a segurança.

O senador Richard G. Lugar, de Indiana, presidente do Comitê de Relações Exteriores, o chamou de "irritante para qualquer um que esteja olhando para isto de qualquer ponto de vista", e o senador Chuck Hagel, republicano de Nebraska, disse sobre a falta geral de gastos: "Isto está além de lamentável, está além de embaraçoso. Isto está agora na zona de perigo".

Um porta-voz da CIA se recusou a comentar qualquer nova estimativa de inteligência sobre o Iraque.

Cada um dos funcionários que descreveu a estimativa disse que leu o documento ou foi informado sobre suas conclusões. Entre os funcionários estavam pessoas que têm criticado e pessoas que têm apoiado as políticas do governo para o Iraque.

Mas os funcionários insistiram para que não fossem identificados por nome, agência ou área do governo porque o documento continua sendo altamente confidencial.

Menos controle, mais gastos

A nova estimativa revisita questões levantadas pelo conselho de inteligência em pareceres menos formais em janeiro de 2003, disseram os funcionários. Tais documentos continuam confidenciais, mas um deles alertou que a construção da democracia no Iraque será longa, difícil e turbulenta, podendo incluir conflito interno, disse um funcionário do governo.

A nova estimativa do Conselho Nacional de Inteligência foi aprovada formalmente em uma reunião em julho por McLaughlin e chefes de outras agências de inteligência, disseram os funcionários.

Suas conclusões pessimistas foram realizadas antes mesmo do recente agravamento da situação da segurança no Iraque, que incluiu um grande aumento dos ataques contra as tropas americanas e das mortes de civis e rebeldes iraquianos.

Na semana passada, o general Richard B. Myers, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, reconheceu que áreas significativas do Iraque, incluindo Fallujah e Ramadi, continuam fora do controle americano, e disse que poderá demorar até que as forças iraquianas, com apoio americano, possam retomar o controle.

Como a nova Estimativa Nacional de Inteligência, os pareceres concluídos em janeiro de 2003 foram preparados pelo Conselho Nacional de Inteligência, que é liderado por Robert Hutchings e presta contas ao diretor da CIA. O conselho é encarregado de refletir o consenso das agências de inteligência.

Mas os pareceres de janeiro de 2003 não representam a Estimativa Nacional de Inteligência formal, o que significa provavelmente que não foram formalmente aprovados pelos chefes de inteligência.

A nova Estimativa Nacional de Inteligência é a primeira sobre o Iraque desde a que foi concluída em outubro de 2002 sobre o programa de armas ilícitas do Iraque.

Tal documento afirmava que o Iraque possuía armas químicas e biológicas e estava retomando seu programa de armas nucleares, mas tais conclusões, utilizadas pelo governo Bush como argumento principal para a guerra contra o Iraque, agora parecem ter sido um erro. Uma análise do Comitê de Inteligência do Senado, concluída em julho, revelou que o documento possuía grandes falhas.

As críticas sobre o documento deixaram a CIA e outras agências temerosas de estarem novamente erradas em seus pareceres sobre o Iraque.

Versões liberadas do documento de outubro de 2002 incluíam dissensões de algumas agências de inteligência sobre algumas questões chaves, incluindo a retomada ou não pelo Iraque de seu programa nuclear.

Funcionários do governo que descreveram a nova estimativa sobre as perspectivas para o Iraque não disseram se ela inclui dissensões significativas.

Além da nova estimativa, os republicanos do Comitê de Relações Exteriores do Senado divulgaram outros alertas na quarta-feira sobre a campanha americana no Iraque, dizendo que o pedido do governo Bush para redirecionar mais de US$ 3 bilhões para a segurança de um pacote de ajuda de US$ 18,4 bilhões, de novembro passado, era sinal de problemas sérios.

"Apesar de reconhecermos que estes fundos não serão gastos de forma insensata", disse Lugar, o presidente do comitê, "o ritmo lento dos gastos na reconstrução significa que estamos falhando em tirar proveito de um de nossos instrumentos mais potentes para influenciar a direção do Iraque".

Menos de US$ 1 bilhão foi gasto até o momento.

Hagel disse durante uma audiência que o pedido do Departamento de Estado foi "um claro reconhecimento de que não estamos nos mantendo reféns de uma grande ilusão de que estamos vencendo".

Ele prosseguiu dizendo que o pedido para redirecionamento do dinheiro "não contribui, na minha opinião, para um quadro bonito, para um quadro que mostre que estamos vencendo, mas contribui para isto: um reconhecimento de que estamos em grandes apuros".

O líder da bancada democrata do comitê, o senador Joseph R. Biden Jr. de Delaware, foi mais direto. "A janela está fechando, a janela de oportunidade", disse Biden. "Eu acho que ela está prestes a ser fechada com força."

Biden tem sido um dos críticos mais severos das políticas de Bush para o Iraque. Análise da agência demonstra pessimismo sobre o destino do país George El Khouri Andolfato

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