UOL Notícias Internacional
 

16/09/2004

Democratas criticam a atuação do vice de Kerry

The New York Times
Adam Nagourney e

Randal C. Archibold

Em Pomeroy, Ohio
Don Imus fez uma pergunta ao senador John Kerry quando este compareceu ao programa de televisão matinal do apresentador, nesta quarta-feira (15/09). "Onde está Edwards?", perguntou Imus, referindo-se ao companheiro de chapa de Kerry, o senador John Edwards. "Fico me perguntando se ele ainda faz parte da sua chapa. Ultimamente não tenho ouvido falar muito dele".

Kerry garantiu a Imus --que apóia Kerry há muito tempo-- que Edwards está se empenhando na campanha. Mas atualmente Imus não é a única pessoa a fazer tal pergunta.

Em um momento em que o vice-presidente Dick Cheney tem zombado de Kerry e atacado o candidato democrata em todo o país --destacando-se no tradicional papel combativo reservado aos candidatos à vice-presidência--, Edwards adota uma postura decididamente menos beligerante e mais discreta, fazendo uma campanha gentil em comunidades como esta pequena cidade do sudeste de Ohio.

Os assessores de Kerry dizem que Edwards está fazendo o que eles queriam, misturando os ataques a Bush e a Cheney com o estilo sorridente e amável de campanha que se tornou a sua marca registrada durante a batalha das primárias democratas --e foi isso que fez com que Kerry o quisesse ter como companheiro de chapa.

Edwards, em uma curta entrevista no seu ônibus que estava parado no acostamento de uma estrada local nesta quarta-feira, negou a acusação de estar sendo muito discreto ou de não atacar energicamente Bush ou Cheney.

"Quando George Bush ou Dick Cheney dizem algo ultrajante --e eles fizeram tal coisa várias vezes-- eu respondi de forte e rápida", afirmou. "Quando mentiram a respeito de John Kerry, respondi da mesma forma".

"A campanha que a princípio procurou oferecer uma visão positiva para o país, evoluiu para aquilo que vemos hoje --que é uma postura agressiva contra o atual governo", disse Edwards.

Mas em um momento em que Kerry sofre ataques intensos de Bush e Cheney, alguns democratas dizem estar preocupados com o fato de Edwards dar mostras de ficar à margem do processo. E isso exatamente quando Kerry necessita que Edwards faça por ele o que Cheney vem fazendo por Bush.

Muita gente faz comparações com a suave campanha pela vice-presidência feita por Joseph I. Lieberman em 2000, e diz temer que Edwards --como Lieberman-- se intimide durante o debate com Cheney no mês que vem.

"Ele precisa colocar um pouco de pimenta na sua mensagem", diz Donna Brazile, que gerenciou a campanha de Al Gore em 2000. "Edwards tem que sair e atacar. Precisa haver certos contrastes bem definidos, e John Edwards tem que fazer com que isso aconteça".

O senador Joseph Biden, de Delaware, amigo e conselheiro de Kerry, criticou o tom dos ataques de Cheney aos democratas, mas reconheceu que esses ataques estão "provavelmente ajudando o presidente".

"Temos que tornar a vida do vice-presidente infernal e dizer a verdade, e isso exige que desmascaremos as mentiras óbvias contadas por Cheney e que o responsabilizemos por elas --alguém deveria estar fazendo tal coisa", disse ele. Quando perguntado se essa pessoa deveria ser Edwards, Biden respondeu: "Teoricamente sim".

E Tony Coelho, estrategista político dos democratas que participou da campanha de Gore em 2000 afirmou: "A campanha de Bush está usando Cheney de forma bem mais agressiva que a de Kerry utiliza Edwards".

"Edwards não dá a impressão de estar engajado a todo momento", disse ele. "Eles o usam um pouco como um martelo, mas não muito. Não entendo tal coisa. A campanha precisa que ele atue dessa forma".

O fato de Edwards descobrir que o seu papel está sendo questionado por democratas proeminentes reflete a forma como o campo de batalha mudou nas dez semanas desde que Kerry escolheu o seu companheiro de chapa. A escolha foi quase que unanimemente aclamada pelos outros democratas.

À época, Edwards dava a impressão de ser um complemento vibrante e de aparência jovem para Kerry. Edwards seria um sulista moderado com apelo entre os eleitores rurais que, para Kerry, um democrata de Massachusetts, são particularmente importantes. E em uma campanha na qual muitos eleitores indecisos são independentes que tendem a se retrair frente a táticas políticas sujas, Edwards --cujo único destaque nas primárias foi seu ataque aos ataques eleitorais-- pareceu ser um companheiro de chapa valioso.

Mas no momento em que Kerry se vê em segundo lugar nas pesquisas e sofre ataques incansáveis de Cheney --o vice-presidente chegou a sugerir, na semana passada, que a eleição de Kerry seria um convite a um outro ataque terrorista--, alguns democratas estão recalculando essa equação.

"Candidatos vice-presidenciais atuam como cães de ataque", disse um assessor de Kerry, que pediu que seu nome não fosse divulgado. "Nosso candidato à vice-presidência foi escolhido pelo seu grande otimismo. Ele tomou a decisão de banir a negatividade durante a sua própria campanha nas primárias. Conseqüentemente, ele não tem o perfil do cão de ataque mais efetivo".

Parte do motivo pelo qual alguns democratas tinham a impressão de que Edwards sumiu é o fato do comitê de Kerry o estar enviando, na maioria das vezes, às regiões rurais do país onde ele não tem muita probabilidade de atrair a atenção nacional. Os seus assessores argumentam que, nas cidades onde faz comícios, Edwards conta com coberturas extensas e de destaque nos jornais e estações de televisão locais.

Além disso, os ex-candidatos à presidência que se tornam candidatos à vice-presidência invariavelmente retrocedem um pouco. Alguns democratas sugerem que tal fato é particularmente verdadeiro neste ano, porque Kerry é fisicamente maior que o seu vice, minimizando a sua presença nos palanques, enquanto a oratória de Cheney eclipsa até mesmo os mais duros ataques de Edwards.

A situação de Edwards também é complicada pelo fato de ele desejar proteger o seu patrimônio político para o futuro. E ele não oculta que, não importa o que aconteça neste ano, deseja concorrer novamente à presidência. Alguns democratas dizem que Edwards teme ficar lembrado nesta campanha da mesma forma que figuras como Richard M. Nixon ou Spiro T. Agnew.

Além disso, embora Edwards seja um advogado de tribunais, o fato de ter evitado tão sistematicamente fazer ataques durante as primárias o deixou destituído dos instrumentos dos quais poderia precisar neste duro mês de setembro.

"Ele não tem muita experiência quando se trata de demolir pessoas", diz Paul C. Light, professor de serviço público na Universidade de Nova York, e especialista em vice-presidência.

Edwards foi o último grande oponente de Kerry nas primárias, embora mais tarde tenha-se esforçado para neutralizar quaisquer tensões que tenham existido entre os dois. Em uma tática que não é incomum nesse tipo de situação, o comitê democrata cercou Edwards de pessoas leais a Kerry; o ex-comitê de Edwards foi transferido para outros setores da campanha.

Os assessores de Kerry dizem que Edwards não fazia parte do círculo político próximo a Kerry, e afirmam que o candidato à vice não esteve envolvido, por exemplo, em decisões recentes por parte de Kerry em sacudir a sua equipe.

Mesmo assim, nas entrevistas, Edwards descreveu o seu relacionamento com Kerry como sendo próximo, dizendo que os dois conversam todos os dias, trocam conselhos e idéias quanto aos discursos e os debates que estão por vir.

"Todos os dias falamos sobre o rumo que a campanha está tomando", diz ele. "Creio que nós dois nos sentimos como se estivéssemos em uma batalha por nosso país e estamos juntos nesta trincheira".

Edwards disse ainda que está fazendo a campanha incansavelmente, passando no máximo um ou dois dias por semana com a mulher e os dois filhos pequenos na sua casa em Washington.

"Não acredito ser possível fazer uma campanha mais intensa", disse ele. "Faço campanha de seis a sete dias todas as semanas. Participo de eventos e comícios com milhares e milhares de pessoas. Tenho obtido uma resposta bastante positiva".

Mesmo assim ele sugeriu na sua entrevista que teria que se ajustar à mudança das primárias para a campanha à vice-presidência.

"São situações diferentes como a noite e o dia", disse ele. "Atacar pessoalmente outros democratas que concordam com você com relação a tantas coisas é totalmente diferente de criticar aquilo que este presidente e o seu governo fizeram com este país. Não tenho a menor hesitação em responsabilizá-los por esta situação".

E na quarta-feira, após Imus ter criticado Kerry no seu programa na MSBNC, Edwards pareceu dedicar grande parte do seu discurso a ataques à Casa Branca. Quando um repórter perguntou em Parkersburg, West Virginia, por que Bush não foi atacado devido ao escândalo relativo aos abusos cometidos na prisão Abu Ghraib, Edwards respondeu com satisfação.

"Você viu algum dia o presidente ou o vice-presidente assumirem qualquer responsabilidade pelo que aconteceu por lá?", questionou. Edwards deveria bater mais em Bush e Cheney, dizem partidários Danilo Fonseca

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