UOL Notícias Internacional
 

16/09/2004

Guarda Nacional é um telhado de vidro para Bush

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Colunista do NYTimes
O principal problema do presidente Bush relativo aos anos em que serviu na Guarda Nacional não é o fato de ele ter feito uso de alguns atalhos indevidos em 1972. O problema é que o presidente ainda se recusa a esclarecer a situação.

Assim, no momento em que nos vemos em meio ao furor sobre os documentos da CBS que demonstram que Bush foi favorecido na sua carreira na Guarda Nacional, é preciso manter certas coisas em mente.

Primeiro, há motivos para se suspeitar de alguns dos documentos da CBS. Para começar, um veterano da Guarda Nacional que trabalhou com o suposto autor, tenente-coronel Jerry Killian, me diz que as abreviaturas nos documentos estão erradas. Ele diz que a palavra grupo deveria ser abreviada como "GP" e não "GRP", que deveria haver um ponto após "Lt" (abreviatura em inglês de tenente), e que o número do Social Security (previdência social dos Estados Unidos) teria que ser usado, ao invés do seu antigo número de serviço.

Segundo, não deveríamos nos distrair com as dúvidas quanto aos documentos da CBS. Não há dúvidas de que Bush tenha se beneficiado da sua influência política. O presidente da Assembléia Legislativa do Texas admitiu ter dado um telefonema pedindo que Bush ingressasse na Guarda Nacional.

E isso tem importância? Preocupa-me menos o fato de Bush ter usado influência política há três décadas do que a sua atual recusa em admitir o fato. O percurso seguido por Bush a fim de evitar o recrutamento para a Guerra do Vietnã ressalta as disparidades de classe nos Estados Unidos, mas as suas políticas parecem se basear em uma espécie de darwinismo social segundo o qual as pessoas de sucesso criam as suas próprias oportunidades. As suas reduções de impostos e toda a sua visão de mundo parecem estar embasadas não em ideais nobres, mas em direitos das elites.

Em um dia do outono de 1973, quando Bush era um calouro na Escola de Negócios da Universidade Harvard, ele vestia uma jaqueta da Guarda Nacional quando topou com um dos seus professores. O professor, Yoshi Tsurumi, diz ter perguntado a Bush como este conseguira uma vaga na guarda.

"Ele me disse que os pais tinham bons amigos que o colocaram lá apesar da longa fila de candidatos", lembra Tsurumi, que atualmente leciona na Faculdade Baruch, que faz parte da Universidade de Nova York. Tsurumi diz que, logo a seguir, perguntou a Bush como foi possível terminar tão cedo o seu serviço na Guarda Nacional.

"Ele disse ter conseguido dispensa antecipada com honras", lembra Tsurumi. "Eu lhe perguntei como conseguiu tal coisa, e ele me disse novamente que o seu pai tinha um bom amigo", conta Tsurumi. "A seguir começamos a falar sobre a Guerra do Vietnã. Ele era plenamente a favor da guerra".

Tsurumi diz que se lembra tão bem de Bush porque o jovem estava sempre fazendo comentários ultrajantes: afirmando que o New Deal (política econômica implementada em 1933 pelo presidente Franklin D. Roosevelt) era um programa socialista, chamando a SEC (comissão de títulos e câmbio) de impedimento aos negócios, referindo-se ao movimento dos direitos civis como "socialista/comunista", e declarando que "as pessoas são pobres por serem preguiçosas". (Dan Bartlett, um dos assessores de Bush, nega que o presidente tenha feito tais declarações).

Portanto, no meio dessa trapalhada composta de testemunhas contraditórias e documentos suspeitos, o que realmente sabemos sobre Bush e a Guarda Aérea Nacional?

Está bem claro que Bush ingressou na Guarda Nacional devido ao seu sobrenome, mas que fez um bom trabalho nos seus primeiros anos de serviço. "Ele era impecável como piloto", me assegurou Dean Roome, um piloto da mesma unidade, que foi companheiro de alojamento de Bush por um breve período. Roome acrescentou que em 1970 Bush sondou a possibilidade de ser transferido para o Vietnã, mas que seu pedido foi negado --e, se ele o fez, isso é um crédito para o presidente.

A seguir, em 1972, algo saiu terrivelmente errado. A minha intuição diz que Bush passou por dificuldades pessoais sobre as quais até hoje se sente embaraçado em falar. Além disso, Roome sugeriu que as mudanças implementadas na base aérea do Texas estavam tornando a vida dos pilotos novos mais difícil, de forma que às vezes a única chance que Bush tinha de voar era quando servia de alvo para aprendizes --o que não é a mais empolgante das tarefas.

Por qualquer que tenha sido o motivo, o desempenho de Bush se deteriorou, ele faltou ao exame físico de vôo, deixou para sempre de pilotar aeronaves militares, foi transferido para o Alabama e não compareceu para o cumprimento de certas missões que lhe foram atribuídas. Os pilotos que entrevistei que à época estavam no Alabama têm certeza absoluta de que Bush não aparecia para participar dos exercícios exigidos.

No ano seguinte, Bush foi para a Escola de Negócios da Universidade Harvard. Ainda faltava quase um ano para que ele terminasse o seu serviço na Guarda Nacional, mas ele escapuliu, após os contribuintes terem gastado US$ 1 milhão com o seu treinamento, nunca tendo cumprido inteiramente com suas obrigações.

Mais de três décadas depois, isso não deveria ser um grande problema. O que mais me preocupa é a atual falta de honestidade quanto ao passado --e a forma como Bush está jogando pedras nos outros sem perceber que ele próprio está vivendo em uma casa de vidro. Presidente não esclarece a forma como se livrou do serviço militar Danilo Fonseca

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