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17/09/2004

Estrabismo pode ter ajudado Rembrandt a pintar

The New York Times
Sandra Blakeslee

Em Nova York
Ele tinha especial sensibilidade do caráter humano, uma capacidade de entender a luz e a sombra e mão virtuosa com um pincel. Mas os auto-retratos de Rembrandt revelam outra característica que pode ter contribuído para sua genialidade: um olho preguiçoso.

Tendo estudado 36 desses auto-retratos inclementes, uma neurocirurgiã sugere que Rembrandt não tinha visão binocular --ou seja, como seus olhos não se alinhavam corretamente, seu cérebro usava automaticamente apenas um olho para muitas tarefas da visão. Isso pode ter permitido que ele achatasse imagens automaticamente ao observar o mundo e depois transferisse essa perspectiva para a tela bidimensional, diz Margaret S. Livingstone, professora de neurobiologia da Faculdade de Medicina de Harvard.

Suas conclusões foram publicadas na quinta-feira (16/9) em um artigo da revista "The New England Journal of Medicine".

Geralmente, a pessoa treina sua habilidade de retratar uma cena tridimensional em uma superfície plana fechando um olho, disse Livingstone.

"Professores de arte ensinam os alunos a fecharem um olho quando aprendem a desenhar", disse ela. Rembrandt talvez não precisasse.

Livingstone, especialista em percepção visual, disse que observou pela primeira vez algo diferente nos olhos de Rembrandt há vários anos, enquanto admirava vários de seus auto-retratos no Louvre. Os olhos eram levemente assimétricos.

Algumas vezes o olho direito estava fora de alinhamento, outras vezes o esquerdo. Ela não sabia se o efeito era sistemático ou ao acaso.

Para descobrir, examinou junto com um colega, Bevil R. Conway, imagens de alta-resolução dos auto-retratos, em pinturas a óleo e gravuras, considerados Rembrandts genuínos. A maior parte dos trabalhos, produzidos em um período de quatro décadas, mostram um olho voltado diretamente para quem vê e o outro se desviando para o lado. Em geral, quando Rembrandt fez retratos dos outros, os olhos eram alinhados corretamente, disse Livingstone.

Os pesquisadores procuraram um padrão em 24 pinturas a óleo e 12 gravuras nas quais os dois olhos podiam ser vistos claramente e confirmaram o estrabismo em 35 dos 36 trabalhos. Em 23 das 24 pinturas, o olho do lado direito da pintura mirava direto para frente, enquanto o outro se desviava para fora. Nas 12 gravuras, a assimetria era revertida, porque o artista desenha em uma chapa e reproduz a imagem reversa, disse ela.

Mestres estrábicos

Walter Liedtke, curador de pintura européia e especialista em arte holandesa e flamenga do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, que também se concentra em percepção visual, disse que as conclusões pareciam plausíveis. Entretanto, ele disse que no caso dos auto-retratos, o efeito pode ser resultante do processo de pintura.

"Rembrandt poderia estar olhando em um espelho na hora de pintar", disse ele. "O cavalete estaria de um lado e o espelho do outro. Um olho estaria mais ou menos perpendicular ao espelho, enquanto o outro, é difícil de dizer. Estaria se movendo."

O estrabismo divergente diagnosticado por Livingstone e Conway geralmente começa na infância, quando os músculos que alinham os dois olhos não se desenvolvem da maneira correta. Logo, um dos olhos se concentra em cenas visuais enquanto o outro vagueia para o lado. Para evitar a visão dupla, as crianças aprendem a suprimir imagens do olho que vagueia. O efeito é similar ao de se fechar um olho.

As pessoas que sofrem do problema podem ser vesgas ou estrábicas, disse Livingstone. De qualquer forma, não têm visão binocular, ou seja, seus cérebros não conseguem combinar as imagens independentes de cada retina para criar a percepção de profundidade.

Felizmente, essa falha não é um problema sério na vida, disse Livingstone. O cérebro usa muitas pistas para perceber a profundidade, então as pessoas estrábicas têm visão quase normal. Uma exceção é que elas não conseguem, por mais que tentem, ver imagens tridimensionais quando brincam com livros que mostram cenas separadas para cada olho, como View-Masters. Elas também não conseguem ver as chamadas imagens mágicas, nas quais um objeto aparece de um fundo aparentemente caótico.

Cerca de 10% da população tem esse tipo de problema, disse Livingstone. A condição pode ser tão sutil que as pessoas não a reconhecem. Os olhos podem parecer alinhados, mas serem ligeiramente desviados. Esses indivíduos tendem a ser disléxicos.

Curiosos quanto à freqüência da falta de visão binocular e a dislexia entre artistas, Livingstone e seus colegas, inclusive um neuro-oftalmologista, examinaram os olhos de 53 artistas famosos selecionados de fotografias da Galeria de Retratos Nacional em Washington.

"Encontramos um número surpreendente deles com olhos mal alinhados", disse ela. Sua lista até agora inclui: Gustav Klimt, Marc Chagall, Edward Hopper, Jasper Johns, Man Ray, Thomas Moran, Alexander Calder, Winslow Homer, Frank Stella, Willem De Kooning, Picasso, Andrew Wyeth, N.C. Wyeth, Robert Rauschenberg e Roy Lichtenstein.

Problema pode ajudar

Ao telefone na quarta-feira, Rauschenberg disse que não tinha problemas em ver imagens de 3 dimensões em View-Masters, mas que era extremamente disléxico. "Vejo as litografias do lado positivo e negativo ao mesmo tempo", disse ele. "Não tenho problema nenhum em fazer provas. Vejo das duas formas."

A falta de visão binocular pode ajudar os artistas que trabalham com o plano do papel, disse Conway, que também é artista. "Por onde começar?" disse ele. "O mundo de verdade é tão ricamente tridimensional que é difícil transmitir essa riqueza de profundidade no papel."

Os artistas usam muitos truques para criar a ilusão de profundidade, observou. As coisas desenhadas com maior contraste e resolução parecem mais próximas de quem vê. Tons de azul e menor nitidez empurram os objetos para longe. Tais características são muito mais óbvias para o artista quando os estímulos duplos são removidos.

Finalmente, os artistas que não têm visão binocular têm uma habilidade natural de se concentrar nos formatos de objetos e do espaço em torno do objeto, freqüentemente chamado de espaço negativo, disse Conway. Isso lhes dá uma vantagem natural no desenvolvimento de imagens planas.

David Freedberg, professor de história da arte da Universidade de Columbia que se especializa em arte holandesa do século 17 e na ciência da percepção, disse na última quarta-feira que as conclusões são "interessantes e plausíveis".

"É claro, muitas pessoas que não têm visão estereoscópica não têm o menor talento artístico", disse ele. A condição pode "ajudar" a desenhar, disse ele, mas não explica por si só a genialidade de Rembrandt. Especialistas analisam como a doença teria afetado suas as obras Deborah Weinberg

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