UOL Notícias Internacional
 

17/09/2004

Iraque não tinha armas ilícitas, aponta relatório

The New York Times
Douglas Jehl

Em Washington
Um novo relatório sobre o programa de armas ilícitas iraquianas deve concluir que o governo de Saddam Hussein tinha a intenção clara de produzir armamentos nucleares, químicos e biológicos caso as sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) fossem suspensas, disseram na quinta-feira (16/09) autoridades governamentais.

Mas o relatório diz que não há evidências de que o Iraque tivesse dado início a qualquer programa em grande escala para a produção de armas quando os Estados Unidos invadiram o país no ano passado.

Segundo as autoridades, a evidência mais específica de um programa de armas ilícitas foi descoberta em laboratórios clandestinos operados pelo Serviço Iraquiano de Inteligência, que seria capaz de produzir pequenas quantidades de agentes letais químicos e biológicos, provavelmente para serem usados em assassinatos, e não para infligir destruição maciça.

Um relatório de quase 1.500 páginas, que atualmente circula pelo governo, reafirma essencialmente as informações contidas em uma revisão interina completada há 11 meses, dizem as autoridades. Mas elas afirmam que o novo trabalho traz quantidade considerável de detalhes, particularmente a respeito da intenção iraquiana de produzir armas caso as sanções da ONU fossem abrandadas ou suspensas, uma avaliação que segundo essas autoridades se baseou em documentos assinados por lideranças graduadas e nos interrogatórios de ex-cientistas iraquianos e funcionários de alto escalão, assim como em outros registros.

As autoridades disseram que o relatório retrataria um quadro um pouco mais complicado e detalhado, baseado em um exame bem mais extenso de locais suspeitos de esconderem instalações bélicas, em registros e em interrogatórios. Elas dizem que as novas informações contidas no relatório baseado na inspeção in loco dos laboratórios clandestinos descrevem a possibilidade de que o objetivo dessas instalações fosse fabricar pequenas quantidades de veneno.

Uma versão final do relatório, de autoria de Charles A. Duelfer, o principal inspetor norte-americano de armas no Iraque, deve se tornar público nas próximas semanas.

No seu formato atual, o relatório reafirma descobertas interinas prévias, segundo as quais não havia evidências de que o Iraque possuía arsenais de armamentos ilícitos à época da invasão norte-americana em março de 2003. Estimativas de inteligência anteriores à guerra, que diziam que o Iraque realmente possuía arsenais químicos e biológicos, e que estaria retomando o seu programa de armas nucleares, foram citadas pelo governo Bush como sendo um dos maiores motivos para ir à guerra.

Nesse momento em que faltam apenas algumas semanas para a eleição presidencial, republicanos e democratas devem tirar proveitos de diferentes aspectos do relatório com o objetivo de marcar pontos políticos.

O presidente Bush, que disse que o Iraque representava uma ameaça para o mundo, possuindo ou não armas ilícitas, provavelmente vai chamar atenção para o fato de que Saddam procurava adquirir armas ilícitas. Já o seu adversário político, o senador John Kerry, que acusou Bush de ludibriar o país, conduzindo-o à guerra, certamente valorizará a conclusão de que o Iraque não dera início a um programa de produção de armas em larga escala.

A revelação paralela na última quarta-feira de que uma sigilosa Estimativa Nacional de Inteligência concluída em julho traça um prognóstico para o Iraque mais sombrio do que aquele que Bush admitiu já estava alimentando a polêmica sobre o Iraque na campanha eleitoral.

O relatório sobre as armas iraquianas é o resultado de cerca de 15 meses de trabalho por parte do Grupo de Pesquisas sobre o Iraque, uma equipe militar e de inteligência com mais de 1.200 integrantes que inspecionou vários locais suspeitos, entrevistou centenas de ex-cientistas e autoridades iraquianas e examinou milhares de documentos a fim de chegar a uma conclusão final.

Conforme foi descrito por autoridades governamentais, as revelações do relatório de Duelfer, na sua forma atual, são bastante consistentes com conclusões anteriores, incluindo um relatório divulgado em outubro de 2003, feito por David A. Kay, o primeiro inspetor norte-americano graduado.

Quando deixou a equipe em janeiro, Kay disse: "Todos nós estávamos provavelmente errados a respeito dos arsenais de armas de destruição em massa nucleares, químicas e biológicas".

Mas ele afirmou também que havia evidências de que o Iraque estaria desenvolvendo "quantidades para teste" de armas químicas e pesquisando formas de produzir ricina para a utilização em armamentos, e ainda que o país fez poucos progressos no sentido de retomar o seu programa nuclear.

Ao tentar desvendar o mistério relativo ao fato de não ter sido encontrada nenhuma arma ilícita no Iraque, o relatório de Duelfer deverá se dedicar mais à questão das intenções iraquianas. Mas o documento não chegará a oferecer uma conclusão final a respeito do programa iraquiano de armas, dizem as autoridades, incluindo a ainda não comprovada teoria de que as armas ilícitas teriam sido deslocadas para outros países.

O documento dirá que uma grande quantidade de documentos adicionais, incluindo aqueles contidos em 10 mil caixas recém-descobertas, ainda precisa ser traduzida e estudada antes que se chegue a qualquer conclusão definitiva quanto às capacidades e intenções do Iraque. O Grupo de Pesquisas sobre o Iraque continuará a fazer o seu trabalho, dizem as autoridades, e poderá divulgar relatórios adicionais.

Há reuniões agendadas para a semana que vem para que se decidam que parcelas do novo relatório poderiam se tornar públicas. Uma reunião liderada por Duelfer no início deste mês em Londres apresentou versões anteriores do relatório para cerca de 24 especialistas britânicos, australianos e norte-americanos. A versão final do relatório continua incompleta.

Parte do conteúdo dos documentos foi descrita por funcionários governamentais de várias agências que viram todo o trabalho, ou frações dele.

As autoridades falaram sob a condição de que não fossem identificados por nome, agência e, em certos casos, por nacionalidade, já que os documentos continuam sob sigilo e porque o seu conteúdo ainda não está no formato final. Eles incluíram alguns documentos que diziam que o Iraque representava um perigo que justificava a invasão pelos Estados Unidos e alguns que diziam que não.

Quanto às armas nucleares, relatórios norte-americanos anteriores não traziam evidências de que o Iraque deu início a esforços ativos para retomar um programa de armas nucleares que foi obrigado a abandonar após a Guerra do Golfo Pérsico de 1991. As autoridades que descreveram o relatório se recusaram a falar sobre o seu conteúdo relativo a questões nucleares.

Duelfer está ainda em Bagdá e, por meio de um porta-voz, recusou um pedido de entrevista. Em uma entrevista concedida no mês passado a "The Los Angeles Times", Duelfer se recusou a discutir detalhadamente qualquer descoberta, mas disse que o seu relatório documentaria as evidências coletadas até o momento e procuraria explicar "o processo de evolução e decisão" com relação ao programa de armas ilícitas iraquianas até 2003.

Duelfer disse naquela entrevista que as questões envolvendo a busca no Iraque das chamadas armas de destruição em massa "merecem algo mais do que um exame arqueológico singelo do programa para a fabricação desses armamentos".

Na última quinta-feira, um oficial de inteligência disse que a revisão interna ora em andamento tem como objetivo "tornar acessível à população a maior parcela possível do documento, de forma consistente com fontes e métodos de inteligência". O oficial de inteligência acrescentou: "Isso leva tempo".

O relatório de Kay em outubro citou "uma rede clandestina de laboratórios e esconderijos no âmbito do Serviço Iraquiano de Inteligência" que continha material apropriado para pesquisas com armas químicas e biológicas.

O relatório de Duelfer, baseado nas inspeções de laboratórios clandestinos, dirá que os iraquianos foram capazes de produzir pequenas quantidades de agentes letais ou de conduzir pesquisas bastante primitivas em uma etapa bem inicial rumo à fabricação mais ampla de armamentos.

Duelfer, que assumiu o cargo de chefe de inspeções de armamentos em janeiro, disse em um depoimento no Congresso, em março, que o Iraque possuía instalações com dupla finalidade, capazes de produzir armas químicas ou biológicas tão logo fosse dada uma ordem nesse sentido. Ele observou ainda que o Iraque trabalhou até março de 2003 na construção de novas instalações para a fabricação de produtos químicos.

Mas as autoridades que viram o relatório de Duelfer dizem que ele não traz evidências conclusivas de que havia qualquer programa em andamento no sentido de utilizar essas instalações para a produção de armamentos. Plano de formar arsenal de destruição em massa não saiu do papel Danilo Fonseca

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