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17/09/2004

Johnny Ramone era o guitarrista pioneiro do punk

The New York Times
Ben Sisario

Em Nova York
Johnny Ramone, o guitarrista de rosto impassível da banda punk Ramones, cujas rajadas sonoras rápidas e parecidas com serras elétricas estabeleceram a base para uma escola de guitarra do rock, morreu na tarde de quarta-feira (15/09) em sua casa em Los Angeles. Ele tinha 55 anos.

A causa foi câncer de próstata, disse Arturo Vega, o antigo diretor artístico e porta-voz da banda.

Ramone, nascido John Cummings, é o terceiro membro dos Ramones a morrer em pouco mais de três anos, após Joey (Jeffrey Hyman), o vocalista, que morreu de câncer em abril de 2001; e Dee Dee (Douglas Colvin), o baixista, que morreu de aparente overdose de drogas em junho de 2002. Da banda original resta apenas Tommy (Tom Erdelyi).

Ao despir a guitarra do rock de sua ornamentação e tocar quase toda nota em uma palhetada acelerada e violenta, Ramone ajudou a criar o som punk.

Seu estilo --rápido, repetitivo e agressivo, apesar de sempre harmonioso-- influenciou, direta ou indiretamente, quase todos os guitarristas punk que se seguiram, de Steve Jones do Sex Pistols e Joe Strummer do Clash até Kurt Cobain do Nirvana, assim como guitarristas contemporâneos como Billie Joe Armstrong do Green Day e Tom DeLonge do Blink-182.

"Eles influenciaram muitas pessoas", disse Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, na quinta-feira. Vedder fez o discurso de introdução dos Ramones no Rock and Roll Hall of Fame em 2002. "Eles mostraram para elas que elas também podiam fazer. A simplicidade mostrou que elas podiam subir em um palco e tocar daquela forma."

Os Ramones freqüentemente citavam como inspiração o hard rock dos Stooges e o poder primário do MC5, assim como as produções para grupos femininos de Phil Spector nos anos 60, que consideravam exemplos de melodia e brevidade.

Mas o som da banda tinha pouco precedente quando o primeiro álbum foi lançado em 1976. As canções eram desconcertantemente curtas e rápidas --a mais curta, "Judy Is a Punk", tinha apenas 1 minuto e 32 segundos-- e tinham uma elegância bruta que tornou muitas, como "Blitzkrieg Bop", "Beat on the Brat" e "I Wanna Be Sedated", standards do punk rock.

Ramone certa vez descreveu seu estilo de guitarra como "rock and roll puro, branco, sem influência do blues".

"Eu queria que nosso som fosse o mais original possível", disse ele. "Eu parei de escutar tudo."

Raramente aliviando a carranca em seu rosto, Ramone tocava com uma determinação que espelhava seu lugar na banda. Cada membro tinha claramente um papel definido, musical ou não, e Johnny era o encarregado. Ele conduzia os negócios da banda e liderou o grupo em detalhes que variavam do som ao modo de vestir: jaquetas de couro, jeans rasgados e tênis furados, a banda sempre apresentou um visual padronizado de um exército punk uniformizado.

"Ele era o líder da banda", disse Danny Fields, o primeiro empresário do grupo. "Ele era o chefe e você trabalhava para ele. Ele era muito exigente, mas muito correto."

Após anos trabalhando em construção --ele tentou a faculdade, mas largou poucos dias depois-- Ramone formou o grupo em 1974 em Forest Hills, Queens, com Hyman, Colvin e Erdelyi.

No final dos anos 60 ele tocou contrabaixo no Tangerine Puppets, uma banda de rock de garagem, mas trocou de instrumento no início de 74, quando comprou uma guitarra Mosrite de US$ 50 em uma visita à loja Manny's Music, na Rua 48 Oeste em Manhattan.

O novo grupo tirou seu nome de um pseudônimo que Paul McCartney usava enquanto estava na estrada com os Beatles, e começou a tocar regularmente em um bar do Bowery chamado CBGB. O show dos Ramones raramente durava mais do que 30 minutos, e as canções eram emendadas em sucessão rápida.

O plano deles era fazer uma pausa entre as músicas longa o suficiente para um membro, geralmente Dee Dee, gritar "Um-Dois-Três-Quatro!" Mas no início tal tempo geralmente era gasto com discussões no palco sobre qual canção tocar.

A experiência deles foi desde o início uma mistura de sucesso e frustração. Quando os Ramones tocaram pela primeira vez em Londres, em 4 de julho de 1976, eles foram recebidos por um público que os venerava, e foram abordados com medo e admiração pelos membros do Sex Pistols, Clash e Damned, todos grupos fundadores da frutífera cena punk britânica.

Mas quando os Ramones voltaram para casa em Nova York, eles tiveram dificuldade para marcar shows em Connecticut e Nova Jersey. Nos primeiros anos da banda, todos os seus membros se amontoavam no loft de Vega.

Apesar da banda nunca ter tido um grande hit nas paradas, ela persistiu por 22 anos e mais de uma dúzia de álbuns de estúdio, incluindo o primeiro que levava o nome da banda; "Leave Home" (1977); "Rocket to Russia" (1977); "End of the Century" (1980), gravado com Spector; e "Adios Amigos" (1995), o último.

Ao longo dos anos a banda manteve uma agenda desgastante de shows, e quando estava na estrada, Ramone anotava atentamente os detalhes de cada show. A banda fez sua última apresentação, a de Nº 2.263, em 6 de agosto de 1996, no Palace de Los Angeles.

Aquele teatro, agora chamado Avalon, foi o local do tributo ao 30º aniversário dos Ramones no domingo, com apresentações de Rob Zombie, Henry Rollins, X, Vedder e os Red Hot Chili Peppers.

Foi, como disse Vega, "um tributo velado a Johnny", e no show Rob Zombie chamou Johnny Ramone ao palco para que o público pudesse gritar "Hey ho, let's go!" o grito de guerra da banda e as primeiras palavras de sua canção mais famosa, "Blitzkrieg Bop".

Outro concerto de aniversário está planejado para Nova York em 8 de outubro, que é a data de aniversário tanto de Johnny quanto de C.J. Ramone (Christopher John Ward), o baixista que substituiu Dee Dee em 1989. O concerto ocorrerá no Spirit, na Rua 27 Oeste em Chelsea, e contará com as bandas Blondie e Strokes, disse Vega.

Fields, o primeiro empresário do grupo, disse que após a separação da banda, Johnny não trabalhou mais. "A meta de Johnny era se aposentar", disse ele. "Tudo o que ele queria era poder parar de trabalhar. Ele tinha orgulho do que fez, mas ainda assim queria parar. As pessoas lhe perguntavam: 'O que você vai fazer quando a banda acabar?' E ele dizia: 'Assistir beisebol e filmes de terror'."

Durante grande parte do ano passado, Ramone vinha trabalhando em suas memórias com Steve Miller, um repórter do jornal "The Washington Times". Miller disse na quinta-feira que suas entrevistas estavam completas.

Ramone sempre estava em choque com os membros de sua banda em relação a roupas, política e relacionamentos. Um republicano ferrenho, Ramone brigava com Joey em torno das causas liberais do vocalista, e quando a banda foi introduzida no Rock and Roll Hall of Fame, Ramone disse: "Deus abençoe o presidente Bush, e Deus abençoe a América".

Depois que Johnny começou a sair com uma mulher que estava saindo com Joey, os dois deixaram de falar um com o outro. No ônibus de turnê, eles permaneciam em silêncio, geralmente passando mensagens um ao outro por meio de um intermediário. Johnny Ramone casou posteriormente com a mulher, atualmente Linda Cummings. Ele também deixou sua mãe, Estelle Cummings.

O silêncio de Johnny em relação a Joey continuou até a morte de seu companheiro de banda. Entrevistado em sua casa para o novo documentário "End of the Century: The Story of the Ramones", cercado por cartazes de filme de terror de sua grande coleção, Johnny não cedeu em sua recusa de se reconciliar com Joey.

"Eu só vou ser da forma que gostaria que alguém fosse comigo", disse ele no filme. "Se eu não gostar de alguém, não vou querer que esta pessoa me telefone quando eu estiver morrendo. Eu não vou querer que lamente não ter falado comigo. Ficarei feliz por não ter falado comigo. Se eu morrer, é assim que será." Câncer de próstata mata membro da banda Ramones aos 55 anos George El Khouri Andolfato

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