UOL Notícias Internacional
 

17/09/2004

Kerry diz que Bush vive num 'mundo de fantasia'

The New York Times
Elisabeth Bumiller

Em Las Vegas
O senador John Kerry disse a uma conferência da Guarda Nacional, nesta quinta-feira (16/09), que o presidente Bush estava vivendo em um mundo "de fantasia". Ele acusou o presidente de ter enganado o público quando apresentou um retrato otimista da guerra no Iraque à mesma conferência dois dias antes.

"Ele não falou a verdade", disse Kerry, o candidato presidencial Democrata, a uma multidão que o recebeu com tímidos aplausos. "Vocês merecem coisa melhor. O comandante tem que se explicar às tropas e à nação".

Citando a Avaliação Nacional de Inteligência preparada para Bush no final de julho, que apresenta um retrato desanimador das perspectivas no Iraque, Kerry disse que o presidente estava dando as costas a seu próprio serviço de inteligência e ignorando a realidade de que o Iraque está cada vez mais nas mãos dos terroristas.

"Ele não disse isso a vocês", disse Kerry, apesar de "seus próprios agentes de inteligência terem-lhe advertido durante semanas que a missão no Iraque está em sérias dificuldades. Essa é a dura verdade, por mais difícil que seja."

Kerry acrescentou: "Vocês merecem um presidente que não vai dourar essa verdade, ou dourar nossa segurança nacional com política, que não vai ignorar seu próprio serviço de inteligência, que não vai viver em um mundo imaginário, que vai dar ao povo americano a verdade e não o mundo fantasioso da interpretação."

Os comentários de Kerry contrastaram com a visão otimista do Iraque que Bush vem apresentando em sua campanha.

"O país se move na direção da democracia", disse Bush em um comício, na manhã de quinta-feira em St. Cloud, Minnesota, cerca de cinco horas antes de Kerry fazer suas observações.

"Eles têm um forte primeiro-ministro e um conselho nacional. As eleições nacionais estão marcadas para janeiro. Não faz tanto tempo assim que Saddam Hussein estava no poder, com suas câmaras de tortura e valas comuns."

A tarefa de responder a Kerry coube ao vice-presidente Dick Cheney, que contra-atacou quase imediatamente, em discurso em Albuquerque. Ele disse que os americanos "sabem que um verdadeiro líder tem que ter a habilidade de fazer uma decisão", apesar de Kerry ter dito que a "liderança começa com falar a verdade".

Cheney acrescentou: "O senador Kerry disse hoje que seria sermpe direto com o povo americano, em dias bons ou ruins. No caso do senador Kerry, isso significa que quando as manchetes estão boas, ele é a favor da guerra, e quando seus números vão mal, ele é contra."

Scott McClellan, secretário de imprensa da Casa Branca, procurou diminuir a diferença entre as declarações públicas do presidente e a avaliação confidencial da agência de inteligência, redigida durante a diretoria de George J. Tenet, que renunciou ao cargo de diretor da CIA em julho.

"O papel da CIA é procurar cenários diferentes", disse McClellan a repórteres no avião presidencial Air Force One, acrescentando que a Avaliação de Inteligência Nacional "realmente afirma o óbvio, que o presidente já falou muitas vezes".

O documento da inteligência ressalta três possibilidades para o Iraque, até o final de 2005. No pior dos cenários, tem-se uma guerra civil. No melhor, uma estabilidade tênue. Kerry disse, em seu discurso, que a fonte da sua informação era o jornal The New York Times, o primeiro a divulgar as avaliações da CIA, nesta quinta-feira.

Os assessores do senador disseram que a última vez que recebeu os relatórios da inteligência do governo Bush, transmitidos por tradição ao candidato presidencial do partido da oposição, foi há mais de três semanas.

Empate técnico

O discurso de Kerry contra o presidente faz parte de uma resposta mais forte aos ataques constantes de Bush e Cheney, com a aproximação das eleições. Na quinta-feira, o Centro de Pesquisa Pew para o Povo e a Imprensa e Harris Interactive, em pesquisas nacionais por telefone desenvolvidas desde a semana passada, mostraram que a disputa estava quase empatada entre os eleitores prováveis.

Kerry não disse nada à conferência sobre o tempo de serviço de Bush na Guarda Nacional, há três décadas, quando este faltou ao serviço. O histórico militar do presidente tornou-se uma questão explosiva na campanha, mas Kerry deixou os ataques em grande parte a subordinados, como o ex-senador Max Cleland e Terry McAuliffe, diretor do Comitê Nacional Democrata.

"Isso não leva ninguém a nada. Nós sentimos que as pessoas estão frustradas com a falta de clareza do presidente sobre o que estamos fazendo no Iraque, não sobre seu tempo de serviço no Vietnã", disse Mike McCurry, porta-voz de Kerry e ex-secretário de imprensa de Bill Clinton, que começou a viajar com o comitê da campanha na quinta-feira.

Oficiais da Guarda que participaram da convenção concordaram. "O que falamos entre nós foi que o que aconteceu há 30 anos não é importante", disse a major Mônica M. Cory de Des Moines.

A convenção de mais de 4.000 oficiais da Guarda respondeu muito mais friamente a Kerry do que a Bush, dois dias antes. O salão, que estivera cheio na terça-feira, tinha alguns assentos vazios na quinta, quando Kerry chegou. O grupo, que várias vezes interrompeu o discurso do presidente com aplausos de pé e gritos de aprovação, ofereceu a Kerry uma recepção educada, porém contida.

Quando Kerry disse que Bush não tinha falado a verdade à convenção, um homem gritou "Não!" Quando o candidato Democrata acabou de falar, alguns ficaram sentados de braços cruzados. A coronel Joanne F. Sheridan, da Guarda de Louisiana, levantou-se e saiu antes que ele terminasse.

"Meu protesto foi silencioso, contra o que ele estava dizendo", disse Sheridan, mais tarde. "Não acredito no que ele estava falando sobre George Bush não dizer a verdade sobre o Iraque. George Bush nos disse a verdade, então acho que não posso acreditar em Kerry. Ele veio falar aos militares, mas estava se dirigindo à mídia, às câmeras de televisão --não para nós, com certeza."

Outros oficiais elogiaram Kerry por dizer que apoiava duas mudanças que muitos aqui defendem e passaram grande parte da reunião desta semana discutindo: abaixar a idade de aposentadoria para a Guarda para 55 e permitir que os guardas tenham acesso a cobertura médica militar, mesmo quando não estão em serviço.

Colaborou Mônica Davey. Democrata ataca o presidente e é recebido friamente em comício Deborah Weinberg

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