UOL Notícias Internacional
 

18/09/2004

Eleição em sindicato de Hollywood vira drama

The New York Times
Dennis McDougal

Em Nova York
Na manhã da próxima terça-feira (21/09), os roteiristas de Hollywood, que estão trabalhando há meses sem contrato, terão que decidir se estão prontos para uma revolução. Sob supervisão do Departamento do Trabalho, o Writers Guild of America (sindicato dos roteiristas), divisão do Oeste, que conta com 8 mil membros, concluirá na noite de segunda uma eleição realizada em grande parte por e-mail para escolha de um presidente e oito dos 16 membros do conselho.

A disputa pela presidência é entre um feroz reformista, Eric Hughes --que não só deseja demitir os executivos remunerados do grupo, mas também está dando assistência a um ataque legal contra o sistema do sindicato para resolver disputas de créditos em cinema e televisão-- e o atual presidente, Daniel Petrie Jr., que acredita que os membros necessitam de paz institucional após perderem dois presidentes neste ano sob circunstâncias bizarras, mesmo para a indústria do entretenimento.

A escolha deles poderá determinar se os roteiristas de Hollywood continuarão produzindo alguns dos dramas mais estonteantes não para as telas, mas dentro de suas próprias fileiras.

No início deste ano, a presidente do sindicato, Victoria Riskin, foi forçada a renunciar depois que foi descoberto que ela não tinha escrito o suficiente para se qualificar para o cargo.

O sucessor nomeado por ela, Charles Holland, também deixou o cargo, depois que o "Los Angeles Times" descobriu que seu histórico militar e universitário não sustentava sua alegação de que tinha sido agente das Forças Especiais e astro do futebol universitário.

Agora, grande parte das faíscas vem de Hughes, um agitador de 51 anos que parece ver o atual estado do sindicato em termos apocalípticos. "Como roteiristas, nós perdemos nosso sindicato", disse Hughes em uma entrevista. "Eu quero meu sindicato de volta."

Hughes, que foi criado no Quênia e é mais conhecido por "Paixões Violentas", seu roteiro de 1984 baseado no clássico noir de 1947, "Fuga do Passado", foi derrotado por Riskin um ano atrás, 846 votos contra 425, em uma eleição notável pela quantidade relativamente pequena de eleitores.

O número de eleitores provavelmente será maior desta vez, graças em parte aos métodos astutos de campanha de Hughes, que postou em seu site na Internet, erichughes.net, memorandos do sindicato e outros documentos ligados a um processo volátil contra o sindicato em torno dos créditos de "O Último Samurai".

Apesar do apoio de roteiristas conhecidos como Larry Gelbart, co-criador de "M-A-S-H", Hughes vê a eleição como uma batalha épica entre roteiristas de grande nome calcificados e isolados, que atualmente comandam o sindicato, e a grande maioria dos membros, que é mais jovem e conta com menos créditos e influência sobre um sindicato conduzido por advogados e burocratas bem-remunerados.

"Os roteiristas que fundaram o sindicato --pessoas como Dorothy Parker, Dashiell Hammett, Lillian Hellman-- também faziam parte da 'lista A' dos estúdios, mas se importavam com desconhecidos que ainda estavam tentando se estabelecer", disse Hughes. "Eles não entregaram seu sindicato para um bando de não-roteiristas."

Petrie, 52 anos, um dos criadores de "Um Tira da Pesada", foi nomeado após a renúncia de Holland e não faz segredo de que preferia que seu antecessor tivesse permanecido no cargo. "Me sinto mal por Charles", disse ele. "Eu não acho que ele devia ter renunciado."

Quanto às questões, Petrie vê o encontro anual de segunda-feira --membros que não votaram por correspondência poderão depositar os votos na urna pessoalmente-- como uma oportunidade para unir o sindicato contra os verdadeiros adversários: as redes de televisão, estúdios de cinema e operadoras de cabo que não têm um contrato com o sindicato desde que o antigo expirou, em maio.

Antes da confusão, Riskin, filha do lendário roteirista Robert Riskin e da atriz Fay Wray, e esposa de um ex-presidente do sindicato, David Rintels, iria iniciar as negociações de contrato com a Aliança dos Produtores de Cinema e Televisão.

Em jogo estão questões como melhor seguro saúde, representação sindical para os roteiristas de TV realidade, e uma maior participação na receita de DVDs e vídeo por demanda.

Mas uma investigação interna, promovida por um dos partidários de Hughes, revelou que Riskin não tinha trabalhado recentemente o suficiente como roteirista para estar elegível para o cargo segundo as regras do sindicato. O Departamento do Trabalho interveio e, após a renúncia de Riskin em janeiro, anunciou que as autoridades federais supervisionariam uma nova eleição.

De forma um tanto relutante, Petrie, que já serviu um mandato de dois anos como presidente do sindicato, de 1997 a 1999, concordou na primavera em aceitar sua nomeação pelo conselho enquanto o sindicato negociasse com os produtores.

Petrie disse que os estrategistas do sindicato calcularam que os produtores queriam uma greve do sindicato dos roteiristas para assustar os sindicatos dos atores e dos diretores a resolverem rapidamente suas próprias negociações de contrato.

Mas em vez de greve, o sindicato dos roteiristas passou o verão envolvido na campanha política mais amarga de Hollywood desde que Melissa Gilbert derrotou Valerie Harper na disputa da presidência do sindicato dos atores, em 2002.

Petrie disse que temia que o ataque de Hughes pudesse servir de trunfo nas mãos dos produtores. "A pior coisa que alguém pode fazer é minar seu negociador-chefe pouco antes do início das negociações de contrato", disse ele.

Ele estava falando especificamente de John McLean, o diretor executivo do sindicato que ganha US$ 445 mil por ano, que se tornou alvo de Hughes como fonte de muitos dos males do sindicato. McLean se recusou a comentar.

Se for eleito, Hughes colocou a demissão de McLean no topo da sua agenda, apesar do conselho --e não o presidente-- reter o direito de contratar e demitir o diretor executivo do sindicato.

"Ele se entronou em seu próprio reino independente", disse Hughes sobre McLean. Apesar de crítico do que considera uma atitude imperiosa do diretor executivo em relação a maioria dos membros do sindicato, Hughes está mais irritado com o que acredita ser a supervisão frouxa de McLean do processo de arbitragem do sindicato para crédito na tela.

Por mais de meio século, o sindicato tem retido zelosamente o direito de arbitrar disputas em torno de quem merece ou não receber crédito pelo roteiro e história nos filmes e produções de televisão. Mas Hughes argumenta que o processo de arbitragem, cuidadosamente definido no estatuto do sindicato, foi corrompido durante a atual administração, que teve início em 1997.

Hughes disse que desde meados dos anos 90 as disputas de crédito em tela têm seguido cada vez mais para os tribunais, um resultado, segundo ele, da manipulação das regras por parte de McLean a favor dos roteiristas estabelecidos. "Sua postura é agradar os roteiristas famosos dos quais todos ouviram falar", disse Hughes.

Petrie disse que reconhece muitas das imperfeições apontadas por Hughes, mas chamou a arbitragem de créditos de uma "questão interna do sindicato" e alertou contra "politizar o processo", a tornando uma questão de campanha em vez de se concentrar no problema maior e mais vital do contrato vencido com os produtores.

"Dan está com medo de lavar nossa roupa suja em público", disse Hughes, "mas lavá-la em público é melhor do que deixá-la suja".

Passado

Um rebelde impenitente dos anos 60 que ainda tem cabelos compridos e irrita alguns dos membros mais conservadores, Hughes pergunta abertamente que fim levou o espírito radical dos fundadores do sindicato. "Você se pergunta", disse ele, sobre o que os atuais membros do conselho estavam fazendo durante os anos 60.

"Este tom de 'limpeza do templo' não tem precedente", disse Petrie, acrescentando que a retórica de seu oponente pode ser romântica, mas no final é destrutiva.

Na verdade, foi Petrie quem pediu para Hughes entrar na política do sindicato, o convidando a concorrer contra Riskin no ano passado. Hughes disse que se sentiu lisonjeado na época, mas aprendeu rapidamente que só foi convidado para que Riskin não concorresse sem adversário. Ele seria, segundo disse, um candidato figurante, que esperavam que não faria campanha nem venceria.

Hughes lembrou que Petrie também foi responsável por ajudar a lançar sua própria carreira de roteirista. Durante seu início em Hollywood no final dos anos 70, quando a agência International Creative Management estava cuidando de um dos primeiros projetos do diretor Jonathan Demme, este se associou a um roteirista novo e inexperiente, Hughes, que precisava de um agente. A agência lhe designou um agente novato, Petrie, que também desejava se tornar roteirista e eventualmente conseguiu. Roteiristas decidem nas urnas se querem fazer uma "revolução" George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host