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18/09/2004

Furacão é garantia de bons negócios na Flórida

The New York Times
Joseph B. Treaster

Em Stuart, Flórida
Bob Ellis estava fazendo sua segunda viagem do dia para comprar madeira compensada e suprimentos para consertar os estragos do Furacão Frances, o segundo de três furacões devastadores que atingiram a Flórida e o sudoeste dos Estados Unidos nas últimas cinco semanas.

Ellis, carpinteiro, estava pensando em aumentar a altura das laterais do bagageiro da sua picape para que pudesse fazer dinheiro removendo árvores e arbustos destruídos no furacão há quase duas semanas.

"Parece que a Fema está pagando bem para a remoção e limpeza de destroços", disse Ellis na quinta-feira (16/9), enquanto os funcionários carregavam a madeira no carro, em uma loja da Home Depot.

Fema, Agência Federal de Gerenciamento de Emergência, já prometeu ao menos US$ 2 bilhões (em torno de R$ 6 bilhões) em auxílio ao Estado e dispensou mais de US$ 200 milhões (cerca de R$ 600 milhões) em dinheiro para centenas de milhares de vítimas, junto com outros US$ 100 milhões (aproximadamente R$ 300 milhões) em assistência residencial. A agência tornou-se uma presença familiar para os habitantes do Estado atualmente, assim como os anúncios da campanha presidencial.

Com um furacão após o outro açoitando a Flórida desde 13 de agosto --quando o furacão Charley atingiu uma área desde Fort Myers, no sudoeste, até Orlando, no centro do Estado-- muitas empresas ficaram fechadas por dias e até semanas. Isso gerou uma desaceleração econômica no Estado, que vinha se saindo melhor do que grande parte do resto do país.

As primeiras estimativas sugerem que o total de perdas causados pelos três furacões nos EUA pode chegar até US$ 50 bilhões (aproximadamente R$ 150 bilhões), sendo que US$ 26 bilhões (em torno de R$ 78 bilhões) estão cobertos por seguros.

Esse não é o único impacto monetário, é claro. A economia da Flórida de US$ 500 bilhões (cerca de R$ 1,5 trilhão) é a quinta maior da nação, e os revendedores e fabricantes em torno do país sentiram os efeitos da crise. Wal-Mart, Federated Department Stores e outros varejistas disseram, no início deste mês, que as vendas estavam um pouco abaixo do que se esperava, em parte por causa da queda de consumo na Flórida.

Com a falta de energia elétrica em grandes regiões do Estado, as tempestades também cortaram a produção industrial do país, causando uma queda de 2% no suprimento de energia. E com os dois primeiros furacões derrubando cerca de 20.000 empregos, a devastação fez crescer as fileiras de pessoas pedindo seguro desemprego.

O furacão Ivan, nesta semana, criou caos no noroeste da Flórida e causou danos ao longo das costas do Golfo do Alabama e Mississipi. No entanto, antes mesmo de se obter uma plena avaliação dos bilhões de dólares em danos, a situação econômica já está mudando. A maior parte das empresas do Estado está funcionando novamente. De fato, já se vê os primeiros sinais de uma mini-expansão.

Os economistas acreditam que os Estados da costa do Golfo e o noroeste da Flórida terão a mesma experiência: poucos dias ou semanas de estagnação econômica, seguidos de um período mais longo de atividade renovada. Especialistas começaram a estudar seriamente esse efeito cíclico dos furacões modernos depois que o Andrew arrasou o sul da Flórida, há 12 anos. O Estado ficou chocado com a perda, em dólares de hoje, de mais de US$ 35 bilhões (em torno de R$ 105 bilhões).

Com base nesse padrão, J. Antonio Villamil, diretor do conselho econômico do governador Jeb Bush, disse que a recuperação na Flórida e Estados vizinhos deve crescer fortemente nos próximos meses e deve se estender por um ou dois anos, movida por infusões grossas de dinheiro do governo federal, empresas de seguros e agências de auxílio.

Devido à proximidade das eleições presidenciais e ao papel da Flórida como Estado indeciso crucial, especialistas acreditam que o dinheiro sairá de Washington ainda mais rápido do que em um desastre típico.

"Depois de desastres naturais, demora um tempo para o dinheiro do governo federal começar a chegar. Acho, entretanto, que este desastre foi para o topo da agenda política", disse Mark Zandi, economista da Economy.com, firma de consultoria em West Chester, Pensilvânia.

Nem todos estão se beneficiando, é claro. Os restaurantes e cinemas da Flórida, por exemplo, ainda estão sofrendo, assim como algumas lojas. Por exemplo, as pessoas cortaram os gastos tradicionais de volta às aulas, em coisas como roupas e acessórios.

Bons negócios

Muitas pessoas afetadas pelos furacões estão economizando para concentrar suas despesas em necessidades imediatas; outras estão gastando menos simplesmente porque estão cansadas demais para sair, depois de longos dias limpando e consertando goteiras.

"Não estamos jantando fora como fazíamos e estamos economizando gasolina", disse Peter Crafts, proprietário de uma loja de molduras em Stuart.

Sua loja ficou fechada por quase duas semanas, mas ele disse que espera compensar as perdas nos meses à frente, quando muitas pessoas trazem pinturas danificadas pela água para serem restauradas.

A recuperação, até agora, foi mais forte na costa sudoeste em torno de Fort Myers e Punta Gorda, onde o primeiro furacão chegou no dia 13 de agosto. Depois do Dia do Trabalhador, a retomada começou a ganhar impulso no coração da destruição do Frances, ao longo da costa do Atlântico. É claro, ainda está para começar na região noroeste da Califórnia e ao longo do Golfo.

Aqui em Stuart, onde centenas de telhados foram arrancados e florestas trituradas, as lojas de material de construção estão na ponta de uma retomada que também está começando a atrair recursos em torno do país. Fabricantes de madeira compensada e geradores de eletricidade, por exemplo, disseram que têm tido dificuldades para satisfazer a demanda da Flórida.

Construtores estão apressando-se para contratar mão-de-obra e fechar contratos de reparos, antes da chegada de batalhões de carpinteiros de fora do Estado.

"Neste momento, o dinheiro está em reparos de telhado, de paredes, de interiores e limpeza de destroços", disse Ellis.

Depois do furacão Frances, Ellis largou seu emprego de supervisor em um projeto de construção de 20 casas, para trabalhar menos e ganhar mais com um construtor que decidiu especializar-se em reparos de furacões.

Na quarta-feira, Ellis saiu para dar um orçamento de substituição de telhado em uma casa de três quartos. Ele observou que a maior parte dos telhados da rua tinham sido danificados e voltou pouco depois com material de propaganda oferecendo serviços de reparo. No final do dia, tinha 12 novos clientes.

"Em toda parte, você pode descer qualquer rua e garanto que 80% das casas estão danificadas", disse Ellis. "Se você tiver duas ou mais pessoas em cada bloco, já dá um bom dinheiro. Não estamos cobrando mais do que de costume. É só o volume. Definitivamente, não há trabalhadores suficientes para cobrir os danos."

Mas as leis de oferta e demanda já estão alterando o mercado de trabalho em formas que ajudarão a apressar a recuperação. Pouco depois do furacão Charley destruir centenas de hectares de laranjais no centro-sul da Flórida, por exemplo, os trabalhadores das plantações fizeram fila na cidade de Wachula para trabalhar consertando telhados.

"Veremos muito desse tipo de coisa", disse Villamil. Para alguns, a destruição de tempestades é ótima oportunidade Deborah Weinberg

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