UOL Notícias Internacional
 

19/09/2004

Estresse no trabalho é muito menor atualmente

The New York Times
Daniel Akst

Em Nova York
O estresse no local de trabalho está de volta às notícias. Os trabalhadores americanos estão desgastados a ponto de adoecerem, dizem os especialistas, e empregadores esclarecidos estão oferecendo aulas de ioga, massagem e outros paliativos para combater o problema.

Lamente pelo mal-estar da civilização e seus problemas. Se você considera o local de trabalho moderno, com ar condicionado, estressante --todos estes e-mails!-- lembre do trabalho que a maioria das pessoas costumava fazer no passado.

Os homens eram agricultores, mineiros de carvão, metalúrgicos e coisas do gênero, trabalhando todo dia sob risco de morrer ou com a miséria pairando ao redor. As mulheres que trabalhavam fora de casa eram mal remuneradas para trabalhos difíceis --geralmente como domésticas ou trabalhadoras de moinhos, progredindo de acordo com o capricho de empregadores ricos.

As oportunidades para as minorias eram extremamente limitadas, e a discriminação contra os negros, por exemplo, era tamanha que a maioria era excluída de todos empregos, exceto os mais servis. Isto sim é estressante.

Os ciclos econômicos também eram mais turbulentos. Em 1933, por exemplo, o desemprego atingiu 25% nos EUA. Até o "New Deal" --modelo econômico no qual o Estado atua fortemente na economia, ajudando as pessoas mais pobres--, o governo praticamente não fornecia nenhuma proteção social.

A maioria das pessoas na época trabalhava 10 a 12 horas por dia, seis dias por semana, mas mesmo assim contava com pouca ou nenhuma reserva para se proteger em caso de invalidez ou demissão repentina. Leis rígidas antidiscriminação e segurança no local de trabalho só surgiram nos anos 60 e 70.

Para muitas pessoas hoje, trabalhar significa semanas de 40 horas em ambiente confortável com proteções legais contra discriminação, assédio sexual e um melhor padrão de vida do que gerações anteriores seriam capazes de imaginar.

Como resultado de tamanha riqueza, a expectativa de vida subiu. Agora, quando dizemos que nenhum emprego está seguro, nós dizemos seguro das tormentas de destruição criativa do capitalismo. As pessoas mudam de emprego com mais freqüência, mas em termos de riscos no local de trabalho, a maioria dos empregos são bem seguros. Excluindo homicídio, fatalidades no local de trabalho caíram de 37 entre 100 mil, em 1933, para 18 em 1970, e cerca de 4 atualmente.

As minorias, tradicionalmente em desvantagem no mercado de trabalho, agora contam com oportunidades muito maiores --nos Estados Unidos;

Milhões de mulheres e imigrantes têm sido absorvidos pela força de trabalho sem elevar o desemprego além das médias históricas. O grande risco de saúde para muitos trabalhadores não é o estresse, mas a obesidade. O trabalho moderno é tão fácil que está nos deixando gordos.

Apesar de sedentarismo nem sempre significar relaxamento --o escritório executivo e o pregão da bolsa são estressantes à sua própria forma-- nós devemos ter pena de pessoas com rendas de seis dígitos ou mais?

O trabalho sempre foi estressante, e provavelmente sempre será. "Eu não acho que seja um fenômeno novo", disse Carl E. Van Horn, um professor de política pública da Rutgers e uma autoridade em história do trabalho nos Estados Unidos. "Trabalho não é piquenique. É sempre duro para as pessoas."

Então por que, repentinamente, toda esta conversa sobre estresse? O motivo não é uma amnésia coletiva no local de trabalho, nossa cultura terapêutica ou uma noção equivocada de que todos nossos empregos estão prestes a serem transferidos para a Índia, que convenientemente despontou no horizonte de culpa quando o milagre econômico do Japão desapareceu.

Claro, mudanças econômicas assustam atualmente, mas será que são mais assustadoras do que nos 70, quando a inflação e o desemprego eram espectros concorrentes e fábricas vazias simbolizavam o declínio econômico dos Estados Unidos ou do Brasil, com estagflação?

Há uma teoria diferente sobre o estresse no local de trabalho: em muitos lares, mesmo nos ricos, tanto o homem quanto a mulher trabalham, provocando um vácuo em casa que ninguém parece saber como preencher. A vida se tornou um borrão frenético --ainda mais para pais solteiros.

Segundo uma ampla pesquisa nacional divulgada em 2002, disse Van Horn ao Congresso, que os trabalhadores estão em geral satisfeitos com seus empregos, mas consideram a "capacidade de equilibrar o trabalho e a família como mais importante do que qualquer outro fator do emprego", incluindo estabilidade e salário.

Vale notar que na cobertura da mídia sobre estresse no trabalho, a ênfase geralmente é dada aos profissionais de classe média com formação superior que, na verdade, possuem muitas opções --incluindo um trabalho com menor pressão ou simplesmente trabalhar menos.

Toda esta conversa sobre sofrimento dos relativamente afortunados apenas nos distrai das dificuldades de americanos cuja vida profissional realmente é estressante: aqueles que recebem US$ 7 ou US$ 8 por hora, não possuem plano de saúde e carecem de formação profissional ou superior para melhorar sua condição.

A vida para estes trabalhadores é como andar na corda-bamba sem rede de proteção, de forma que o mínimo que nós afortunados podemos fazer é parar de nos queixarmos. Melhor ainda, nós podemos honrar o trabalho deles adotando políticas sociais, como um seguro saúde nacional, um salário mínimo mais elevado e limites mais rígidos sobre imigração não capacitada profissionalmente, que aliviaria o fardo deles. Isto nos custaria algo, é claro. Mas para os pobres, ioga não é solução. Trabalho oferece confortos e proteções impensáveis há poucos anos George El Khouri Andolfato

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