UOL Notícias Internacional
 

19/09/2004

EUA planejam grande ofensiva militar no Iraque

The New York Times
Dexter Filkins*

Em Bagdá
Diante da crescente insurreição e o prazo de janeiro para realização de eleições nacionais, os comandantes americanos no Iraque disseram que estão preparando operações para abrir áreas sob controle dos rebeldes, especialmente Fallujah, a indócil cidade a oeste de Bagdá agora sob controle dos rebeldes e grupos islâmicos.

Um alto comandante americano disse que as forças armadas pretendem retomar Fallujah e outras áreas rebeldes até o final do ano. O comandante não estabeleceu uma data para a ofensiva, mas disse que muito dependerá da disponibilidade das forças armadas e unidades policiais iraquianas, que seriam enviadas para ocupar a cidade assim que os americanos a tomassem.

O comandante americano sugeriu que as operações em Fallujah poderão começar já em novembro ou dezembro, o prazo que os americanos se deram para restaurar o controle do governo iraquiano por todo o país.

"Nós precisamos tomar uma decisão sobre quando o câncer em Fallujah será extirpado", disse o comandante americano. "Nós gostaríamos de encerrar dezembro com controle local por todo o país."

"Fallujah será difícil", disse ele.

No mínimo, disse o comandante americano, as condições locais terão que ser tornadas seguras para que a votação transcorra nas 18 capitais provinciais do país, para que a eleição possa ser considerada legítima. As forças americanas perderam o controle sobre pelo menos uma capital provincial, Ramadi, na província de Al Anbar, e tem apenas um controle tênue sobre uma segunda, Baquba, a capital da província de Diyala, ao nordeste de Bagdá. Outras grandes cidades na região, como Samarra, estão praticamente nas mãos dos rebeldes.

Altas autoridades da ONU temem que eleições legítimas poderão não ser possíveis a menos que as condições de segurança mudem no país. A violência contra as forças americanas cresceu no mês passado ao nível mais elevado desde que a guerra começou no ano passado, com uma média de 87 ataques por dia. A série de ataques mortais do último mês continuou neste sábado (18/09), com a explosão de um carro-bomba matando pelo menos 19 pessoas em Kirkuk, uma cidade do norte.

Ao mesmo tempo, os americanos e o governo interino iraquiano parecem estar dando uma última chance às negociações de desarmamento com os rebeldes. Os membros do Mujahedeen Shura, um conselho de oito membros no controle de Fallujah, disse que estão planejando vir a Bagdá no domingo para se encontrarem com as autoridades iraquianas e conversar sobre o desarmamento dos rebeldes e a abertura da cidade para controle do governo iraquiano.

"Apesar de os americanos terem mentido muitas vezes, nós estamos prontos para abrir negociações com o governo iraquiano", disse Hajji Qasim Muhammad Abdul Sattar, um membro da Shura.

Ahmed Hardan, um médico de Fallujah que participará das negociações, disse que pelo menos alguns membros do conselho poderão estar dispostos a fechar um acordo com os americanos.

Segundo a proposta a ser discutida, disse Hardan, os guerrilheiros entregarão suas armas pesadas para permitir que uma força militar reunida nos arredores da província de Al Anbar entre na cidade. Tal unidade substituirá a Brigada Fallujah, a milícia local estabelecida após os combates em abril e que era composta quase que totalmente de rebeldes e ex-membros do Partido Baath de Saddam Hussein. Ela foi expulsa pelos rebeldes, e o governo iraquiano a debandou neste mês.

O governo iraquiano também exigirá que os rebeldes entreguem seus armamentos pesados e que os combatentes estrangeiros deixem a cidade.

Negociações semelhantes, também sob ameaça de força, parecem ter surtido algum efeito na cidade de Samarra. As forças americanas entraram na semana passada na cidade pela primeira vez em meses, e esperam ser capazes de restaurar o controle do governo iraquiano lá antes das eleições.

A força por trás das futuras operações militares é a preocupação de que sob as atuais condições de segurança, a votação não será possível em grande parte do chamado Triângulo Sunita, a área ao norte e oeste de Bagdá que tem gerado mais violência contra o empreendimento americano aqui.

Ainda assim, autoridades iraquianas e da ONU daqui disseram que iniciaram os preparativos para a realização das eleições por todo o país, apesar do ambiente caótico de segurança.

Eleições ameaçadas

A Comissão Eleitoral Iraquiana Independente, formada aqui após a transferência de soberania para os iraquianos em 28 de junho, começou a se preparar para a enorme tarefa de registrar cerca de 12 milhões de eleitores iraquianos, a partir de 1º de novembro, em cerca de 600 repartições por todo o país, disseram as autoridades.

As autoridades iraquianas disseram que será necessário manter tais repartições abertas por pelo menos seis semanas enquanto são recolhidos os registros, exigindo milhares de policiais e possivelmente tropas para protegê-las.

Tais planos ainda não foram concluídos, mas as autoridades americanas e britânicas disseram que a principal responsabilidade para garantia de segurança na eleição caberá à polícia iraquiana, cujo histórico contra os rebeldes no sul e no centro do Iraque tem sido quanto muito irregular.

As autoridades iraquianas e da ONU disseram que estão fomentando o entusiasmo pelas eleições entre os iraquianos comuns, algo que ajudará a persuadir os rebeldes e outros iraquianos céticos a permitirem que os funcionários eleitorais entrem na maioria das áreas do Triângulo Sunita.

Mas os sinais iniciais não tem sido encorajadores. Por exemplo, a Associação dos Estudiosos Muçulmanos, o maior grupo de clérigos sunitas do país, disse na semana passada que decidiu contra sua participação nas eleições.

"Enquanto estivermos sob ocupação militar, eleições honestas são impossíveis", disse o xeque Abdul Satar Abdul Jabbar, um membro da associação, que representa cerca de 3 mil mesquitas sunitas na região.

"As pessoas não sairão para votar neste ambiente", disse Jabbar. "Se a eleição seguir adiante, o governo que será eleito não representará o país."

De fato, a violência no Iraque está gerando preocupação de que uma votação sob as atuais condições, com um possível boicote em grande escala dos árabes sunitas, produzirá resultados que colocarão a eleição sob suspeita aos olhos de muitos iraquianos. Se isto acontecer, disseram alguns iraquianos, o palco estará armado para ainda mais violência.

"Eleições ruins abrirão feridas em vez de fechá-las", disse Ghassan Al Atiyyah, diretor da Fundação Iraquiana para o Desenvolvimento e Democracia, um grupo independente daqui. "Se os sunitas não votarem, então você terminará com um parlamento polarizado que poderá provocar uma guerra civil."

O alto oficial militar americano sugeriu que Fallujah, supostamente um santuário para rebeldes e terroristas, se encontra em uma categoria própria, e que apesar da possibilidade de tornar seguras outras cidades como Ramadi e Samarra com relativamente pouca violência, Fallujah poderá exigir um grande ataque militar.

O momento exato do ataque à cidade provavelmente dependerá da existência ou não de um número suficiente de soldados iraquianos capazes de se juntarem ao ataque e, mais importante, tomarem a cidade após os americanos permitirem sua entrada.

Milhares de policiais e soldados iraquianos estão participando de um enorme esforço de treinamento liderado pelos americanos, apoiado por um projeto de US$ 800 milhões para construção de casas e campos de treinamento. No momento, os oficiais americanos disseram que há cerca de 40 mil soldados na Guarda Nacional Iraquiana, a força que provavelmente será empregada na ação em Fallujah.

Mas muitos destes soldados não possuem o equipamento adequado, e possuem pouca ou nenhuma experiência em combate. Os comandantes americanos não querem que a experiência de abril se repita, quando as forças de segurança iraquianas praticamente se desintegraram diante dos levantes xiita e sunita.

Com os preparativos para a eleição em andamento, as forças americanas aumentaram recentemente as operações militares em áreas onde cederam controle para os rebeldes. Aeronaves americanas têm atacado repetidas vezes alvos em Fallujah nas últimas semanas.

Geralmente os comandantes dizem que os ataques aéreos visam esconderijos utilizados pela rede de Abu Musab Al Zarqawi, o militante jordaniano que reivindicou responsabilidade por vários dos atentados com carro-bomba ocorridos na região.

Na sexta-feira (17), as forças americanas iniciaram uma operação em Ramadi, outra cidade sob controle rebelde. Uma ofensiva em Fallujah, assim como em outras cidades no Triângulo Sunita que escaparam do controle das forças americanas, sem dúvida testaria a vontade política do governo interino e de seu primeiro-ministro, Ayad Allawi. O ataque inicial de marines americanos contra Fallujah foi interrompido em abril, quando a raiva dos iraquianos cresceu diante da morte de até 600 iraquianos nos combates.

Na época, comandantes dos marines disseram que talvez estivessem a apenas dois dias de conquistar o controle do interior da cidade, e que foram ordenados a parar pela liderança política em Washington.

Pode-se esperar que um segundo ataque em Fallujah seja pelo menos tão mortífero quanto o primeiro. Testemunhas de dentro da cidade disseram que os grupos mujahedeen estão se preparando para um grande combate, em parte enterrando grande bombas ao longo das principais rotas para a cidade.

Mas os comandantes americanos disseram que estão confiantes de que as coisas serão diferentes desta vez, em grande parte porque agora, diferente de abril, há um governo iraquiano soberano, e um que parece disposto a suportar a tempestade política que tal ataque provavelmente provocaria.

"Eu estou bem confiante de que não vamos lidar com algo tão específico e importante quanto Fallujah sem o endosso e a plena compreensão daquilo em que estaremos nos metendo e o apoio do governo interino iraquiano", disse o oficial americano.

O comandante americano disse que cidades como Ramadi e Samarra foram autorizadas a cair nas mãos dos rebeldes em grande parte por ausência, enquanto os americanos concentravam seus recursos limitados em outras áreas, como a proteção do novo governo e partes críticas da infraestrutura.

"Operações ofensivas baseadas em inteligência não eram prioritárias", disse o comandante.

Votar para mudar

Apesar de todas as preocupações, autoridades iraquianas e da ONU disseram que estão dando continuidade aos planos para realização da eleição por todo o país em janeiro. Para ajudar os iraquianos com o trabalho, a ONU enviou uma equipe liderada por Carlos Valenzuela, que supervisionou 15 eleições em locais como Libéria, Haiti, Angola e Camboja.

Valenzuela disse estar preocupado com as eleições iraquianas, especialmente se a violência impedir a campanha dos candidatos e os eleitores de se registrarem. Mas ele disse que em outros países destruídos pela violência, um grande número de pessoas geralmente quer votar, em grande parte porque quase todos estão descontentes com o status quo.

"As pessoas percebem que estão presas em uma situação e que precisam mudar", disse Valenzuela. "As eleições podem ajudar a conquistar isto."

Alguns iraquianos também acreditam que a perspectiva de eleições pode ajudar a transformar o ambiente de segurança no país, à medida que as pessoas começam a perceber que as eleições são inevitáveis e que serão honestas e justas.

Um deles é Abdul Hussein Hindawi, o presidente da comissão eleitoral iraquiana. Hindawi acredita que mesmo os árabes sunitas, que prosperaram sob Saddam Hussein mas agora são minoria no governo, poderão finalmente decidir que uma eleição é algo que não vão querer perder.

"Eles estão buscando seus interesses, acima de tudo", disse Hindawi.

*Colaborou um funcionário iraquiano de The New York Times em Fallujah. Meta é massacrar os rebeldes e permitir a realização de eleições George El Khouri Andolfato

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