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20/09/2004

Gael Garcia Bernal prefere México a Hollywood

The New York Times
Ginger Thompson

Na Cidade do México
Peter Thompson/The NY Times

Astro diz que não tem um lugar só seu e que vive na casa dos amigos
Já passou um pouco da hora de pique do almoço num café bem badalado da capital mexicana, e um dos mais atraentes e aclamados jovens atores do mundo no momento anda de muletas pelo salão já vazio. Ele está tão encasacado e parece tão amarrotado, que parece estar vindo de uma boa virada de noite pelas ruas.

Ele fica um pouco ruborizado e tira o boné, explicando que acabou de passar por uma cirurgia de hérnia. "E ainda tenho carregado malas para cima e para baixo, subindo e descendo vários lances de escada", diz. "Ainda não tenho meu próprio lugar, aí acabo ficando nas casas de vários amigos." Descarregando a sacolona bem frouxa e jogando as muletas no chão, sacode os ombros, tira o casaco e finalmente senta.

Aí finalmente olha nos olhos. Acontece que Gael Garcia Bernal é uma visão divina, mesmo no estado pós-operatório.

E se a vida pessoal dele parece estar um tanto tumultuada, a carreira dele, pelo contrário, vai muito bem. Gael está lançando na América do Norte dois filmes importantes:: "Mala Educacion", de Pedro Almodovar, e "Diários de Motocicleta."

"Mala Educacion", que será exibido no Festival de Nova York dias 9 e 10 de outubro, com a estréia americana prevista para dia 19 de novembro, trouxe Garcia ao prestigioso círculo fechado de Almodóvar --e para isso o ator aprendeu a andar de saltos altos e vestindo uma máscara de maquiagem para seu papel como drag queen.

E em "Diários de Motocicleta", que estréia nos EUA na próxima sexta-feira (24/09), Garcia interpreta o lendário revolucionário Che Guevara que, na condição de rapaz numa longa viagem pela América do Sul, desperta para a consciência das injustiças políticas, contra as quais viria a lutar até a morte.

Garcia não tem medo de lutar. Ao contrário de outros jovens atores, ele é movido por uma agenda que vai além dos tapetes vermelhos e glamurosas capas de revista: tem mostradopor meio de suas interpretações o México moderno em toda a sua glória, às vezes feiosa glória, e sempre complicada glória.

Os personagens que tem vivido atravessam fronteiras, desafiam tabus e revelam segredos, isso num país profundamente católico, onde se costuma preferir um tom de discussão pública mais polido, moderado. E as interpretações dele ajudaram a trazer um reconhecimento internacional a filmes que estão de certa forma resgatando a indústria cinematográfica mexicana, que andava tão mofada.

Ao mesmo tempo, ele se projetou bem além da fronteira mexicana, mas não tem muita certeza se realmente quer atravessar esse limite. Até sugere que parem de lhe mandar roteiros com personagens que ele define como um clichê do garoto suburbano, o "Chico From the Barrio". Pode até estar procurando por seu primeiro apartamento como rapaz estabelecido, mas certamente esse não será um apartamento de estrela cinematográfica.

Gael se ruboriza novamente. Ele explica que só está com 25 anos, e que tem vivido num turbilhão. "Eu tinha um lugar meu quando estava estudando em Londres, mas depois fiquei duro e a solução foi ficar morando com as namoradas . Depois comecei a me mudar tanto que nem precisava mais de um lugar fixo."

As pessoas que o conhecem melhor dizem que essa é a forma que ele encontrou para se manter centrado --nunca comprar nada que depois não caiba numa mochila. A sedutora beleza de Gael mostra um ser humano esperto, culto, que leu bons livros, uma pessoa que rejeita a síndrome do estrelato, e que tem algo a dizer. Depois de uma entrevista de duas horas em espanhol, fica claro que ele está mais ligado nas raízes do que nos tetos.

Sua história

É temporada de chuvas na Cidade do México, e o café vai ficando mais preto à medida que as nuvens vão escurecendo. Os olhos de Gael, entre o verde, o marrom e o azul, mudam conforme a entrada da luz, enquanto ele vai recordando a trajetória, das novelas mexicanas para os filmes artísticos e audaciosos.

Ele nasceu em Guadalajara, no norte do México, e foi criado na capital mexicana, onde os pais dele trabalharam como atores. Gael costuma dizer que seguiu a profissão dos pais é para poder passar mais tempo com eles.

Quando adolescente, ele freqüentou uma escola de interpretação prestigiosa, a Central School of Speech and Drama, em Londres. Aí voltou para a Cidade do México, onde conquistou o papel principal em "Amores Perros", de Alejandro Gonzalez Iñarritu, o filme que fez o país voltar ao circuito relevante do cinema internacional.

Nesse filme, ele interpretou um rapaz urbano e pobre, que quer tanto mudar de vida e fugir com a mulher do irmão, que se sujeita a colocar seu cão Rottweiler em lutas selvagens nos becos sombrios para ganhar algum dinheiro. O filme, indicado para o Oscar de melhor produção estrangeira, revelou aspectos sinistros da vida mexicana que ainda não haviam sido vistos no cinema.

Mas foi no seu papel seguinte, como um jovem sensual em "E Sua Mae Também", de Alfonso Cuarón, que passou a atrair mais fãs. De novo era um filme tipo on the road, mas também tinha um triângulo amoroso e uma história de amadurecimento, sobre dois adolescentes atormentados por seus turbilhões de hormônios.

Suas cenas de sexo empolgaram cinéfilos no mundo inteiro --menos no México, onde o público fugiu da franqueza de Cuaron. "É por isso que os filmes mexicanos às vezes podem ser tão áridos", pensa Gael. "Nesse país, todos querem que as prostitutas sejam poetas, e que os jovens falem como verdadeiros filósofos. Mas os filmes não devem ser assim, porque a vida não é assim."

O filme seguinte de Gael despertou protestos nacionais por aqui. Em "O Crime do Padre Amaro", da obra do português Eça de Queirós, dirigido por Carlos Carrera, ele viveu um padre um tanto corrosivo, que teve um caso com uma adolescente e acabou encaminhando a morte da jovem, numa clínica clandestina de abortos.

A retrógrada igreja católica pressionou o governo mexicano para que o filme fosse banido --numa estratégia que poderia ter funcionado há uma década. Mas eis que no ano 2000 os eleitores mexicanos finalmente rejeitaram o regime autoritário que controlara o país na maior parte do século 20, indicando que agora o público não estava tolerando tanta censura. E os protestos dos grupos religiosos contra o "Padre Amaro" só fizeram com que mais gente fosse aos cinemas.

Quanto ao governo mexicano, fala Gael: "Durante muito tempo eles disseram que nós não estávamos prontos para a democracia. Mas acontece que nós sempre estivemos preparados. E foi isso que as pessoas falaram muito, quando foram ver 'O Crime do Padre Amaro'. Muitos pensavam que iriam assistir a um filme malévolo, mas ficaram satisfeitos em constatar que uma produção como aquela tinha sido realizada."

De certa forma, esse fator parece mover a carreira dele, onde não há agentes (apesar de enorme demanda, ele quase não tem compromissos agendados para projetos futuros). Gael diz que gravita sempre entre papéis que o desafiam e contam histórias não contadas, e os personagens que andam meio esquecidos.

Seus dois últimos filmes são exemplo disso.

Che Guevara

O objetivo em "Diários de Motocicleta", discorre Gael, era o desmistificar Che. "No final das contas, ele está naquela região que é denominador comum entre todos os jovens com 23 anos. Todos nós viajamos e nos descobrimos em novos lugares."

O diretor Walter Salles --cuja família detém o controle do Unibanco, um dos maiores bancos do Brasil-- dirigiu Gael nesse filme sobre a viagem continental, através de lavouras, ambientes prolétários e passando por um leprosário, o que foi lentamente transformando o arregalado estudante de medicina chamado Ernesto Guevara no determinado revolucionário chamado Che.

Numa entrevista telefonica, falando de São Francisco, Salles diz que Gael sentiu uma afinidade imediata com Che que poucos poderiam perceber - e que alguns poderão não apreciar.

O Che de Salles não é exatamente aquele leão de jubas tão presente nos posters e nas camisetas. Ele é meio ingênuo, um tanto apático socialmente, e com tantas dúvidas a respeito de si mesmo que é obscurecido pelo carismático companheiro de viagem, Alberto Granado (vivido por Rodrigo de la Serna).

"É preciso coragem para um ator viver Ernesto Guevara de um jeito assim tão introspectivo, convivendo com suas dúvidas, e sem tantas certezas", diz Walter. "Essa é a história de um rapaz que se rebatiza ao longo de uma jornada. No começo ele é de um jeito, no final é um outro homem. E Gael tem a capacidade de entender a dimensão desse arco existencial."

Salles continua: "Ele se movimenta com delicadeza, aos poucos. No final, a sensação é de que andamos durante duas horas sob a chuva fina. Você está ensopado, sem saber realmente o porquê."

Almodóvar

Gael largou tudo para fazer "Mala Educacion", segundo conta, por conta da "ilusão do que é trabalhar com Almodóvar." Houve muitos rumores sobre desentendimentos ácidos entre o ator e o diretor durante as filmagens. Gael vive uma drag queen que foi seduzida por um padre quando era garoto. Algumas reportagens disseram que Almodóvar chegou a interromper as filmagens num certo momento, pedindo que Gael emagrecesse para o papel.

O ator é discreto, mas fica evidente que as filmagens não foram fáceis. A atitude colonialista em relação ao México subsiste na Espanha, ele diz.

"Quando eu cheguei lá para fazer o filme, muitos vieram me dizer que devia vigiar meu sotaque", lembra. "Todos diziam a mesma coisa, juro --até os jornalistas, e o próprio Almodovar. Eles me pediam para remover o sotaque, como se fosse algo sujo que precisasse de limpeza. Tive que falar para eles 'Ah, o que vocês querem então é que eu faça um sotaque, o sotaque de espanhol'..."

Se Gael tem algumas queixas sobre os métodos de Almodóvar, ele também não alivia muito o sistema de Hollywood. "Hollywod fez alguns dos melhores filmes do mundo", diz, para logo em seguida criticar sua superficialidade.

"Há diretores muito ruins fazendo filmes nos Estados Unidos. Os grandes estúdios só permitem que eles façam filmes sob determinadas condições. E se essas condições ferram com a integridade do filme, aí o filme está ferrado, e tudo é uma grande perda de tempo."

O ator diz que, não importa por onde viaje, quer manter sua base no México. O país dele vive uma quase que permanente crise de identidade, constata ele, entre um dos continentes mais pobres do mundo e a única superpotência.

Isso é material para muitas histórias boas para ser contadas. A propósito, Gael e seu amigo co-protagonista de "E Sua Mamãe Também", Diego Luna, têm conversado sobre a produção de uma série de filmes que enfoque cada um dos 32 Estados mexicanos.

E os dias que ele passa "sem teto" podem estar chegando ao fim, agora que Gael fez uma proposta por uma casa. "É aqui no México que eu fico animado. Tenho um impulso forte que me mantém por aqui, que me dá vontade de pertencer a esse lugar. Acho que, se mudar daqui, seria apenas mais um ator, como todos os outros." Estúdios chamam, mas o jovem astro afirma que não tem interesse Marcelo Godoy

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