UOL Notícias Internacional
 

21/09/2004

Kerry ataca forte e chama Bush de cabeça-dura

The New York Times
Jodi Wilgoren e

Elisabeth Bumiller

Em Nova York
Acusando o presidente Bush de "incompetência cabeça-dura" na guerra no Iraque, o senador John Kerry fez nesta segunda-feira (20/09) sua declaração mais definitiva de que não teria invadido quando Bush o fez, enquanto fazia uma condenação ponto a ponto das políticas do governo para o Iraque.

"Invadir o Iraque criou uma crise de proporções históricas e, se não mudarmos de curso, há a perspectiva de uma guerra sem fim à vista", disse Kerry, o candidato democrata à presidência, para um público convidado de defensores do partido na Universidade de Nova York.

"Hoje, o presidente Bush nos diz que faria tudo novamente, da mesma forma", disse Kerry. "Como ele pode falar sério? Ele está realmente dizendo que se soubéssemos que não havia ameaça iminente, nenhuma arma de destruição em massa, nenhuma ligação com a Al Qaeda, os Estados Unidos deveriam invadir o Iraque? Minha resposta é um ressonante não, porque a primeira responsabilidade de um comandante-em-chefe é tomar a decisão sensata e responsável de manter a América segura."

Segundo Kerry, apesar de Saddam Hussein "merecer seu lugar especial no inferno", ele argumentou, "nós trocamos um ditador por um caos que deixou a América menos segura".

O discurso de 47 minutos foi a crítica mais forte de Kerry até o momento ao que chamou de "falhas colossais de juízo" de Bush sobre o Iraque. Kerry também expôs, como fez em outros pontos da campanha, quatro passos amplos que pediu para Bush adotar imediatamente: reparar as alianças, treinar as forças de segurança iraquianas, melhorar a reconstrução e assegurar eleições.

"Isto é o que eu faria hoje caso fosse presidente", disse Kerry. "Mas não podemos arcar em esperar até janeiro e não posso dizer a vocês o que encontrarei no Iraque em 20 de janeiro."

Os conselheiros de Bush assistiram ao discurso pela televisão na Casa Branca, às 10h, e partiram para trabalhar a bordo do Força Aérea Um, ao meio-dia, para inserir uma forte resposta nos comentários do presidente durante um evento de campanha em Derry, no Estado de New Hampshire.

"Quarenta e três dias antes da eleição, meu oponente agora definiu uma proposta para o que fazer a seguir", disse Bush em New Hampshire, "e é exatamente o que estamos fazendo no momento".

Em New Hampshire e posteriormente no centro de Manhattan --onde ele e Kerry realizaram eventos para levantar fundos, separados por poucos quarteirões-- Bush atacou a declaração de seu oponente de que não teria começado a guerra, contradizendo uma declaração do senador de 9 de agosto, de que mantinha seu voto no Senado para autorizar o uso da força.

"Hoje, meu oponente continuou com seu padrão de mudar de acordo com o vento, com novas contradições sobre antigas posições em relação ao Iraque", disse Bush. "Incrivelmente, ele agora acredita que nossa segurança nacional seria maior com Saddam Hussein no poder, e não na prisão. Ele está dizendo que prefere a estabilidade da ditadura em vez da esperança e segurança da democracia. Eu não poderia discordar mais e não muito tempo atrás, nem mesmo meu oponente."

Em Nova York, Bush disse que a decisão de enviar tropas ao Iraque foi a mais difícil que ele tomou como presidente, mas acrescentou: "Sabendo o que sei hoje, eu teria tomado a mesma decisão".

A discussão acalorada abriu uma semana em que se espera que o Iraque domine novamente o debate de campanha, com o presidente fazendo seu discurso anual ao Conselho de Segurança da ONU nesta terça-feira, e o primeiro-ministro iraquiano, Ayad Allawi, chegando na quarta-feira a Washington para sua primeira visita oficial.

Kerry, que prometeu se concentrar na reta final da campanha na saúde e na economia em vez da fortaleza republicana, a segurança nacional, se concentrou na deterioração da situação no Iraque enquanto fazia seu terceiro grande discurso sobre o assunto em três semanas.

Com as pesquisas mostrando Bush com uma vantagem significativa tanto em relação ao Iraque quanto ao terrorismo, Kerry está tentando afastar a discussão do terreno em que Bush quer combater --a validade da deposição de Hussein-- para um terreno em que ele acredita que tem vantagem: a questão de como o Iraque tem se saído desde que o ditador fugiu de seus palácios.

O democrata também está tentando amarrar as questões em um ataque contra a credibilidade do governo Bush, parte de seu novo tema de campanha sobre "as escolhas erradas" do presidente e a necessidade de uma "nova direção".

"Não é uma questão de manter o curso, mas de mudar o curso", disse Kerry nesta segunda-feira, em harmonia com o que seus assessores repetiram como um mantra durante todo o dia.

Joe Lockhart, um alto estrategista da campanha de Kerry, disse que os democratas "podem discutir e mascar chiclete ao mesmo tempo", e planejam lutar nas duas frentes.

"Nós vamos falar sobre saúde amanhã na Flórida", disse Lockhart aos repórteres por teleconferência. "Nós vamos falar sobre empregos. Mas o Iraque tem ocupado uma posição predominante porque está ficando claro para o público americano o quanto as coisas estão ruins."

Dan Bartlett, o diretor de comunicações da Casa Branca, deu uma série incomum de telefonemas aos repórteres que estão cobrindo a campanha de Kerry para falar sobre o discurso, dizendo que os democratas parecem estar "lutando para arrumar" novos ataques.

"Eu acho que com novos conselheiros você obviamente obtém novos conselhos", disse Bartlett sobre o recém reforçado círculo de estrategistas de Kerry.

"Nós damos boas-vindas ao debate" sobre o Iraque, ele acrescentou. "Para usar uma velha analogia do futebol (americano), onde você quer jogar, do seu lado das 50 (jardas) ou do lado deles? Nós estamos jogando na zona vermelha deles."

Falando diante de uma dúzia de bandeiras americanas enfileiradas, Kerry disse que Bush "enganou, calculou mal e administrou mal todos os aspectos" da guerra no Iraque, em detrimento de outras "zonas quentes" do terror.

Ele disse que o presidente "ofereceu 23 argumentos diferentes para esta guerra", que serviram apenas para confundir o público, e que o mais recente argumento, o de que o Iraque tinha capacidade para desenvolver armas nucleares, se aplica hoje a algo entre 35 a 40 países.

"Será que o presidente Bush está dizendo que devemos invadir todos eles?" ele perguntou espantado. "Seus erros de cálculo não equivalem a erros contábeis, eles foram falhas colossais de juízo. E juízo é o que esperamos de um presidente."

Mais diretamente do que antes, Kerry vinculou sua crítica crescente à guerra no Iraque aos seus protestos antiguerra após voltar do serviço militar no Vietnã, 35 anos atrás, dizendo: "Eu vi pessoalmente o que acontece quando orgulho e arrogância tomam o lugar da tomada de decisão racional."

Citando críticas à política do governo no Iraque de importantes senadores republicanos como Chuck Hagel, de Nebraska, Richard G. Lugar, de Indiana, e John McCain, do Arizona, ele disse: "Nós precisamos virar a página e recomeçar do zero no Iraque".

Em um evento para levantar fundos no início da noite, a esposa de Kerry, Teresa Heinz Kerry, disse sobre o novo ataque da campanha: "Ora, vocês sabem que há hora para tudo e era hora dele tirar as luvas".

Os dois homens pareciam estar descrevendo países diferentes. Kerry falou de um Iraque onde as mortes se acumulam diariamente, esgoto toma as ruas, o desemprego passa de 50% e os blecautes são rotineiros. Bush disse que seu governo está trabalhando com parceiros internacionais, reconstruindo a infra-estrutura do país, treinando as forças de segurança e preparando eleições que ele disse que serão realizadas em janeiro.

Mudando de opinião

Bush não disse que grandes partes do Iraque caíram sob controle de terroristas e extremistas, e se referiu vagamente à violência, como a decapitação de um americano nesta segunda-feira.

"Eles decapitarão pessoas para abalar nossa vontade", disse ele. "Eles tentarão semear o caos e a desordem, e tentarão afetar nossa confiança."

Mas Bush preferiu usar o discurso de Kerry para reforçar as críticas dos republicanos de que o oponente é um indeciso, particularmente em relação ao Iraque, uma questão que tem atormentado o democrata durante toda a sua campanha. Os republicanos argumentam que Kerry tem vacilado entre apoiar a guerra para provar ser capaz de remover o comandante-em-chefe em exercício, e atacá-la para evitar críticas de candidatos antiguerra como Howard Dean.

No evento em New Hampshire, o presidente lembrou da reação linha-dura de Kerry quando Dean disse que a captura de Saddam não tornou os Estados Unidos mais seguros.

"Em dezembro passado, ele disse isto, e eu cito: 'Aqueles que duvidavam que o Iraque e o mundo seriam melhores sem Saddam Hussein, e aqueles que acreditam que não estamos mais seguros com sua captura, não têm juízo para ser presidente, ou credibilidade para ser eleito presidente', fim da citação", disse Bush. "Eu não teria dito melhor."

O presidente também acusou Kerry de mudar de opinião na questão sobre se o Iraque faz parte da guerra contra o terrorismo. Em Nova York na segunda-feira, Kerry mencionou Osama Bin Laden quatro vezes enquanto argumentava que a operação no Iraque foi uma distração de outras "zonas quentes" do terror, mas Bush disse que seu oponente reconheceu anteriormente "que enfrentar Saddam era fundamental para a guerra contra o terror".

Assessores de campanha disseram que ele se referiu à declaração de Kerry para a Fox News, de 15 de maio, de que "o Iraque pode não ser a guerra contra o terror, mas é fundamental para o resultado da guerra contra o terror".

Karl Rove, o principal conselheiro político de Bush, parecia alegre com a discussão, dizendo: "O sujeito parece acreditar que toda vez que fala é como se fosse uma folha em branco, que não tem que se preocupar com as coisas contraditórias que disse nos últimos dias, semanas e meses". Democrata condena a maneira como o presidente lida com Iraque George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host