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21/09/2004

Kerry e Bush vão realizar três debates nos EUA

The New York Times
R.W. Apple Jr.

Em Nova York
O primeiro dos três debates presidenciais deste ano ocorrerá em 30 de setembro, na Universidade de Miami em Coral Gables, Flórida, segundo um acordo anunciado na segunda-feira (20/09) pelos representantes das campanhas dos dois principais partidos.

Para John Kerry, que está atrás na maioria das pesquisas, os debates consistirão em uma chance de mostrar quem exatamente ele é e quais são as idéias que defende, enquanto que, para o presidente Bush, eles proporcionarão uma oportunidade de conquistar alguns dos eleitores céticos, que o consideram um peso-pena, mesmo após quase quatro anos no poder.

Mas se esses debates lembrarem os do passado, o impacto neste ano irá bem além de uma mera determinação de quem ganhou e quem perdeu. Os cientistas políticos passaram a acreditar que os resultados são geralmente bem mais complexos, já que tais debates se tornaram um componente básico do calendário eleitoral em 1976.

Wendy Rahn, especialista respeitada em eleições e professora da Universidade de Minnesota, sugeriu em uma entrevista que os debates se transformaram em um ritual --a exemplo das convenções e da abertura da campanha de eleição geral no Dia do Trabalho-- que "convence os eleitores de que eles são importantes, de que são queridos e necessários".

Em um ano no qual políticos de ambos os partidos acreditam que o comparecimento às urnas pode ser o fator determinante para resultados em Estados fundamentais como Ohio, Minnesota e Wisconsin, eleitores relutantes que foram há pouco tempo convencidos de sua importância poderão muito bem participar da eleição em grande número.

Mas, por outro lado, afirma Rahn, a crescente fragmentação da audiência de televisão com o declínio das redes de canais abertos e a disseminação dos canais a cabo poderia reduzir a audiência dos debates e, portanto, modificar o efeito destes.

Estudos recentes dos debates de quatro anos atrás conduzidos por Kathleen Hall Jamieson, da Escola de Comunicação Annenberg da Universidade da Pensilvânia em Filadélfia e outros pesquisadores indicam que assistir aos debates ou ler os comentários sobre eles na mídia faz realmente diferença.

Aqueles que assistiram ao primeiro debate, diz ela, tendem a achar que Al Gore venceu, enquanto que os que apenas leram sobre o debate assimilaram a idéia de muitos jornalistas, segundo os quais Bush teve sucesso em fazer com que o seu adversário parecesse hipócrita.

Ela pergunta se neste ano o eleitor concluirá a partir dos debates que Kerry é indeciso e que muda de opinião, como insinuam as propagandas e discursos dos republicanos. Ou será que a população concluirá que Bush é um ideólogo rígido que mora em um mundo da fantasia, conforme acusam os democratas?

"Os debates dão ao eleitor uma chance de avaliar a precisão das acusações e contra-acusações, para determinar se o retrato pintado pela propaganda televisiva corresponde à realidade", diz Jamieson. "O mais importante quanto aos debates não é obter uma vantagem tática, e sim modificar e aumentar o nível de conhecimento dos eleitores. Eles não causam necessariamente grandes mudanças nos padrões de votação, mas sedimentam as impressões".

Em um trabalho publicado dez anos atrás no periódico "American Political Science Review", Rahn argumentou que embora os debates capturem a atenção do eleitor de uma maneira que as propagandas e os discursos são incapazes de fazer, eles afetam pessoas diferentes de formas diferentes.

Ela disse que indivíduos politicamente sofisticados são capazes de extrair novas informações de um debate com considerável facilidade, enquanto que "os não sofisticados podem sentir que são capazes de dar conta das demandas adicionais de um formato de apresentação mais complicado, focalizado no debate", preferindo aquilo que podem assimilar nas propagandas eleitorais.

Debates decisivos

Debates passados forneceram diretrizes para este ano. Os candidatos ficam aterrorizados com a possibilidade de cometerem gafes factuais ou deslizes táticos, e essas falhas podem ter um custo bastante alto, apesar de serem relativamente raras.

A mais famosa pode ter sido a afirmativa feita por Gerald R. Ford, em 1976, segundo a qual "não havia dominação soviética da Europa Oriental". Explorado pela imprensa, o erro paralisou a campanha de Ford por algum tempo, até que Dick Cheney --à época seu chefe de gabinete, e agora vice-presidente escalado para participar de um debate-- convenceu Ford a divulgar um esclarecimento.

No debate dos candidatos à vice-presidência daquele ano, Bob Dole consolidou uma visão pública de si próprio como um guerreiro selvagem ao comentar que 1,6 milhão de norte-americanos foram mortos ou feridos em "guerras democratas neste século".

Ele jamais conseguiu se recuperar da má impressão deixada. Dan Quayle tampouco se recuperou da estocada impiedosa desferida por Lloyd M. Bentsen, o seu rival em 1988 na disputa pela vice-presidência. Quando Quayle sugeriu que a sua experiência política seria comparável à de John F. Kennedy, Bentsen rebateu: "Senador, eu trabalhei para Jack Kennedy. Conheci Jack Kennedy. Jack Kennedy era meu amigo. Senador, o senhor não é nenhum Jack Kennedy".

Às vezes uma gafe é cometida sem palavras, como quando George Bush Pai pareceu olhar ansiosamente para o seu relógio em determinado momento de um debate de 1992 (quando perdeu a eleição para Clinton).

Walter F. Mondale deu involuntariamente um presente a Ronald Reagan em 1984 quando perguntou: "Quem está no comando? Quem está lidando com a situação? Esse é a minha questão central". Ao que Reagan respondeu: "Sei que será uma surpresa para o senhor Mondale, mas eu estou no comando" --uma refutação que Bush poderia pensar em fazer neste ano.

Toda a estratégia de Reagan poderia, na verdade, ajudar bastante Bush a conter as acusações de que é desqualificado e perigosamente belicoso. "Lá vem você de novo", disse Reagan a Jimmy Carter em 1980, com um movimento genial de cabeça.

Em 1984, enfrentando Mondale, Reagan disse: "Não vou fazer da idade uma questão nesta campanha. Não vou explorar com fins políticos a juventude e a inexperiência do meu adversário". Mais tarde Mondale afirmou que soube naquele momento que havia perdido.

Uma outra tática do passado que poderia ajudar muito Bush foi a que o seu pai utilizou em 1992. Em um importante debate no final da campanha daquele ano, ele deu tudo de si para fazer com que os eleitores pensassem sobre caráter e confiança, ao invés de em números de empregos perdidos na sua administração, chegando a invocar Horace Greeley para dizer que o caráter é o mais importante.

Quanto a Kerry, ele também poderia tomar algo emprestado de Reagan, que por sua vez tomou emprestada em 1980 a conclusão do discurso de Kennedy em 1960, um verdadeiro clássico da política. "Vocês estão atualmente em melhor situação do que há quatro anos?", perguntou Reagan. "Há mais ou menos desemprego agora do que havia quatro anos atrás? Os Estados Unidos são mais ou menos respeitados?".

Uma coisa é clara: Ambos os candidatos são debatedores de talento, embora os seus estilos sejam diferentes, conforme Bush provou ao enfrentar Ann Richards no Texas em 1994 e novamente, ao encarar Gore em 2000, e Kerry demonstrou amplamente em uma série de enfrentamentos com William F. Weld em Massachusetts em 1996. Ambos são tidos por bons debatedores; os confrontos são decisivos Danilo Fonseca

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