UOL Notícias Internacional
 

22/09/2004

Até que enfim Kerry parte para o ataque a Bush

The New York Times
David Brooks

Colunista do NYTimes
Nesta segunda-feira (20/09), John Kerry veio à Universidade de Nova York e fez algo de surpreendente. Ele manifestou uma série de sentenças claras e informativas sobre a questão do Iraque. Várias dessas sentenças contradizem diretamente as suas declarações anteriores sobre o Iraque, mas pelo menos foi possível compreender o que ele procurava dizer.

Primeiro, Kerry argumentou que o Iraque jamais foi uma ameaça séria aos Estados Unidos, que a guerra nunca foi justificada e que o foco de Bush no Iraque foi um "profundo desvio de atenção" com relação ao verdadeiro inimigo, Osama Bin Laden.

Segundo, Kerry argumentou que estamos perdendo a guerra. As baixas se acumulam, a insurgência se espalha, e a vida diária é mais penosa.

Terceiro, Kerry disse que em momentos como este, líderes corajosos dizem a verdade ao povo norte-americano. Kerry lembrou à audiência que, durante a Guerra do Vietnã, ele voltou aos Estados Unidos para oferecer a sua "voz pessoal de discórdia", e que decidiu fazer o mesmo agora. O paralelo é claro: o Iraque é o novo Vietnã.

Finalmente, Kerry declarou que é hora de bater em retirada, a começar no próximo verão. Mas a mensagem é que, caso Kerry seja eleito, toda a energia da política dos Estados Unidos vai se centrar na retirada das tropas norte-americanas do Iraque o mais rapidamente possível e na transferência da responsabilidade pelo Iraque para outros países.

A passagem crucial do discurso do candidato foi a seguinte: "Os princípios que deveriam nortear a política norte-americana no Iraque agora e no futuro são claros: devemos fazer com que a responsabilidade pelo Iraque seja do mundo inteiro, porque o mundo tem interesse nas conseqüências do conflito e, portanto, outros países deveriam dividir esse ônus". O Iraque deixaria de ser uma responsabilidade norte-americana, e se tornaria responsabilidade do mundo.

Kerry disse que a Organização das Nações Unidas (ONU) tem que desempenhar um papel central na supervisão das eleições iraquianas. Segundo o candidato democrata, outras nações deveriam contribuir para a proteção dos funcionários da ONU.

Ele pediu que se fizesse uma reunião internacional de cúpula nesta semana em Nova York, na qual outras nações possam se comprometer a enviar tropas e dinheiro ao Iraque. Kerry afirmou que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) deveria criar centros de treinamento para os novos soldados iraquianos.

O candidato falou sobre aquilo que outros países poderiam fazer para ajudar a solucionar a situação do Iraque. Ele não disse o que os Estados Unidos deveriam fazer para derrotar os insurgentes e estabilizar e reconstruir o Iraque, além daquilo que Bush já está fazendo. E também não afirmou que os Estados Unidos poderiam combater os insurgentes de maneira mais efetiva. Tampouco apresentou idéias sobre como controlar a cidade de Fallujah ou lidar com Muqtada al-Sadr. Kerry não propôs qualquer estratégia para a vitória.

O que ele fez, mais do que em qualquer outra ocasião no ano passado, foi assumir uma posição que contrasta claramente com a de Bush.

O argumento do presidente é que o mundo é mais seguro com Saddam fora do poder, e que deveríamos ficar no Iraque o tempo que fosse necessário para ajudar os iraquianos a caminhar rumo à democracia. Já o argumento de Kerry é que o mundo estaria mais seguro se tivéssemos deixado Saddam Hussein no poder; a sua ênfase está em desembaraçar os Estados Unidos da maranha que é o Iraque e deslocar a atenção para ameaças mais sérias.

Retoricamente, esse foi até o momento o seu melhor discurso de política externa (optar por um lado ajuda). Politicamente, é um risco. A nova inclinação liberal de Kerry faz com que ele passe a ter um discurso mais enérgico no palanque, mas cria também grandes vulnerabilidades. Será que ele realmente quer dizer que mil soldados norte-americanos morreram em vão?

Ao optar pelo campo da retirada, ele pegou para si uma tarefa clara. Atualmente, 54% dos prováveis eleitores acreditam que os Estados Unidos deveriam ficar o tempo que fosse necessário para reconstruir o Iraque, enquanto que 39% estão convictos de que deveríamos deixar o país o mais rapidamente possível. Kerry tem até o dia 2 de novembro para reverter esses números.

É claro que, concretamente falando, o discurso de Kerry é completamente irresponsável. Para começar, há 99% de chance de que outras nações não contribuam com tropas suficientes para diminuir significativamente o fardo carregado pelos Estados Unidos no Iraque. Nesse caso, John Kerry não possui uma política para o Iraque. A promessa de trazer alguns soldados para casa no verão que vem será denunciada como sendo uma fantasia de Disney.

Porém, sob uma ótica mais estratégica, Kerry está tentando usar o multilateralismo como uma fachada para a retirada. Se "o mundo" ficar encarregado de derrotar al-Sadr e Abu Musab al-Zarqawi, então ninguém será de fato encarregado de derrotá-los. As conseqüências para o povo iraquiano e para a região serão terríveis.

Finalmente, se a guerra foi um erro em sua totalidade, não deveríamos encerrar a luta amanhã mesmo? O que dizer ao último homem a morrer por um "profundo desvio de atenção?".

Mas esse será o centro da polêmica nas próximas semanas. Este país necessita há muito tempo de um debate claro sobre a guerra. Agora que Kerry se posicionou como o candidato antiguerra, tal debate será possível. Democrata reprova a política externa de Bush --e explica por quê Danilo Fonseca

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