UOL Notícias Internacional
 

22/09/2004

Bush mente sobre o Iraque para ocultar fracasso

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
Esta é a semana de Ayad Allawi. A partir do seu discurso na Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (21/09), o presidente Bush tentará apresentar Allawi --um ex-membro do Partido Baath, que segundo reportagens da BBC foi nomeado primeiro-ministro porque "todos desconfiavam igualmente dele"-- como o líder de uma nação soberana a caminho da democracia. Caso a mídia colabore, Bush talvez consiga ocultar por mais algumas semanas o desastre iraquiano.

E pode muito bem dar certo. Em junho, quando os Estados Unidos transferiram formalmente a soberania ao governo de Allawi, a mídia agiu como se aquele gesto vazio marcasse o fim da guerra. Ainda que as baixas norte-americanas continuassem aumentando, as reportagens sobre o Iraque diminuíram nos noticiários noturnos e nas primeiras páginas dos jornais. Isso deu ao povo a falsa impressão de que as coisas estavam melhorando e ajudou Bush a se recuperar nas pesquisas.

Agora Bush espera que, ao fingir que Allawi é um líder de verdade de um governo real, possa esconder o fato de que conduziu os Estados Unidos a uma grande derrota estratégica.

Esta é uma declaração drástica, mas trata-se de uma opinião compartilhada por quase todos os especialistas independentes militares e da comunidade de inteligência. Coloquemos as coisas da seguinte forma: é difícil identificar qualquer grande área urbana fora do Curdistão sobre a qual os Estados Unidos e os seus aliados exerçam controle efetivo. Os insurgentes agem livremente, até mesmo no coração de Bagdá, enquanto que as forças da coalizão, por mais batalhas que tenham vencido, só têm domínio sobre os nichos que conseguiram controlar.

E as tentativas de conferir à ocupação uma maquiagem iraquiana funciona como um tiro no pé: conforme demonstra o exemplo de Allawi, qualquer líder que esteja demasiadamente associado com os Estados Unidos se torna estigmatizado aos olhos da população iraquiana.

A insistência de Bush em dizer que, não obstante, está "satisfeito com o progresso" no Iraque --quando a sua própria Estimativa Nacional de Inteligência confirma as previsões sombrias dos especialistas independentes-- seria engraçada se a realidade não fosse tão terrível.

Infelizmente, não se trata de uma piada: para satisfação da Al Qaeda, as forças armadas norte-americanas, excessivamente dispersas, estão sendo gradualmente devoradas em uma luta perdida.

Assim sendo, qual é a saída?

O governo Bush fortaleceu a insurgência iraquiana ao arruinar as tarefas essenciais de conseguir aliados, reconstruir a infraestrutura do país, treinar e equipar a forças de segurança locais e se preparar para as eleições.

Assim, é compreensível que John Kerry --cujo discurso na última segunda-feira foi de uma precisão letal ao descrever os erros cometidos por Bush-- proponha que se retroceda para fazer o trabalho da maneira correta.

Mas eu espero que Kerry não se deixe apanhar por uma armadilha ao tentar realizar as fantasias neoconservadoras. Se em algum momento houve uma chance de transformar o Iraque em um farol pró-americano da democracia, essa chance foi perdida há muito tempo.

Será que a insurgência pode ser esmagada? Acredita-se que em novembro, poucos dias após a eleição, o governo Bush lance uma ofensiva demolidora contra as áreas controladas pelos insurgentes. Tal ofensiva seria, para todos os fins práticos, uma tentativa de conquistar novamente o Iraque.

Mas ao contrários dos atrapalhados comandantes de Saddam Hussein, os insurgentes não nos farão o favor de alinharem as suas tropas no deserto, onde possam ser pulverizadas pelo poderio aéreo dos Estados Unidos. E a escalada do conflito urbano, que causa pesadas baixas norte-americanas e a morte de um grande número de civis inocentes vai simplesmente aumentar as fileiras dos nossos inimigos.

Mas se a chance de se instalar um governo pró-americano foi perdida, qual é a alternativa? Conformarmo-nos com metas mais modestas. Isso significa aceitar o fato de que um líder iraquiano, para contar com legitimidade, precisa ser capaz de por um fim à presença militar norte-americana. A menos que desejemos que esta guerra continue para sempre, teremos que abandonar as 14 "bases duradouras" que o governo Bush está implementando.

Isso significa também aceitar a possibilidade de que o Iraque não conte com um governo central forte --e que líderes locais terminem desfrutando de bastante autonomia. E isso não significa ter que criar abrigos para forças hostis: lembrem-se de que, durante um ano após a queda de Saddam Hussein, clérigos xiitas moderados efetivamente governaram grandes áreas do Iraque e mantiveram-nas em estado de paz relativa. Foi a irritação contínua causada pela ocupação norte-americana que fortaleceu radicais como Muqtada al-Sadr.

A questão é que, ao diminuir a presença militar norte-americana, prometendo, ao mesmo tempo, ajuda àqueles que não abriguem terroristas anti-americanos, e retaliação aos que o fizerem, os Estados Unidos poderão provavelmente deixar para trás um Iraque que não seja um aliado norte-americano, mas que tampouco seja uma ameaça a nós. E isso, a esta altura, é provavelmente o melhor que podemos esperar. Melhor que pode ocorrer é o país não se tornar aliado nem ameaça Danilo Fonseca

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