UOL Notícias Internacional
 

22/09/2004

Irã desafia ONU e inicia enriquecimento de urânio

The New York Times
Craig S. Smith

Em Paris, França
O Irã desafiou a agência nuclear da ONU nesta terça-feira (21/09), anunciando ter iniciado iniciou a conversão de toneladas de urânio em gás, um passo crucial para a produção de combustível para um reator nuclear ou uma bomba nuclear. A Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) pediu no último sábado para que o Irã suspendesse todas estas atividades.

A declaração do Irã, feita em Viena, capital Áustria, pelo chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, Gholamreza Aghazadeh, coloca o país em rota de colisão com os Estados Unidos, que têm feito um forte lobby para que a agência nuclear internacional denuncie o programa nuclear do Irã ao Conselho de Segurança por violações do Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

O anúncio desta terça-feira apenas aumentará o peso dos argumentos de Washington. No sábado, a conselho de 35 países da Aiea aprovou uma resolução pedindo ao Irã que suspendesse todas as atividades de enriquecimento de urânio, mas se recusou a submeter o assunto ao Conselho de Segurança.

O conselho se reunirá novamente em 25 de novembro. Caso os Estados Unidos prevaleçam, o Conselho de Segurança poderá decidir pela imposição de sanções ao país, emissão de um alerta ou não tomar medida nenhuma.

As resoluções da agência nuclear internacional não tem valor legal, e muitos países, como o Brasil e a África do Sul, podem resistir à pressão americana para imposição de sanções ao Irã por atividades que apóiam: o desenvolvimento de um ciclo completo de combustível nuclear, da extração do minério de urânio até o reprocessamento do lixo nuclear.

O domínio do ciclo pode tornar os países praticamente independentes no atendimento de suas necessidades de energia. Mas isto os coloca a meses de serem capazes de construir armas nucleares. O Irã, como signatário do Tratado de Não-Proliferação, tem o direito de converter urânio em gás e em concentrar o isótopo 235 físsil em tal gás com centrífugas de alta velocidade, um processo chamado enriquecimento.

Mas o país iniciou o programa de enriquecimento sem notificar a Aiea --uma violação de suas responsabilidades segundo o tratado-- e a agência tem usado a ameaça de intervenção do Conselho de Segurança para pressioná-lo a suspender voluntariamente todos os passos que levam à produção do urânio enriquecido.

Urânio com concentração relativamente baixa de isótopo de urânio 235 pode ser usado como combustível de reator nuclear, mas o processo pode ser facilmente estendido para produzir concentrações mais elevadas do isótopo, necessárias para uma bomba nuclear.

A agência expressou alarme diante dos planos anunciados anteriormente pelo Irã de converter mais de 40 toneladas de óxido de urânio, conhecido como "yellowcake" (bolo amarelo), em gás hexafluoreto de urânio.

A resolução de sábado disse que a agência "considera necessária" que, para que o Irã "promova a confiança" --uma referência velada à ameaça de intervenção do Conselho de Segurança-- ele "suspenda imediatamente todas as atividades relacionadas ao enriquecimento", incluindo a produção de gás hexafluoreto de urânio em uma instalação perto de Isfahan, construída com tecnologia chinesa e inaugurada no ano passado.

Tal instalação é monitorada pela agência nuclear internacional, mas ela se recusou a dizer na terça-feira se o gás vem sendo produzido lá desde sábado.

"Parte da quantidade de 37 toneladas foi usada", Aghazadeh foi citado como tendo dito para a agência de notícias "Reuters". Aghazadeh, um dos vice-presidentes do Irã, estava participando de uma conferência geral da agência nuclear internacional, que tem sede em Viena. "Os testes foram bem-sucedidos, mas tais testes precisam ser continuados utilizando o restante do material", disse ele.

Apesar de o Irã considerar o yellowcake uma quantia de teste, especialistas disseram que 40 toneladas podem produzir material físsil suficiente para várias armas.

O Irã argumenta que o programa de enriquecimento de urânio visa produzir urânio de baixo enriquecimento para uso em uma usina nuclear de 1.000 megawatts que teve sua construção iniciada nos anos 70.

Ele ofereceu aceitar qualquer salvaguardas impostas pela agência nuclear para assegurar que as atividades de enriquecimento não ultrapassem a concentração de 3,5% do isótopo de urânio 235 necessária para sua usina de força e seis outras que planeja construir.

Mas os Estados Unidos e outros países acreditam que o programa faz parte de um esforço para desenvolver capacidade de armamento nuclear. Alguns analistas americanos alertam que resta apenas cerca de um ano para impedir que o Irã obtenha auto-suficiência nuclear. Depois disso, eles disseram, o país contará com os meios para criar um arsenal nuclear sem ajuda externa, alterando para sempre a balança de poder no Oriente Médio.

Guerra contra Israel

Uma preocupação é que Israel, um membro da Aiea que não assinou o Tratado de Não-Proliferação e tem armas nucleares, decida resolver a questão por conta própria caso a diplomacia fracasse em impedir o Irã.

O jornal "Haaretz" de Israel informou nesta terça-feira que o país está planejando comprar 500 das chamadas bombas destruidoras de bunker, capazes de penetrar em 2 metros de concreto. Tais bombas poderiam ser usadas para destruir as instalações nucleares subterrâneas do Irã. Apesar dos analistas dizerem que tal ataque preventivo é improvável, Israel bombardeou em 1981 um reator nuclear no Iraque para impedir o país de desenvolver armas nucleares.

O Irã argumenta que está sendo penalizado injustamente e que já propôs repetidas vezes tornar o Oriente Médio uma zona livre de armas nucleares.

A Aiea está tentando forçar o Irã a aceitar limites ao que pode fazer segundo o Tratado de Não-Proliferação sem fazer o Irã se retirar do tratado.

O Irã argumenta que discriminação contra os signatários é especificamente proibida segundo o tratado e que a aceitação de qualquer limite estabeleceria um precedente perigoso para os outros tratados que assinou.

No domingo, o negociador nuclear chefe do Irã, Hassan Rowhani, alertou em Teerã que o país poderá se retirar do tratado se o seu caso for enviado ao Conselho de Segurança.

Uma cláusula no tratado permite que qualquer país possa deixá-lo após um aviso prévio de três meses. A Coréia do Norte se retirou em 2001.

"Nós fizemos nossa escolha: sim para a tecnologia nuclear pacífica e não para as armas nucleares", disse o presidente do Irã, Mohammad Khatami, em Teerã nesta terça-feira, em um desfile militar exibindo o míssil Shahab-3 do Irã, com alcance capaz de atingir Israel.

Os mísseis no desfile exibiam faixas que diziam "Esmague a América" e "Elimine Israel do Mapa", segundo as agências de notícia "The Associated Press" e "France-Presse".

"Nós prosseguiremos neste caminho mesmo que signifique cortar a supervisão internacional", disse ele. Processo, proibido pela organização, é base para fabricar bomba George El Khouri Andolfato

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