UOL Notícias Internacional
 

22/09/2004

Kerry quer neutralizar Bush com o voto feminino

The New York Times
Katharine Q. Seelye

Em Washington
Não foi acidentalmente que o senador John Kerry apareceu nesta terça-feira (21/09) no programa "Live With Regis and Kelly" e lembrou os seus dias como um jovem promotor que representava uma vítima de estupro. Nem foi por acaso que, depois de Nova York, ele seguiu para Jacksonville, na Flórida, para propagandear as suas propostas para o setor de saúde. Ou que na próxima quinta-feira, em Davenport, em Iowa, ele presidirá um debate na assembléia legislativa sobre a questão da segurança nacional com uma audiência composta exclusivamente por mulheres.

Essas aparições públicas são parte de uma iniciativa enérgica da campanha de Kerry para conquistar aquela fração do eleitorado que os democratas consideram sua por direito: as mulheres.

Nas últimas semanas, membros da campanha de Kerry têm acompanhado nervosamente os números das pesquisas que mostram ter diminuído o apoio dado ao senador pelas mulheres, que formam um dos grupos de eleitores mais confiáveis do Partido Democrata.

Na pesquisa The New York Times/CBS News feita na semana passada, um maior número de mulheres registradas para votar disse ter mais propensão a votar em Bush do que em Kerry. Entre as entrevistadas, 48% apoiavam Bush e 43% Kerry.

Em 2000, 54% das mulheres votaram em Al Gore, o democrata, e 43% em Bush.

Os analistas de pesquisas democratas e republicanos dizem que o motivo pelo qual isso está ocorrendo é que uma questão que Bush levantou inicialmente como parte de uma mensagem mais genérica --qual candidato estaria mais apto a proteger os Estados Unidos contra terroristas-- se transformou em um assunto especialmente importante para as mulheres.

Várias delas disseram que a confluência de dois eventos, uma convenção repleta de cenas provocativas sobre a tragédia do 11 de setembro e um ataque terrorista contra crianças na Rússia, reestruturou a dinâmica eleitoral nesse grupo crítico de uma maneira que criou um novo desafio para o campo de Kerry.

Mark Mellman, especialista em pesquisas do comitê de Kerry, procurou minimizar o nervosismo da campanha quanto ao apoio das mulheres, dizendo: "Não defino isso como um problema, e sim como uma oportunidade".

Ele observou que um grupo de viúvas de vítimas do 11 de setembro endossou Kerry na semana passada, e apresentou o fato como evidência de que as mulheres "acham que ele é o mais capacitado a proteger o país".

Assim como Kerry procura reconquistar o voto feminino, Bush tenta fazer aquilo que Karl Rove, assessor político do presidente, prometeu fazer neste ano: desafiar o democrata no seu próprio terreno.

Bush fala freqüentemente às suas platéias sobre as novas liberdades das quais desfrutam as mulheres afegãs que foram libertadas quando os Estados Unidos derrubaram o regime Taleban. Nos seus comícios podem-se ver com freqüência faixas com os dizeres: "W apóia as mulheres".

Na terça-feira, em um discurso na Organização das Nações Unidas (ONU), Bush pareceu estar sintonizado com essa preocupação, ao mencionar os russos. Ele descreveu uma mulher de luto após o ataque na Rússia, acrescentando: "As crianças russas não mereciam um sofrimento, um pavor e uma morte tão terríveis".

Também no mês passado Kerry sofreu uma queda nas pesquisas devido aos ataques dos Veteranos das Lanchas Rápidas de Combate Pela Verdade, que contestaram o seu histórico no Vietnã e enfatizaram as suas atividades antiguerra nos anos 70.

Um estrategista democrata disse que o fato de Kerry não contra-atacar reforçou a idéia, particularmente entre as mulheres casadas, de que ele não lutaria por elas e seus filhos. E, segundo o estrategista, esse é um motivo pelo qual Kerry precisa agora "reconstruir a sua imagem de força".

Embora Kerry tenha certamente perdido apoio entre as mulheres, algumas pesquisas mostram que ele ainda está um pouco à frente de Bush. Diane Feldman, analista de pesquisas da campanha de Kerry, diz que não é verdade que o seu candidato esteja perdendo entre o público feminino, e insistiu que as pesquisas da própria campanha demonstram que, entre as mulheres, Kerry está na dianteira.

Ela não revelou os números da pesquisa do partido, mas disse que eles demonstram que a posição de Kerry junto ao eleitorado feminino "está abaixo daquilo que esperamos na pesquisa de boca de urna, e que temos espaço para crescer". E acrescentou: "Estamos conquistando o eleitorado feminino, mas não pela margem ampla que gostaríamos de ter". Segundo ela, parte do problema é que as mulheres tradicionalmente se decidem mais tarde.

Mellman coloca as coisas da seguinte forma: "A nossa expectativa é que os indecisos votem em John Kerry, mas o candidato democrata está concentrando esforços para conquistar precisamente os votos desse eleitorado feminino indeciso".

Kerry recebeu publicamente o apoio de seis viúvas de vítimas do 11 de setembro e a sua campanha criou um grupo de "mães militares" cujos filhos estão servindo no Iraque, para falar favoravelmente sobre o candidato em vários Estados onde o resultado da eleição é imprevisível.

"As mulheres se preocupam muito mais do que os homens com a possibilidade de um ataque ocorrer em suas cidades", diz Celinda Lake, assessora democrata de pesquisas, especializada no eleitorado feminino.

Lake afirma que o medo foi uma conseqüência natural dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, sendo reforçado no início deste mês quando extremistas capturaram uma escola em uma região remota da Rússia, matando mais de 300 pessoas, metade delas crianças.

"As imagens da Rússia foram especialmente chocantes para as mães", disse Lake, acrescentando que elas ficaram alarmadas ao ver crianças mortas em uma escola em uma cidade obscura. "Isso é algo muito, muito inquietante para as mulheres".

Embora as mulheres entrevistadas pela pesquisa The New York Times/CBS News tenham dito que tanto Kerry quanto Bush são capazes de tomar as decisões corretas na hora de proteger o país de outro ataque terrorista, elas expressaram mais confiança em Bush.

Entre as mulheres entrevistadas, 48% disseram confiar bastante em Bush e 25% afirmaram ter alguma confiança no presidente, enquanto que 29% disseram ter muita confiança em Kerry e 35% apenas alguma confiança no democrata.

Tradicionalmente, há uma diferença de opinião entre as mulheres casadas e as solteiras. As casadas votam mais nos republicanos, e as solteiras mais nos democratas.

Neste ano, diz Lake, a lacuna entre a forma como as pessoas casadas e solteiras esperam votar é maior do que nunca, em grande parte devido à emergência daquele grupo que os analistas chamam de "mães da segurança", que tendem a ser mulheres brancas, casadas e com filhos, e que temem um outro ataque dentro dos Estados Unidos.

As "mães da segurança" são uma derivação das "mães do futebol", que emergiram nas eleições anteriores como um grupo importante de eleitoras indecisas. Mas as mães do futebol tendiam a viver principalmente nos subúrbios e a ter um voto imprevisível. Já as mães da segurança moram em todos os lugares e se inclinam a votar nos republicanos.

Na pesquisa The New York Times/CBS News, as mulheres casadas que se registraram para votar tinham uma propensão bem maior a dizer que votariam em Bush (59%) do que em Kerry (32%).

Andrew Kohut, diretor do Centro de Pequisas Pew de População e Imprensa, disse que as mulheres sofreram pressões antagônicas neste ano porque confiam mais em Bush quando o assunto é terrorismo, mas são céticas quanto à capacidade do presidente para administrar melhor a economia.

"Existe uma tensão entre as mulheres de classe média que se sentem atraídas pela aparente força de Bush quanto ao problema do terrorismo, mas que se preocupam com o seu mau desempenho quanto à agenda doméstica", disse Kohut. "Essa será a história desta eleição --a forma como as mulheres fizerem a sua escolha".

Kohut diz que em 2000 a proporção de homens que votou em Bush foi igual à de mulheres que votaram em Gore. "Mas agora Bush conta com um apoio mais sólido entre os homens do que Kerry entre as mulheres, e se Kerry for incapaz de equilibrar essa margem junto ao eleitorado feminino, vai perder".

Lake disse que a intensidade da perda de apoio de Kerry devido ao terrorismo entre as mulheres brancas casadas é surpreendente. As mulheres solteiras ainda preferem nitidamente Kerry a Bush, diz ela, em grande parte porque elas se preocupam mais com a economia do que com o terrorismo.

Ed Goeas, um especialista republicano em pesquisas de opinião, diz que quando se pergunta aos eleitores, "Você está preocupado com a possibilidade de ser alvo de um ataque terrorista?", os homens das cidades grandes geralmente dizem que sim, mas os homens de outros locais que não. "No caso das mulheres, todas elas, independente de onde morem, dizem ter essa preocupação". Para vencer, democrata deve obter maciça votação entre mulheres Danilo Fonseca

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