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23/09/2004

Desemprego faz brasileiros deixarem as cidades

The New York Times
Todd Benson

Em São Paulo
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As maiores oportunidades de emprego estão em cidades e Estados do interior
Há um ano e meio, Isabel Fátima Bueno e o seu marido, Ricardo Del Arco Pereira, desistiram de São Paulo, uma cidade que há muito é um pólo de atração para indivíduos de todo o Brasil, e saíram em busca de emprego.

Ricardo, economista com experiência em finança corporativa, estava desempregado havia mais de um ano e não conseguia emprego em lugar algum. Com dois filhos pequenos, o casal lutava para sobreviver com o modesto salário que Isabel recebia como contadora de uma empresa. Foi um período difícil. A maior cidade brasileira é também a mais cara do país.

Assim, eles fizeram as malas e se mudaram para Birigüi, uma cidade de 100 mil habitantes no oeste do Estado de São Paulo, onde quase não há desempregados, contrastando com o índice de desemprego de 18,5% na cidade de São Paulo. Em menos de três meses, os dois conseguiram empregos de tempo integral no setor administrativo em fábricas de calçados, a principal indústria da cidade.

"Ricardo não conseguia encontrar emprego, e o meu salário simplesmente não bastava para manter uma família em São Paulo, de forma que tivemos que ir para onde havia mais chance de nós dois conseguirmos trabalho", conta Isabel, 35, que nasceu e cresceu na capital do Estado. "Não foi uma escolha fácil, mas foi a escolha correta".

E eles estão longe de serem os únicos a passar por tal situação. Um número cada vez maior de brasileiros encontra dificuldade crescente para conseguir bons empregos nas grandes áreas metropolitanas como São Paulo e Rio de Janeiro, buscando trabalho em outros locais.

Graças a um surto de crescimento na agricultura e à emergência nos últimos anos de centros industriais especializados em cidades pequenas e médias, o grande, mas ainda pouco habitado, interior brasileiro está gerando empregos em um ritmo mais rápido que os centros urbanos pela primeira vez em várias gerações.

Conseqüentemente, os brasileiros das zonas rurais estão bem menos inclinados do que as gerações passadas a deixar as suas famílias em busca de uma vida freqüentemente incerta nas grandes cidades.

Quando o Brasil começou a se industrializar nos anos 50, milhões de camponeses das regiões mais pobres do país subiram nas carrocerias de caminhões conhecidos como paus-de-arara e seguiram para São Paulo em busca de trabalho nas fábricas que surgiam na periferia da cidade. Isso levou a um crescimento espetacular, mas caótico, de cidades com São Paulo.

Luiz Inácio Lula da Silva, ex-metalúrgico e ex-sindicalista, que agora é presidente do Brasil, estava em uma das primeiras ondas de imigrantes a chegar a São Paulo, vindo anda criança, com a família, do interior do Estado de Pernambuco, no Nordeste, flagelado pela seca. Com o desemprego nas seis maiores cidades brasileiras atingindo uma média de 11,2%, segundo a agência governamental de estatística, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma imigração reversa está ocorrendo.

"Quando a questão é a criação de empregos, não há dúvida de que o interior do país está exibindo bem mais dinamismo do que as áreas metropolitanas", afirma Remigio Todeschini, que dirige o departamento de políticas públicas e emprego do Ministério do Trabalho. "Isso tende a determinar onde as pessoas vão procurar empregos".

Segundo a mais recente pesquisa do Ministério do Trabalho, 70% dos novos empregos gerados no Brasil nos primeiros sete meses do ano estavam em cidades de porte médio. Apenas 30% dessas vagas foram criadas em grandes centros urbanos, que ainda abrigam mais de dois terços da população do país.

Ascensão do interior

Birigüi é um exemplo típico. Outrora uma sonolenta cidade rural, atualmente Birigüi se tornou um vigoroso centro industrial, produzindo mais de 250 mil pares de sapatos diariamente, tanto para o mercado doméstico quanto para exportação.

Para acompanhar a demanda, as 166 fábricas de sapatos da cidade trazem diariamente mais de 3.000 pessoas de 27 municípios vizinhos para trabalharem nas linhas de produção. Outras milhares de pessoas se mudam para Birigüi todos os anos em busca de empregos, fazendo com que ela seja uma das cidades que cresce mais rapidamente no Estado de São Paulo.

"O índice de desemprego é de quase zero, e ainda há demanda por trabalho", diz Samir Nakad, presidente da associação da indústria de calçados de Birigui. "Se 2.000 pessoas com alguma qualificação básica aparecessem aqui amanhã, haveria grande chance de conseguirem emprego".

A agricultura é uma outra razão para que os brasileiros corram para o interior. Sendo já o maior produtor de café, cana-de-açúcar e laranja do mundo, na última década o Brasil também se tornou um grande produtor de soja, algodão e carne.

Grande parte do crescimento ocorre nas vastas planícies de Estados centrais como o Mato Grosso, onde a população cresceu de dois milhões para quase três milhões de habitantes no início dos anos 90, conforme as plantações de soja passaram a dominar a paisagem local.

Enquanto isso, o algodão trouxe gente e prosperidade para os campos ensolarados do oeste da Bahia, uma região do Nordeste outrora paupérrima e abandonada que se tornou um foco de crescimento agropecuário nos últimos anos. Na cidade de Luís Eduardo Magalhães, uma das que apresentam crescimento mais rápido da área, a população mais do que dobrou desde 2001, chegando a 42 mil habitantes, o que gerou um boom no setor de construção.

SP muda de perfil

Em contraste com tal situação, o crescimento urbano que no passado era frenético --a população da Grande São Paulo saltou de apenas 2,2 milhões de habitantes em 1950 para os quase 18 milhões atuais-- sofreu uma desaceleração considerável.

"Ainda tem gente vindo para São Paulo, mas o fluxo de pessoas diminuiu drasticamente", garante Clemente Ganz Lúcio, especialista em mercados de trabalho do Departamento intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), um grupo de pesquisas de São Paulo financiado por sindicatos locais, que realiza pesquisas para determinar o índice de desemprego. "A capacidade de criar empregos aqui simplesmente não é mais aquela presenciada no passado, e a população está percebendo isso".

Após três décadas de crescimento de mais de 5% ao ano, o crescimento da população da cidade começou a diminuir nos anos 80, e caiu ainda mais na última década, para abaixo de 2% ao ano, segundo o IBGE. Segundo os analistas, uma causa determinante para essa desaceleração foi a redução das oportunidades de emprego.

Embora o desemprego tenha dados sinais de queda nos últimos meses, agora que a economia ganha ímpeto, o índice de 11,2% nas seis maiores regiões metropolitanas do país em julho significa que 2,4 milhões de pessoas nessas cidades que estão procurando ativamente por emprego não serão capazes de encontrar trabalho.

A situação é mais crítica em São Paulo, onde o índice de desemprego diminui vagarosamente, mas continua em um incrível patamar de 18,5%, em grande parte porque a cidade está se tornando mais um centro financeiro e comercial do que o pólo industrial que era nos anos 70. Algumas indústrias tradicionais, como as do setor automobilístico, estão gerando empregos para atender às encomendas do exterior, mas, de forma geral, é cada vez mais difícil encontrar empregos industriais em São Paulo.

"Rio e São Paulo costumavam concentrar quase toda a capacidade industrial do país, mas essa época passou", diz Ganz Lúcio. "Atualmente o desenvolvimento econômico está se espalhando para o resto do país". Busca por trabalho provoca inversão de fluxos migratórios no país Danilo Fonseca

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