UOL Notícias Internacional
 

23/09/2004

Líder xiita do Iraque ameaça boicotar as eleições

The New York Times
Dexter Filkins

Em Bagdá
O grão-aiatolá Ali Al Sistani, o mais poderoso líder muçulmano xiita do país, está ficando cada vez mais preocupado com a possibilidade das eleições nacionais poderem ser adiadas, disseram seus assessores, e até ameaçou retirar seu apoio às eleições a menos que mudanças sejam feitas para aumentar a representação dos xiitas, segundo uma fonte próxima a ele.

Os assessores de Al Sistani contataram Lakhdar Brahimi, o ex-chanceler argelino que intermediou o acordo para realização das eleições, para expressar a preocupação com o possível adiamento da votação, segundo Hamid Khaffaf, um dos principais assessores de Al Sistani. Outra fonte próxima das negociações disse que Al Sistani pediu para que Brahimi voltasse ao Iraque para tentar tratar de suas preocupações. Khaffaf se recusou a discutir os detalhes da conversa.

Segundo pessoas com conhecimento das conversas, Al Sistani está preocupado que o processo democrático nascente no Iraque esteja caindo sob controle de um punhado de partidos políticos que cooperaram com a ocupação americana e são compostos principalmente por exilados.

Em particular, disseram estas fontes, Al Sistani está preocupado com as discussões que estão sendo realizadas entre estes partidos para formação de uma chapa única para as eleições de janeiro, limitando assim as opções dos eleitores e sufocando os partidos político menores.

Al Sistani, que no início deste ano enviou dezenas de milhares de iraquianos às ruas para exigir a realização rápida de eleições, estaria preocupado que a chamada "lista de consenso" de candidatos, que está sendo discutida entre os partidos políticos maiores, limitaria artificialmente o poder dos xiitas, que são maioria no país.

Segundo um acordo fechado entre os grupos de exilados no início dos anos 90, os xiitas representariam cerca de 55% da população. Al Sistani, disseram as fontes, acredita que a população xiita cresceu de lá para cá e portanto estaria sub-representada em qualquer lista baseada no número de 55%.

O grão-aiatolá também expressou preocupação de que o governo iraquiano, possivelmente sob pressão americana, adiaria as eleições sob o pretexto de que as condições anárquicas que predominam em grande parte do país tornariam os resultados ilegítimos, disseram as fontes.

Segundo um iraquiano próximo de Al Sistani, que falou longamente com ele no último fim de semana, o aiatolá está tão irritado com a perspectiva dos xiitas ficarem sub-representados que está preparado para retirar seu apoio às eleições, caso suas preocupações não sejam tratadas. Mas não se sabe quais exigências específicas ele fez.

"Se ele achar que isto resultará em eleições injustas e não livres, então ele não tomará parte nisto", disse o iraquiano. "Ele declarará as eleições como sendo ilegítimas."

A atividade dos representantes de Al Sistani representa uma reafirmação de seus esforços para assegurar que os xiitas do país, por muito tempo reprimidos, traduzam sua condição de maioria para o poder político.

Nos meses que se seguiram à derrubada do governo de Saddam Hussein pelos americanos, Al Sistani evitou se envolver nos detalhes da política partidária, mas pressionou agressivamente os americanos, a ONU e o governo iraquiano para realizarem eleições democráticas o mais cedo possível.

A perspectiva de um boicote por Al Sistani poderia ter conseqüências severas a qualquer eleição iraquiana. O grão-aiatolá, o mais alto clérigo da hierarquia religiosa xiita, conta com um enorme respeito entre os iraquianos comuns, muitos dos quais certamente dariam séria consideração a um pronunciamento dele sobre as eleições. Uma associação de clérigos sunitas já anunciou que eles boicotarão a eleição.

As preocupações de Al Sistani também refletem sua contínua ambivalência sobre a presença de forças estrangeiras no país e a influência de organizações internacionais como a ONU. Nos meses que se seguiram desde que os americanos derrubaram Saddam, Al Sistani tem expressado seu desejo do fim da presença americana, mas ele não disse aos iraquianos para se oporem agressivamente a ela.

As preocupações do aiatolá surgem em um momento de crescente incerteza sobre a viabilidade da realização das eleições em janeiro, com a insurreição ocorrendo em grande parte da área denominada sunita, ao norte e oeste de Bagdá.

Na semana passada, Kofi Annan, o secretário-geral da ONU, disse duvidar que eleições legítimas poderão ser realizadas no ambiente atual. Mas algumas autoridades da ONU em Bagdá disseram que acreditam que as eleições poderão ocorrer.

Os comandantes americanos disseram que pretendem colocar muitas das áreas rebeldes, incluindo a cidade de Fallujah, sob controle até o final do ano, à força se necessário.

Chapa única

Nas últimas semanas, os líderes dos grandes partidos políticos iraquianos têm negociado a possibilidade de formarem uma chapa única para as próximas eleições. Segundo o sistema eleitoral desenvolvido pela ONU, os eleitores não escolherão candidatos individuais, mas sim listas, cujos membros ocuparão um número de cadeiras na Assembléia Nacional, aproximadamente igual à proporção de votos que seus partidos receberem.

Apesar de muitos líderes iraquianos preverem que cada partido apresentará sua própria lista para as eleições, as negociações entre os grandes partidos visam consolidar todos os candidatos em uma única lista. Os líderes dos grandes partidos iraquianos que estão envolvidos nas negociações disseram que tal chapa promoveria uma unidade nacional em um momento de grande dificuldade.

"A meta é ter uma frente unida", disse Adil Abdul Mahdi, o ministro das Finanças iraquiano e membro do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, um importante partido xiita. "Nós achamos que seria melhor para a unidade do país." Não estava claro até a noite de quarta-feira o que precisamente Al Sistani pediu para Brahimi e outros na ONU.

Khaffaf se recusou a discutir o que Al Sistani gostaria que Brahimi fizesse, só dizendo: "O mais importante agora é realizar as eleições na data especificada."

Os iraquianos que falaram recentemente com Al Sistani disseram que ele suspeita dos americanos e da ONU: "A situação da segurança poderia ser usada como pretexto para um adiamento", disse ele.

Em Nova York, o escritório de Brahimi disse apenas que ele não falou recentemente com Al Sistani. O representante especial da ONU no Iraque, Qazi Jehangir, não pôde ser contatado para comentário.

Apesar de preocupado com a rápida realização de eleições, Al Sistani parece igualmente preocupado que o processo democrático possa ser usurpado por uma coalizão de partidos políticos bem financiados, quase todos surgidos no exílio e que cooperaram com a ocupação americana.

Estes partidos incluem o Acordo Nacional Iraquiano, que é chefiado pelo primeiro-ministro, Ayad Allawi; o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, o Partido Dawa, o Congresso Nacional Iraquiano, o Partido Democrático Curdo e a União Patriótica do Curdistão.

O Dawa e o Conselho Supremo são partidos políticos dominados pelos xiitas; o Acordo e o Congresso são compostos de etnias e religiões diversas; os dois últimos são curdos.

Todos estes seis partidos são dominados por exilados, e juntos formaram o núcleo da oposição externa a Saddam. Cada um deles esteve representado no Conselho de Governo Iraquiano, o conselho consultor aprovado pelos Estados Unidos que serviu durante os 15 meses de ocupação militar.

A Constituição interina iraquiana não parece proibir alianças entre partidos políticos. "A preocupação do aiatolá Sistani é de que as eleições estão sendo controladas e manejadas pelos partidos políticos que participaram do governo", disse a fonte ligada a Al Sistani.

Queixas semelhantes foram feitas no mês passado, durante um encontro que foi convocado para escolha da Conferência Nacional, uma entidade representando todo o Iraque que aconselha o governo. Religioso quer ampliar a presença dos xiitas no parlamento do país George El Khouri Andolfato

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