UOL Notícias Internacional
 

24/09/2004

Bush arruinou Iraque, e Kerry nada poderia fazer

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYTimes

Em Los Angeles
Tive que ir até Hollywood para encontrar democratas que realmente parecem ser sinceros quando dizem que John Kerry virou uma esquina.

Kerry está buscando esquinas para virar na sua campanha de forma tão frenética como o presidente procura esquinas para virar no Iraque. (Acredito que as chances de Kerry são maiores). Mas, até mesmo aqui, entre a elite cultural liberal, desprezada pela direita, alguns democratas desencantados já torcem por uma restauração da era Clinton em 2008.

"Kerry está sempre se esforçando para provar que é um cidadão comum, enquanto que Bush passa essa impressão de forma natural", diz, desanimado, um democrata influente.

Os republicanos em Washington não estão apenas zombando dos vídeos de windsurfe nas propagandas de Kerry; eles riem da idéia de que o vento esteja soprando a favor do democrata.

A análise privada e perversa dos correligionários de Bush sobre o motivo pelo qual Kerry não consegue deslanchar seria cômica se não fosse trágica: ele não consegue convencer efetivamente alguém de que faria algo de diferente no Iraque porque W. arruinou tanto o país que nem mesmo uma mudança no governo norte-americano ajudaria.

"Ele jamais será capaz de fazer com que outros países nos ajudem", disse um assessor de Bush. "Até mesmo os britânicos mantém apenas 7.000 soldados no Iraque, comparados aos nossos 150 mil". (O jornal "The Observer", de Londres, relatou que, apesar do aumento dos perigos no Iraque, a força britânica principal no país será em breve reduzida em um terço).

Kerry finalmente começou a contra-atacar e centrou o seu foco no Iraque, ao invés de no Vietnã. O seu discurso de 20 de setembro em Nova York foi convincente e, ao contrário da verborragia tóxica de W., contava com a vantagem adicional de ser verdadeiro.

Conforme diz o senador, ir atrás de Saddam foi uma maneira de desviar a atenção que estava voltada para o nosso maior inimigo, Osama Bin Laden. "Trocamos um ditador por um caos que tornou os Estados Unidos menos seguros", criticou Kerry.

Conforme disse Kerry, temos um presidente e um vice que "negam os fatos", imersos em um mundo da fantasia, e que são culpados de "falhas colossais de avaliação".

"Bush atou esse vagão aos ideólogos que o cercam, filtrando aqueles que dele discordavam, incluindo líderes do seu próprio partido e membros das forças armadas", disse ele.

Segundo Kerry, a credibilidade dos Estados Unidos no mundo despencou, exatamente no momento em que temos que lidar com as ações verdadeiramente assustadoras do "eixo do mal": aqueles que são uma ameaça nuclear real, e não imaginária.

Mas a argumentação de Kerry tem um ponto vulnerável. Na coletiva à imprensa na última terça-feira, perguntaram a ele sobre o fato de Bush ter lembrado maliciosamente que Kerry lhe deu autoridade para fazer a guerra. O senador respondeu que aquele voto foi correto, "porque precisávamos fazer com que Saddam Hussein assumisse a responsabilidade pelas armas. Era nisso que os Estados Unidos acreditavam".

Mas nem todos os norte-americanos acreditavam em tal coisa.

O governo fez com que os democratas se enrolassem na questão do voto de autorização para a guerra. À época era óbvio que não fazia sentido ir atrás de Saddam Hussein para punir Osama Bin Laden, que Cheney e acólitos queriam usar Saddam como rato de laboratório para por em prática uma velha agenda neoconservadora.

E era evidente, enquanto a frota rumava para o Iraque, que a tripulação de Bush não tinha interesse na diplomacia, que desejava castrar a flácida Organização das Nações Unidas (ONU), a criança-flor Colin Powell e o seu Departamento de Estado, a imprestável Velha Europa e o desprezado Saddam, para mostrar que os Estados Unidos eram uma hiper-potência com a qual ninguém poderia mexer.

Cito as palavras de uma colega, em setembro de 2002, um mês antes do voto de autorização dado por Kerry: "Bush é como aquele cara que reserva um quarto de hotel e pede a você uma festa de formatura".

Quando Kerry diz que foi a forma como o presidente desafiou Saddam que estava errada, e não o fato de ter desafiado Saddam, ele está se desviando da questão moral central.

Foi errado que o presidente derrubasse Saddam como resposta ao 11 de setembro, que fingisse que o ditador fosse uma ameaça à nossa segurança nacional, que divulgasse um factóide sobre armas de destruição em massa, que estabelecesse um falso vínculo entre Saddam e a Al Qaeda, que desviasse as nossas energias, emoções e recursos do inimigo real para um velho inimigo cujo endereço conhecíamos.

Não foi correto levar os norte-americanos à guerra sem nos dizer a verdade sobre por que tomávamos tal iniciativa e quanto ela nos custaria.

Em suma, não foi a forma como W. o fez. Foi o que ele fez. Afirmação é de republicanos; o democrata só se enrosca no tema Danilo Fonseca

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