UOL Notícias Internacional
 

24/09/2004

Eleição nos EUA não é mais só "coisa de branco"

The New York Times
Sarah Kershaw

Reserva indígena de Rosebud

Estado de Dakota do Sul
Diante de milhares de índios americanos reunidos na conferência anual promovida pelos Sioux, em Rosebud, no mês passado, o presidente da tribo deu ao senador democrata Tom Daschle uma pena vermelha e um nome tribal que significa "Atira no próprio cavalo."

Homens brancos raramente recebem a pena, uma honraria tribal e sagrada tradicionalmente destinada aos índios veteranos, sendo que alguns deles, presentes na conferencia, disseram estar chocados e ofendidos com essa atitude.

Mas Tom Daschle --que está envolvido até o pescoço numa disputa apertada e cheia de maledicências com o desafiante republicano John Thune--, disse que estava profundamente sensibilizado, e sem dúvidas se sentia agradecido pelo que recebeu: o apoio influente do presidente da tribo.

Os índios americanos formam um bloco minúsculo do eleitorado nacional, constituindo apenas 1,5% da população americana, mas que representa mais de 8% do eleitorado do Estado da Dakota do Sul, no norte da região central dos EUA, e pode até decidir uma eleição.

Nos anos mais recentes, as disputas políticas no Estado, para o congresso ou para a escolha dos xerifes dos condados, começaram a depender dos votos indígenas. E agora tanto os republicanos como os democratas, incluindo os candidatos à presidência, cortejam os índios como nunca haviam feito. Daschle, o líder da minoria Democrata no Senado, tem postos de campanha em todas as nove reservas indígenas da Dakota do Sul.

Os índios sempre foram o grupo populacional de menor índice de comparecimento às urnas. Mas, de uns tempos para cá, o registro eleitoral dos índios americanos disparou. Algumas tribos, inclusive a Nação Navajo, a maior do país, com 300 mil integrantes nos Estados do Arizona, Novo México e Utah, até alteraram as datas de suas eleições para os governos das tribos, para que elas coincidam com a eleição presidencial americana.

Antes, quando compareciam às urnas, os índios supostamente sempre apoiavam os Democratas. Mas agora essa tendência se modificou, com os votos e o dinheiro deles indo para ambos os partidos. O presidente da tribo Sioux de Rosebud, assim como um número crescente de índios americanos em Rosebud e em outros cantos do país, têm muitos amigos republicanos.

As contribuições para a campanha aumentaram de maneira expressiva, especialmente em tribos nos Estados da Califórnia, Connecticut e Michigan, que começaram a aplicar lucros significativos recebidos pelos jogos de apostas.(Desde 1988, os índios podem administrar um certo tipo de apostas e cassinos, mediante acordos regulados com os governos estaduais.)

Até agora, os índios já contribuíram com quase US$ 5 milhões (cerca de R$ 15 milhões) para as campanhas federais de 2004. As tribos, enquanto nações soberanas, estão sujeitas a alguns, mas não a todos, limites sobre gastos com campanhas e também sujeitas a leis sobre contribuições financeiras.

Em Rosebud, num dos condados mais pobres de todos os Estados Unidos, onde os índices de desemprego chegam em torno dos 75%, há pouco dinheiro para ser oferecido, e a influência então se manifesta pelos votos.

Charles Colombe, presidente da tribo Sioux nessa vasta e isolada reserva nas planícies do norte, votou em Bush na eleição de 2000, e diz que investirá seu dinheiro pessoal nos candidatos republicanos.

"Muitos, muitos índios se encontram na posição em que eu estou, com a necessidade de ser independente", disse Colombe, em entrevista concedida numa sede da tribo aqui em Rosebud. "Eu agora estou avaliando quem poderá fazer mais pela nação indígena."

Os índios americanos enviaram cerca de 80 delegados à convenção Democrata, e cerca de 35 à Republicana desse ano, um aumento em relação aos anos anteriores, de acordo com o Congresso Nacional dos Índios Americanos, que representa as 562 tribos que funcionam com governos soberanos.

"Parece até que só agora descobriram que estamos por aqui", disse OJ Semans, um índio que vive na reserva de Rosebud e é diretor-em-campo da Four Directions, uma organização sem fins lucrativos voltada para os direitos e registros eleitorais dos índios.

"Atualmente vamos com mais freqüência à capital. Antes, quando nós íamos, éramos recebidos por assessores legislativos. Agora são os próprios senadores ou parlamentares que nos recebem."

Em troca dos votos e das contribuições financeiras, as tribos têm recebido promessas dos políticos, e algumas vezes alguns resultados, em relação a questões importantes para a agenda indígena --quanto à melhoria no transporte e na assistência médica e educacional nas reservas. Nas tribos que administram cassinos, especialmente na Califórnia, os políticos acenam com a tolerância em relação aos jogos de apostas.

As tribos que administram cassinos contribuíram até agora com US$ 4,9 milhões (cerca de R$ 15 milhões) para as campanhas políticas federais desse ano, 65% para os Democratas e 35% para os Republicanos, de acordo com o Centro para Políticas Sensíveis (CPS), organização que acompanha os gastos com as campanhas.

Apenas um pequeno percentual das tribos tem dinheiro suficiente para fazer as contribuições, que ainda são ínfimas em relação ao total do dinheiro investido nas campanhas.

Mas a doação indígena aumentou bastante em relação ao que ocorria há dez anos, quando os cassinos tribais apenas começavam a surgir e a doação das tribos foi de U$ 663 mil (cerca de R$ 1,99 milhão), de acordo com o CPS. As tribos estão sujeitas aos limites financeiros para apoiar cada candidato, o que também é imposto aos outros doadores, mas o total das doações dos índios não é limitado por lei.

No Estado de Dakota do Sul, que tem uma das maiores populações indígenas dos Estados Unidos, a eleição de 2002 parece ter funcionado como um divisor de águas. Graças aos votos dos índios americanos, o Democrata Tim Johnson obteve uma vitória por 524 votos sobre o Republicano Thune, numa vitória para o Senado assegurada apenas depois que os votos das reservas indígenas foram contados.

Eleição não é mais "coisa de brancos"

Agora, na disputa pela outra vaga no Senado (que, nos EUA, é formado por dois senadores de cada um dos 50 Estados), o postulante Daschle, cuja campanha tem postos de campanha em todas as nove reservas da Dakota do Sul, diz, numa entrevista telefônica de Washington, que "2002 demonstrou a força do voto nativo, foi o que fez a diferença. O voto dos índios agora está sendo reconhecido como um dos mais expressivos, e isso ajuda a fortalecer a comunidade Nativa americana."

O senador democrata Johnson declarou: "Quando eu entrei na política, era raro ver um cacique tribal que queria aparecer num palanque ao lado de um político branco. Eles menosprezavam as eleições, como coisa de branco."

O senador acredita que o papel dos eleitores índios na vitória que ele obteve "mudou a dinâmica política da Dakota do Sul para sempre. Eles constituem uma força que não pode mais ser desprezada."

A vitória de Johnson em 2002 recebeu grande atenção nacional e energizou os índios eleitores por aqui, nesse Estado que se tornou uma espécie de observatório do voto indígena. Mas, para muitos, o ponto de virada para os eleitores indígenas americanos aconteceu dois anos antes.

Em 2000, os índios americanos do Estado de Washington, na costa oeste, se mobilizaram para derrotar o senador Republicano Slade Gorton, a quem eles chamavam de "Lutador de Índio". (O termo é utilizado pelos índios americanos para definir políticos que, segundo eles, tentam contrariar as causas indígenas.)

Eles consideraram Gorton hostil aos interesses tribais quanto ao uso da água, da pesca, da terra e da auto-gestão dos índios. O republicano Gorton foi derrotado por pequena margem pela desafiante Democrata, a senadora Maria Cantwell, e os ativistas políticos indígenas aproveitaram essa vitória para motivar o eleitorado indígena americano por todo o país.

"A derrota de Gorton foi boa para a gente", acredita Russ Lehman, gerente da organização First Americans Education Project, em Olympia, no Estado de Washington, cuja organização esteve maciçamente envolvida no registro de eleitores indígenas durante aquela disputa, e que ajudou a chamar a atenção sobre a eleição em todo o pais. "Aquilo ajudou a concentrar a atenção e a energia dos índios sobre a importância de participar em disputas federais."

Lehman acredita que a derrota de Gorton, e mais tarde a vitória de Johnson, repercutiram entre outros políticos eleitos e entre os atuais candidatos. "Acho que eles disseram, 'sabem, não vou contrariar os índios. Olhem o que eles fizeram com o Gorton, e vejam o que aconteceu em 2002 com o Tim Johnson.'"

Kerry e Bush

O resultado é que, segundo líderes tribais, agora os candidatos à presidência se aproximaram de maneira inédita dos eleitores índios americanos, especialmente em estados onde a disputa não está definida, como o Novo México e o Arizona.

Republicanos e Democratas estão veiculando comerciais em linguagem indígena nesses Estados, e o presidente Bush teve encontro particular com o vice-presidente da Nação Navajo, Frank Dayish Jr., numa escala antes da campanha que fez mês passado no Novo México.

Enquanto isso, o senador John Kerry compareceu mês passado a uma conferencia dos Zuni e dos Navajo em Gallup, também no Novo México. Foi lá que os índios balançaram penas de águia sobre a cabeça do Democrata, num ritual que, segundo a crença deles, afasta os maus espíritos.

"Foi uma grande experiência", disse o presidente da Nação Navajo, Joe Shirley Jr., que apóia Kerry. "Eu realmente gostei do fato de que ele realmente quis visitar nossa nação nativa e fazer parte de nossa cerimônia sagrada."

Joe Shirley, líder de uma nação de 300 mil índios que vivem no Novo México, no Arizona e em Utah, e empreendedor de uma grande campanha pelo registro de eleitores, declarou que acredita ser essa a primeira vez em que um candidato presidencial comparece a um território indígena americano.

Esse ano, segundo os observadores políticos, há muitas disputas na Câmara dos Representantes e no Senado que poderão ser decididas pelo voto indígena. Por exemplo, no Alasca --lá, na disputa pelo Senado, a Republicana Lisa Murkowski, filha do governador Frank H. Murkowski, está numa luta bem apertada contra o Democrata Tony Knowles, um ex-governador do Estado. A população do Alasca é formada por 16% de nativos. E, como acontece com os eleitores indígenas em outros Estados, esse ano os nativos do Alasca estão envolvidos em uma grande campanha para o registro de novos eleitores.

Enquanto bloco político, não há posição tomada pelos líderes dos nativos do Alaska, embora alguns observadores dizem esperar que a maioria dos votos vá para o Democrata Knowles. Mas vale ressaltar que o Alasca é um estado fortemente Republicano.

Já entre as comunidades indígenas mais ricas dos Estados Unidos continentais, há um apoio crescente aos Republicanos, sendo que várias tribos que administram jogos de apostas, inclusive a Saginaw Chippewa de Michigan, já começaram a doar quantias relativamente altas para o partido de Bush.

Joseph Sowmick, diretor de relações públicas dessa tribo da região dos Grandes Lagos, falando em seu nome e não em nome da tribo, diz que "a plataforma Republicana de respeito à soberania tribal e também a idéia de que deve haver menos governo são muito atraentes para os Saginaw Chippewa."

A tribo, que tem cerca de 3 mil integrantes, até agora já contribuiu com US$ 239 mil (mais de R$ 700 mil) para as campanhas de 2004, com 62% dessa quantia indo para os Republicanos. Entre as "tribos de apostas", os Saginaw de Michigan estão em terceiro lugar como os maiores contribuintes eleitorais, depois dos Morongo Band, de Mission Indians no sul da Califórnia, e dos Mashantucket Pequot, em Connecticut. Todas essas tribos doaram tanto para os Republicanos como para os Democratas, de acordo com a organização Centro para Políticas Sensíveis.

Desconfiança

Embora reconheça que em Dakota do Sul a maioria dos eleitores indígenas tende a votar nos Democratas, o republicano Thune, adversário de Daschle, disse que está satisfeito em perceber que os índios também estão apoiando Republicanos.

"Eles estão mais receptivos ao outro lado da história", disse Thune. "Acho que isso é uma reação a tantas promessas vazias feitas pelos Democratas ao longo dos anos."

Há tensão crescente entre duas facções indígenas. De um lado, estão os índios que confiam nos Republicanos e que acham os Democratas muito paternalistas; do outro lado, há os índios que desconfiam dos Republicanos, dizendo que os partidários de Bush só os procuram por causa do dinheiro das "tribos de apostas" e porque outras tribos têm votos em potencial para decidir disputas eleitorais apertadas.

"Infelizmente, estão se aproveitando das tribos --até porque elas são neófitas em política", acredita Lehman, o gerente da ONG First Americans. "Eles estão sendo convidados para jantar, mas não irão realmente sentar à mesa."

Mas Colombe, o presidente da reserva em Rosebud, que diz já ter-se envolvido no passado em campanhas para registro de eleitores que fracassaram, minimiza o atual conflito de interesses, e diz que o progresso mais importante acontece porque os índios americanos agora estão realmente votando, comparecendo às urnas.

"Nós começamos a compreender que esse sistema irá funcionar sem você, a não ser que você resolva participar", dia o cacique dos Sioux. "As idéias demoram a pegar. E essa idéia de aproveitar o voto, na minha opinião, levou uma geração inteira para se firmar e valer entre nossa gente." Índios americanos lidam cada vez mais com o grande poder político Marcelo Godoy

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