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24/09/2004

Halliburton pode falir, apesar de suas conexões

The New York Times
Simon Romero

Em Houston
Quando a Halliburton obteve contratos no valor de mais de US$ 12 bilhões para trabalhar no Iraque, os críticos disseram que a empresa estava usando seus contatos políticos para colher grandes lucros. Mas agora, em um sinal de que aqueles contratos não estão fornecendo o ganho que os executivos esperavam em uma subsidiária atrapalhada por outros problemas, a Halliburton disse na quinta-feira (23/09) que está considerando a venda da empresa.

A unidade, a KBR, que presta serviços para as forças armadas e em campos de petróleo, tem sido atormentada por perdas decepcionantes, investigações de suas atividades na Nigéria e no Irã e pesados processos envolvendo asbestos. Para piorar ainda mais, o trabalho da KBR no Iraque não tem sido tão lucrativo quanto outras atividades, e tem contribuído para um pesadelo de relações públicas para a Halliburton. Tudo isto está acontecendo enquanto a KBR está buscando se reerguer de uma concordata.

O anúncio da Halliburton, a maior empresa de serviços de energia do país, indicou que os problemas da KBR têm prejudicado o preço das ações da Halliburton e atrapalhado suas ambições de se beneficiar com os preços elevados do petróleo.

Em uma reunião realizada em Houston com investidores, o executivo-chefe da Halliburton, David J. Lesar, disse que a empresa se viu envolvida em uma "campanha vil" de ataques políticos visando a eleição presidencial deste ano. Lesar lamentou a proeminência da Halliburton como alvo daqueles que criticam a forma como o governo Bush tem lidado com a guerra no Iraque, e repetiu algumas destas preocupações nesta quinta-feira.

Controvérsia não é novidade para a empresa que já foi dirigida pelo vice-presidente Dick Cheney por cinco anos, até 2000. A KBR há muito tempo tem sido associada aos laços estreitos entre a política e a indústria petrolífera no Texas, e se tornou símbolo do envolvimento dos conglomerados americanos de energia em muitas áreas politicamente desagradáveis ao redor do mundo. A Halliburton adquiriu a Brown and Root, a ancestral da KBR, em 1962.

Mesmo assim, a Halliburton não conseguiu deixar de se transformar em pára-raios de queixas sobre corporações americanas lucrando com a guerra no Iraque desde que veio à tona, em março de 2003, que lhe foram concedidos os maiores contratos naquele país. Lesar, em um sinal da irritação da administração da Halliburton com tais críticas, disse que os funcionários da empresa "não merecem ter seus empregos ameaçados para ganho político".

No início deste mês, a Halliburton disse que poderá reduzir suas atividades no Iraque, depois de ficar aparente que o Exército planejava dividir seu maior contrato no Iraque, efetivamente dividindo mais de US$ 12 bilhões em trabalho entre várias empresas. A Halliburton teve que repetidas vezes responder às acusações de que a KBR superfaturou alguns de seus serviços para o Departamento de Defesa.

Entre as preocupações mais urgentes da Halliburton estão as investigações de autoridades francesas, americanas e nigerianas do papel da KBR em um esquema de pagamentos para seu trabalho em um projeto de gás natural líquido na Nigéria, nos anos 90, enquanto Cheney era o executivo-chefe da Halliburton.

O Departamento de Justiça também está investigando as atividades da Halliburton no Irã, onde ela opera por meio de uma brecha que permite que permaneça lá, apesar das sanções americanas que limitam os negócios naquele país.

"Todas estas questões, críticas e atenção na Halliburton têm ocorrido pelo lado da KBR", disse Michael Urban, um analista do Deutsche Bank, que escutou os comentários de Lesar em Houston. "Provavelmente este é o motivo do valor de mercado da KBR ser quase zero e por que ela deve sair. Já era hora."

A empresa disse que removerá a KBR por meio de venda, separação ou oferta pública de ações, opções que poderiam permitir a Halliburton manter certo grau de controle sobre a KBR. Qualquer separação eventual dependeria da unidade continuar atrás das demais unidades nas avaliações de preço de ações, disse a empresa.

No segundo trimestre, a KBR informou um prejuízo operacional de US$ 277 milhões, em comparação com um prejuízo de US$ 148 milhões no ano anterior, em uma receita de US$ 3,1 bilhão. A outra principal linha de atividade da Halliburton, o Energy Services Group, apresentou um lucro operacional naquele trimestre de US$ 271 milhões, um aumento em comparação aos US$ 36 milhões do ano anterior, em uma receita de US$ 1,9 bilhão.

Os analistas dizem que a KBR tem desvalorizado as ações da Halliburton. Em 2000, as ações da empresa eram negociadas na faixa dos US$ 50, enquanto nesta quinta-feira, as ações subiram 18 centavos de dólar, fechando a US$ 32,24, após os investidores terem reagido aos comentários de Lesar.

A separação da KBR da Halliburton tem sido defendida por muitos dos investidores da empresa há algum tempo. As margens de lucro para o trabalho da KBR no Iraque são significativamente mais baixas do que as de outras unidades da Halliburton.

Os passivos da KBR nos processos de asbestos, um legado de um acordo supervisionado por Cheney quando dirigiu a empresa, também têm pesado contra o preço das ações da Halliburton. No início deste ano, a Halliburton conseguiu a aprovação da Justiça de um plano de acordo para os processos de asbestos, que permitiria à KBR sair da proteção contra falência.

Os investidores também estão ficando cada vez mais desconfortáveis com os estouros de orçamento em um projeto para a companhia petrolífera estatal do Brasil, que contribuíram com mais de US$ 600 milhões em perdas no início deste ano.

E também há as críticas contínuas das ligações da Halliburton com Cheney e seu trabalho no Iraque, que levaram alguns investidores a se afastarem da empresa. "Há uma percepção politicamente negativa da KBR, seja merecida ou não", disse Gary Russell, um analista de Denver da corretora Stifel Nicolaus. "Seria benéfico se despojar dela, porque o mercado atualmente premia empresas dedicadas a um só setor em vez de conglomerados diversificados."

Fragilidade política

De fato, a complexidade corporativa da Halliburton, assim como suas ligações com Washington, vieram com um custo. Quando as autoridades do Pentágono decidiram, em 2002, conceder secretamente à unidade KBR da empresa o trabalho de reconstrução da indústria petrolífera do Iraque, eles disseram que perceberam que tal decisão provavelmente se tornaria uma problema político.

"Todos perceberam que a escolha da KBR seria mal vista, então a idéia foi iniciar uma licitação o mais rapidamente possível", disse uma autoridade envolvida na seleção.

Quando a notícia do contrato sem licitação veio à tona poucos dias depois da invasão em março de 2003, os democratas no Congresso criticaram rapidamente o negócio e pressionaram por um novo contrato. De fato, o contrato do petróleo passou por licitação e a KBR conquistou um dos dois contratos.

Mas isto não suspendeu as críticas: as ligações de Cheney com a empresa e o trabalho da Halliburton no Iraque têm sido temas constantes nos comerciais de campanha do candidato democrata, John Kerry, e seus aliados. Pelo menos 45 funcionários e pessoal terceirizado da Halliburton morreram no Iraque no ano passado.

O destaque da empresa também levou a uma maior atenção da mídia. As práticas contábeis da Halliburton nos contratos foram foco de uma investigação da Comissão de Valores Mobiliários.

No início deste ano, a empresa encerrou o caso com um acordo, nem admitindo nem negando ter feito algo errado, mas concordando em pagar US$ 7,5 milhões. Grande parte do acordo derivou das acusações de que a Halliburton não cooperou plenamente com a comissão.

E quando a empresa se viu sob investigação, funcionários do governo apoiaram a investigação em vez de defenderem a empresa. O governo, por exemplo, tem apoiado a agência anticorrupção nigeriana que está envolvida na investigação de negócios questionáveis de gás na Nigéria envolvendo a KBR.

E quando os auditores do Pentágono questionaram possíveis superfaturamentos no Iraque por parte da KBR, o presidente Bush disse em dezembro passado que espera que a empresa devolva US$ 61 milhões caso fique confirmado que ela superfaturou seu contrato com o Pentágono para entrega de combustível no Iraque.

Nos últimos anos, à medida que a KBR cada vez mais se envolvia no negócio de prestação de serviços para as forças armadas americanas, como preparação de alimentos e transporte de combustível, a Halliburton passou a perder terreno para concorrentes em serviços de energia, incluindo a Schlumberger, o grande grupo franco-americano de energia, em avaliações dos investidores.

Livrando-se da KBR, a Halliburton poderá se concentrar mais em atividades como encontrar, perfurar e extrair petróleo, o que é considerado mais valioso em um momento em que as empresas do setor tentam tirar proveito da escalada dos preços de energia.

A Halliburton também disse na quinta-feira que está buscando cortar até US$ 100 milhões em custos na KBR, mas se recusou a fornecer detalhes sobre se há demissões previstas na unidade.

"Isto se trata de eliminar uma distração, um fluxo constante de notícias decepcionantes", disse Dan Pickering, presidente da Pickering Energy, uma empresa de pesquisa de energia em Houston. "A Halliburton não teria tido tamanha visibilidade como nos últimos dois anos se não fosse pela KBR." Parte da empresa do vice-presidente dos EUA deverá ser vendida George El Khouri Andolfato

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