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25/09/2004

Brasil rico e Brasil pobre dão show em Nova York

The New York Times
LARRY ROHTER

Em São Paulo
Marcelo Bratke, um premiado pianista clássico de 44 anos, vem de uma família de arquitetos proeminentes aqui na maior cidade do Brasil. Alex Santos, um morador de 17 anos de um violento bairro pobre, toca em bandas de samba nos fins de semana e vê a carreira como músico profissional como sua melhor chance de escapar da pobreza.

Em uma sociedade tão estratificada como a do Brasil, não há motivo para pessoas de origens tão diferentes se encontrarem, muito menos trabalharem juntas. Mas devido a um encontro casual em uma praça da cidade, Bratke e os cinco membros do grupo de percussão do qual Santos faz parte tocarão em um programa incomum de música clássica no Carnegie Hall, neste domingo (26/09), em Nova York.

"A Trilogia do Carnaval" inclui uma suíte raramente executada do compositor francês Darius Milhaud, inspirada em sua estadia de dois anos no Brasil, assim como em composições de dois brasileiros, Heitor Villa-Lobos e Ernesto Nazareth. O que todas as três peças têm em comum, explicou Bratke, é que exploram ritmos da música popular brasileira, misturando e combinando o erudito e o popular assim como o conjunto que apresentará a música.

"A marca da cultura brasileira é sua miscigenação, sua maleabilidade, sua capacidade de misturar elementos aparentemente antagônicos", disse Bratke durante uma entrevista no salão local onde ele e o grupo de percussão, o Charanga, estavam ensaiando. "Você pode reunir pessoas que aparentemente não combinam, como eu e estes garotos, e ver que elas na verdade são complementares."

Bratke disse que a idéia para o programa, que recebeu críticas altamente positivas após apresentações recentes em São Paulo e em Buenos Aires, lhe ocorreu três anos atrás, durante uma excursão pelo Brasil, onde tocou com músicos locais em cada parada.

Mas ele não sabia como dar continuidade até voltar para casa e cruzar por acaso com o Charanga, cujo nome vem de uma palavra em português que descreve uma orquestra informal de rua, tocando em uma praça local.

"Eles estavam tocando maracatu", disse ele, se referindo a um ritmo tradicional de Carnaval do Estado de Pernambuco, no Nordeste. "E antes de perceber o quão jovens eles eram, eu pensei: 'Eles são muito bons'. Eu pedi o cartão deles, e após conversarmos posteriormente, nós concordamos em investir nisto."

Mas Bratke também reconhece os motivos profundamente pessoais para o tom jubilante, celebratório, do programa do Carnegie Hall. Nascido com catarata, que o deixou com apenas 10% da visão quando era criança, ele recentemente se submeteu a uma operação nos Estados Unidos, que lhe deu 80% da visão no olho esquerdo e lhe permitiu experimentar a vida de nova forma.

"Eu agora vejo o mundo como uma orgia de cores", disse ele. "Tudo parece claro e brilhante, como um desenho animado, não nebuloso, como antes. Uma árvore parece chocantemente verde para mim agora, e quando olho para a partitura musical, agora posso ver ambas as claves ao mesmo tempo, porque não vou mais direto ao topo da página. É como viver em outro universo."

Como inspiração para sua colaboração com os percussionistas, Bratke pegou o primeiro encontro de Milhaud e Villa-Lobos, no fim de semana do Carnaval no Rio de Janeiro, em 1916. Milhaud tinha acabado de chegar como adido cultural da embaixada da França no Brasil, e Villa-Lobos, que tinha 29 anos e estava formando sua reputação, foi indicado como seu guia turístico.

No final da agitada excursão de Milhaud, ele assistiu a uma apresentação de Nazareth, um pianista e compositor que ocupa uma posição na cultura brasileira semelhante à de Scott Joplin nos Estados Unidos, como "uma ponte entre as tradições clássica e popular", nas palavras de Bratke.

Milhaud comentou posteriormente: "Foi quando ouvi Nazareth que entendi a essência da alma brasileira".

Anos depois, de volta a Paris, Milhaud escreveu "Saudades do Brasil", uma série de peças de piano sobre os bairros do Rio, incorporando tanto os ritmos do Carnaval e algumas das melodias de Nazareth. Bratke completou a suíte com interlúdios nos quais os percussionistas elaboram os ritmos por trás de cada um das peças de Milhaud, utilizando chocalhos, tamborins, timbales, triângulos e apitos.

"Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer"

"Esta música tem balanço, mas não é cultura de rebolado", disse Maurício Alves, 31 anos, líder do grupo de percussão. "O Marcelo nos disse que apesar de estarmos tocando para um público seleto, a música deve sempre ter swing, e isto, felizmente, é algo que não nos falta."

Alves estudou tanto percussão popular quanto clássica em uma escola de música e também já foi membro da conhecida banda do Mestre Ambrósio, que já se apresentou na Europa, Japão e nos Estados Unidos.

Mas quando soube que a Associação Comunitária Despertar no Jardim Villas Boas, um das regiões mais perigosas desta metrópole de 20 milhões de habitantes, estava procurando por alguém para conduzir um grupo de dança e orquestra jovem de percussão de 60 membros, ele agarrou a chance.

"Eu queria abrir uma janela para que estes garotos pudessem projetar a si mesmos como profissionais e se tornarem membros produtivos da sociedade", disse ele. "A meta aqui é tanto treinar os garotos quanto gerar alguma renda por meio dos shows."

Os quatro outros percussionistas escolhidos por Alves são seus pupilos no Despertar. A associação de 10 anos há muito tempo tem programas para treinar adolescentes para trabalhos como eletricista, jardineiro, cabeleireiro e operadores de computador, mas acrescentou a orquestra de percussão como um incentivo a mais para manter os adolescentes longe das drogas e do crime que proliferam no bairro.

"Quando o Alex começou a ir ao centro, eu fiquei aliviada, porque muitas coisas ruins acontecem nas ruas, e isto o manteria ocupado fazendo algo bom, algo positivo", disse Eliane, a mãe de Alex. "Mas nunca imaginei que algo assim poderia acontecer."

Eliane Santos trabalha como doméstica, ganhando cerca de US$ 80 (R$ 240)por mês, e o marido dela, Carlos Roberto Santos, é um varredor de rua cujo salário equivale a cerca do dobro do dela. A família mora em uma casa de 4,5 X 3 metros com um único cômodo, que serve como sala de jantar e dormitório, mais uma pequena cozinha e banheiro.

Como Alves, os percussionistas mais jovens já têm experiência em tocar profissionalmente, apesar de em reinos distantes da música clássica. Marcos Silva --com 22 anos, o mais velho dos quatro-- foi baterista de uma banda cover do Nirvana, e os outros, cujas idades variam de 14 anos a 17, já tocaram ocasionalmente por menos de US$ 10 por noite em grupos de samba que tocam em bares locais nos fins de semana.

"Nós nunca ouvimos falar de nenhum destes compositores, então é claro que no começo foi difícil entender o que estava acontecendo nesta música", disse Alex Santos. "No começo, tudo o que você escuta é a técnica. Mas então as coisas mudaram, e nós começamos a também sentir a emoção, de forma que hoje tocar esta música nos dá muito prazer." Pianista se apresenta com jovens percussionistas no Carnegie Hall George El Khouri Andolfato

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