UOL Notícias Internacional
 

25/09/2004

George Bush ri enquanto Iraque arde em chamas

The New York Times
Bob Herbert

Colunista do NYTimes
George W. Bush apoiou a Guerra do Vietnã. Por algum tempo.

Conforme explicou em sua autobiografia: "A minha tendência foi de apoiar o governo e a guerra até que esta mostrou ser incorreta, e isso aconteceu somente mais tarde, quando descobri que não éramos capazes de explicar a missão, não contávamos com uma estratégia de fuga, e não parecíamos estar lutando para vencer".

Como foi que ele acabou enxergando tão claramente o fiasco que foi o Vietnã, mas continua cego para as assustadoras realidades similares relativas à sua própria guerra no Iraque? Bush não é capaz de explicar a nossa missão no Iraque e não conta com nada que lembre uma estratégia de fuga, e as suas tropas --prejudicadas por falta de pessoal e por considerações políticas norte-americanas e iraquianas potencialmente fatais-- certamente não estão lutando para ganhar.

À medida que a situação no Iraque se deteriora, o presidente, baseado nos seus comentários públicos, parece estar se distanciando cada vez mais da realidade.

Isso é perturbador, para dizer o mínimo.

As notícias que vêm do Iraque estão repletas de relatos de seqüestros e decapitações, de gente suplicando desesperadamente por suas vidas, de soldados norte-americanos emboscados e mortos, de grupos de iraquianos sendo reduzidos a pedaços por atentados praticados por homens-bomba, e da erosão das perspectivas de que haja uma eleição crível em janeiro.

O esforço de guerra se deteriorou tão drasticamente que o governo está planejando pegar mais US$ 3 bilhões reservados a projetos cruciais de reconstrução e redirecioná-los para programas de segurança elaborados para conter a insurgência cada vez mais mortífera.

Uma Estimativa Nacional de Inteligência preparada para o presidente não descreveu nenhuma perspectiva realmente boa para o Iraque. O melhor cenário possível seria um país com uma estabilidade apenas tênue. E o pior cenário seria uma guerra civil.

A estimativa de inteligência foi preparada em julho, e desde então a situação só piorou. Até mesmo os republicanos estão começando a manifestar as suas preocupações quanto ao desastre iminente. Quando lhe perguntaram no programa da CBS "Face the Nation" se os Estados Unidos estão ganhando a guerra no Iraque, o senador Chuck Hagel, republicano de Nebraska, disse, "Não, não creio que estejamos vencendo". Ele disse que os Estados Unidos estão "em sérios apuros no Iraque" e que se faz necessária alguma "nova calibragem de política" para reverter a situação.

O senador John McCain, republicano do Arizona, disse no programa "Fox News Sunday": "A situação obviamente se deteriorou, para dizer o mínimo". Ele disse que "erros graves" foram cometidos e que a maior parte deles "pode ser atribuída ao fato de não haver um número suficiente de tropas no Iraque".

E esses não são exatamente pacifistas falando. São apoiadores de Bush que apóiam a guerra no Iraque e que acreditam que ela possa ser vencida. Mas eles também estão em contato com a realidade.

Bush não compartilha essa sensação de alarme. Ele reconheceu que "cenas horríveis" têm sido mostradas na televisão e na Internet, mas não se mostrou abalado pelas sombrias estimativas de inteligência. Bush disse: "A CIA descreveu vários cenários possíveis. Segundo esses cenários a vida no país poderia ser difícil, suportável ou boa".

O presidente disse que está pessoalmente otimista, e apresentou uma avaliação otimista das condições no Iraque à Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) na última terça-feira (21/09). Segundo ele, o Iraque está firme na rota para se tornar "seguro, democrático, federal e livre".

Se alguém passar algum tempo imerso no mundo como este é descrito por Karl Rove, descobrirá que as palavras perdem até mesmo a conexão mais remota com a realidade. Elas se tornam nada mais que ferramentas elaboradas para atingir objetivos políticos. Portanto, não é fácil decifrar o que o presidente acredita quando o assunto é o Iraque.

E isso é assustador. Em um momento em que norte-americanos, iraquianos e outros morrem de maneira horrível na longa noite escura dessa guerra liderada pelos Estados Unidos, o mundo precisa mais do presidente dos Estados Unidos do que de discursos tolos e vazios.

Talvez alguém possa expulsar o presidente do nicho de Karl, sacudi-lo e dizer-lhe que a sua guerra é uma tremenda tragédia com implicações que vão bem além da eleição em novembro.

No momento não há evidências de que o presidente entenda algo sobre a guerra. Ele conduziu a nação a esse conflito por meio de falsas alegações, jamais mobilizou um número suficiente de soldados, parecia acreditar que a guerra tinha acabado em maio de 2003, e agora parece não saber como proceder.

A lição trágica aprendida no Vietnã está batendo na face do presidente. Mas Bush terá que se familiarizar mais com o mundo real antes que possa sequer começar a aprender com ele. Só há paz no mundo de faz-de-conta onde o presidente parece viver Danilo Fonseca

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