UOL Notícias Internacional
 

27/09/2004

"Dançarino" Kerry enfrenta o "pegador" Bush

The New York Times
Alex Willians

Em Nova York
Para usar o jargão do boxe, pode-se dizer que um embate entre John Kerry e George W. Bush é um caso clássico de enfrentamento entre um dançarino e um pegador: Kerry se movimenta em torno das questões; Bush procura bater nelas sem rodeios.

O embate na próxima quinta-feira, na Universidade de Miami, local do primeiro debate presidencial, esperado ansiosamente, deve jogar um candidato contra o outro, fazendo com que troquem acusações em torno do Iraque e da criação de empregos. Mas se os debates prévios servirem como referência, o candidato que será identificado pelos eleitores como o vencedor provavelmente não será escolhido pela substância da sua retórica, e sim pelo estilo apresentado.

Componentes sutis de estilo como gestos, postura, sintaxe e o tom de voz respondem por até 75% da conclusão dos expectadores sobre a capacidade de um candidato se eleger, afirma Bill Carrick, consultor político responsável pela campanha presidencial de Dick Gephardt neste ano. Em outras palavras, ele diz que o mais importante no debate é o estilo - aquelas mensagens não verbais que falam ao coração, e não às mentes.

"Creio que ambos têm consciência de que se trata mais de impressão transmitida do que de ganhar um debate", diz Carrick. "É uma atuação semelhante à de um apresentador de televisão".

Especialistas em linguagem corporal, lingüística e aparência pessoal que têm visto os candidatos nas últimas semanas identificaram vários fatores relativos à provável atuação dos candidatos aos quais o telespectador deve ficar atento.

A primeira coisa observada e julgada pelos eleitores é a face do candidato. Quando se trata de Kerry versus Bush, é algo como o embate entre "O Maxilar do Trovão" e "Os Lábios da Destruição".
"Pouca gente entende que as estruturas faciais dizem muita coisa", diz Caroline F. Keating, professora de psicologia da Universidade Colgate que estudou indicações de status transmitidas pelas características faciais.

Segundo ela, a face de Kerry consiste em um melhor objeto de estudos em termos de contrastes. O queixo em formato de bigorna transmite a idéia de força, mas as sobrancelhas caídas e olhos encobertos transmitem uma impressão de idade e letargia. Segundo Keating, para contrabalançar isso ele precisa mostrar mais animação e sorrir mais, como tem feito ultimamente. "O sorriso atrai as pessoas", diz ela.

Segundo Keating, por sorte Kerry usa um penteado vertical cheio de jovialidade. "Ele possui um cabelo interessante, algo que é bastante útil", diz ela. "Esse cabelo selvagem e indomado é algo que se associa com juventude" (os republicanos não concordam necessariamente com isso; eles zombam do penteado estilo "Capitol Hill", dizendo que ele dá uma aparência de futilidade).

Keating diz que, com relação a Bush, a sua face arredondada - acentuada pelo corte de cabelo curto - transmite calor e acessibilidade, mas também, às vezes, lhe dá uma infeliz "cara de garoto".

O poder da aparência do presidente deriva dos seus olhos e lábios finos, que, segundo ela, são um sinal de dominação. "Mas quando ele pisca os olhos e lambe os lábios, aparentemente quando está agitado, a imagem de pessoa que está no comando é prejudicada".

Quanto à roupa, desde que, segundo alguns especialistas, Richard M. Nixon teria perdido o seu primeiro debate em 1960, em parte, por usar um terno cinza contra um fundo cinza, a roupa para os debatedores presidenciais passou a se restringir a uma única opção.
O terno azul marinho é o uniforme usual. "As lapelas não devem ter mais de dez centímetros", diz George de Paris, um alfaiate de Washington que fez vários ternos para Bush. "Os ternos são invariavelmente justos na frente e trazem um corte atrás. As camisas geralmente são brancas, e as gravatas têm um vermelho forte".

É nos acessórios que os candidatos se diferenciam entre si.
Ultimamente, Bush tem usado punhos franceses com abotoaduras de ouro, o que reforça a impressão de perspicácia executiva. Já Kerry opta por uma pulseira amarela da Fundação Lance Armstrong, um grupo de ativista de sobreviventes do câncer, o que pode lhe conferir uma aparência atlética jovem.

Uma outra mensagem captada pelos telespectadores é a autoridade expressa pela linguagem corporal. O candidato se comporta como caçador ou como caça?

Segundo especialistas em imagem, é imperativo que os debatedores pareçam relaxados, sem, entretanto, aparentarem negligência. Cada um deve dar a entender que está confortável consigo mesmo, porque de certa forma isso tem algo a ver com a pessoa que o eleitor vai querer ter na sua sala de estar pelos próximos quatro anos.

"John Kerry tem a postura militar - costas retas, uma presença bem forte", opina Kevin Hogan, consultor de empresas de Eagan, Minnesota, e analista de linguagem corporal. "Já George Bush possui uma pequena curvatura nos ombros, uma espécie de S no alto da coluna, algo que não o ajuda".

Mas o presidente, que é mais compacto (Bush tem 1,81 m, contra os mais de 1,90 m de Kerry), pode usar a sua constituição física de forma mais efetiva, como quando se inclina em direção à câmera e ameaça os terroristas, ou quando bate contra o palanque de forma suave, mas metódica.

Segundo Hogan, os gestos de mãos dos dois candidatos têm resultados diferentes. O presidente gesticula naturalmente quando está descontraído, e isso parece sublinhar a sua sinceridade.

Ele usa o movimento "limpador de pára-brisa" - movendo a mão direita do peito para o lado - para ressaltar as questões que são, para ele, mais importantes. "Esse é o seu gesto mais enérgico", afirma Hogan.

Já Kerry, na opinião dos especialistas, tende a usar gestos extravagantes quando está menos seguro de si. O candidato democrata chegou a ser alvo de piadas em blogs na Internet devido a sua tendência de movimentar os braços sem sincronia com as suas palavras quando está confuso. Ele tende também a dar golpes no ar quando quer enfatizar determinada questão.

Um movimento efetivo feito por Kerry parece imitar o único democrata que ganhou a Casa Branca por dois mandatos consecutivos desde a idade do poliéster, diz Spencer Kelly, estudioso dos gestos de mãos e colega de Keating na Universidade Colgate.

De acordo com Kelly, o gesto clintoniano começa com um punho fechado. A seguir, Kerry coloca o polegar direito sobre o dedo indicador e dá pequenos golpes no ar, como se estivesse segurando um pequeno presente. O especialista explica: "O significado é: 'Tenho algo aqui para vocês. Vocês estão em boas mãos'".

"O público que estará assistindo é formado por telespectadores ávidos", diz Philip B. Dusenberry, um dos fundadores do Tuesday Team, um grupo de publicitários que criou as propagandas de televisão para Ronald Reagan em 1984.

"Eles sabem pelo que procurar", disse. "Um candidato que parece nervoso ou que começa a gaguejar para responder está em maus lençóis".

E em uma eleição disputada, até mesmo uma piada feita com habilidade, contanto que pareça espontânea, pode ser o fator decisivo.

"Ambos os candidatos estarão muito bem preparados", afirma Dusenberry. "Eles conhecerão todas as respostas antes que as perguntas terminem de ser formuladas. Mas quanto a saber como respondê-las com humor e inteligência, aí é uma outra história".

Cada candidato deve usar os seus talentos de comunicador, diz Susan Batson, especialista em artes teatrais.

Ela explica que o que Kerry deve fazer é se abrir. Se ele tentar ser como o resoluto Bush, adverte ela, poderá cair naquela velha armadilha: passar uma impressão de rigidez corporal.

Segundo Batson, a melhor oportunidade de Kerry será rir mais, radiar uma vulnerabilidade com seus olhos, um senso de compaixão e sabedoria, contrapondo-se à estreiteza de pensamento e à agressão.

"Ele poderia ser algo como uma combinação de Henry Fonda e James Stewart", diz Batson.

Embora faça parte do bloco de críticos do presidente, Batson reconhece que este possui uma força inata, e que poderia efetivamente canalizar as suas energias aos olhos da audiência ao redirecionar os seus tons de dureza e condescendência para o arquétipo do lutador solitário. "Há nele um potencial para um Steve McQueen", admite ela, com um suspiro.

Larry Moss, um outro especialista em artes cênicas de Hollywood, diz que até mesmo o tom da voz é crucial. Segundo ele, a voz do presidente tem uma característica vagamente metálica que ele não deve permitir que chegue à estridência. Ela deve ser incisiva, sem ser cortante.

Segundo Moss, que assessorou profissionais como Hilary Swank e Helen Hunt, o desafio de Kerry talvez seja ainda maior. Ele precisa redirecionar a sua atuação da cabeça para as vísceras.

"É preciso ter um certo apelo visceral para que as pessoas te dêem ouvidos", diz Moss. Kerry precisa expandir a faixa dinâmica da sua voz, e evitar ser monótono. O som deve vir do fundo do diafragma, e não do alto da garganta.

Ambos os candidatos enfrentam campos minados sintáticos - atualmente bastante conhecidos dos eleitores - que é necessário evitar. Bush às vezes mutila a linguagem, enquanto Kerry tem uma tendência a divagar quando a audiência deseja que ele vá direto ao assunto. Ele também usa aquilo que George P. Lakoff, professor de lingüística da Universidade da Califórnia em Berkeley, chama de "barreiras", palavras e construções gramáticas que implicam incerteza ou qualificação.

"Há certas formas gramaticais que não transmitem a idéia de compromisso, como 'eu creio' ou 'eu penso'", diz Lakoff. "Kerry tem que aprender a evitá-las".

"É possível ser decisivo sem parecer que se é decisivo", diz Kathleen Hall Jamieson, diretor do Centro de Políticas Públicas Annenberg da Universidade da Pensilvânia. "Pessoas que falam por meio de sentenças que contêm frases intercaladas ou que começam sentenças e se desviam para uma série de exemplos ilustrativos antes de terminar essas sentenças não transmitem confiança e autoridade. A linguagem da decisão é composta de sujeito, verbo e objeto".

De acordo com ela, igualmente importante para Kerry é evitar o uso de palavras difíceis, como "panóplia", durante o debate. "As palavras encontradas em uma prova de vestibular não devem constar dos discursos dos candidatos", adverte. Especialistas identificam fatores que podem pesar nos debates Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    11h09

    0,29
    3,232
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h16

    -0,17
    74.362,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host