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27/09/2004

Reality shows exploram crianças e adolescentes

The New York Times
Julie Salamon

Em Medford, NY
No bairro de Frankie Evangelista, em Long Island, é perfeitamente normal em uma noite de verão ver crianças jogando bola ou aprendendo a andar de bicicleta. Frankie, de oito anos, também faz essas coisas. No entanto, enquanto toma parte nos prazeres e vergonhas da infância, em geral é acompanhado por uma equipe de televisão - e isso acontece há mais de um ano.

Ele não é ator, mas aparece em rede nacional de televisão, na nova série de realidade da HBO chamada "Family Bonds" (laços de família, aos domingos, 21h). Os telespectadores observam os momentos mais íntimos da família: Frankie chorando ao tentar aprender a andar de bicicleta, sua mãe falando sobre quantas vezes por noite faz sexo com seu pai e sua irmã mais velha dando à luz, incluindo uma cena do neném saindo da vagina.

"Só sei que vou ser famoso", disse Frankie em entrevista, sentado no gramado em frente a sua casa, a poucas semanas da estréia do programa. Ele pareceu indiferente à câmera que gravava enquanto falava, com o homem do som ao seu lado e o fotógrafo do jornal tirando fotografias de toda a cena. Ele passou a impressão de que ser um personagem em sua própria vida era uma forma de ser perfeitamente normal.

Frankie, de fato, é apenas um de dezenas de novos astros da televisão de realidade infantil. Antes, o gênero apresentava principalmente adultos - que presumivelmente compreendiam melhor as consequências de compartilhar suas loucuras, romances e crises com um público de milhões. Mas, nesta temporada, a televisão de realidade está se voltando para os jovens.

No programa de verão da Fox "Trading Spouses" e no "Wife Swap", da ABC, as crianças são sujeitas a experimentos em que suas mães se ausentam por várias semanas para conviver com outras famílias, enquanto elas têm que se ajustar a uma nova mãe temporária. A MTV vai apresentar "Laguna Beach", que mostrará as dificuldades e tribulações de adolescentes ricos e atraentes no condado Orange. Em dezembro, o canal N, irmão da MTV para um público mais jovem, vai mostrar "Best Friend's Date", que mostra encontros românticos entre adolescentes e "Girls vs. Boys: Montana", uma espécie de "Survivor" de jovens.

"É indecente? Não sei. Provavelmente. Mas o tema do momento são pessoas de verdade e Frankie até agora não parece ter sido grande vítima. Judy Garland teve muito mais problemas", disse Sheila Nevins, presidente da divisão de documentários da HBO.

Quando indagados sobre os perigos da participação em programas de realidade, vários profissionais da saúde se concentraram no envolvimento dos pais. Afinal, nenhum menor de idade pode aparecer nesses programas sem o consentimento dos pais e, em muitos casos, a participação das crianças é idéia dos responsáveis.

"O problema para as crianças não é tanto o fato de aparecer na TV, mas vir de famílias que concordam em ser manipuladas dessa forma", disse Margaret Crastonpol, psicanalista em Seattle que recentemente assistiu "Trading Spouses". Mas Elaine Heffner, psicoterapeuta de Nova York com especialização em desenvolvimento infantil, recusou-se a condenar os pais que inscrevem seus filhos em programas de realidade. "Acho que há certa arrogância em dizer a um pai 'Que audácia deixar seus filhos participarem dessa série em que você concordou em fazer parte'", disse Heffner. "Eu, pessoalmente, não gostaria de expor meus filhos a isso, mas não é da conta de ninguém, a não ser que os menores sejam realmente expostos a abusos."

Lynn Bradley é uma das mães do programa de domingo a noite da ABC "Wife Swap". Mulher modesta, motorista de ônibus escolar que corta lenha em uma zona rural de Nova Jersey, ela troca de lugar com uma dona de casa abastada de Manhattan, que faz compras enquanto as babás cuidam de seus filhos. Ela e seu marido se envolveram no programa quando responderam a um anúncio no jornal local, disse ela.

Por que concordou que sua família, inclusive suas filhas de 12 e 13 anos, participassem? "Principalmente porque todos íamos participar como família", disse ela. "Fomos avaliados por um psiquiatra para ter certeza de que as crianças agüentariam."

As redes que transmitem esses programas parecem compreender que estão em território ético arriscado. "Ficaria envergonhada em admitir quantas horas passamos discutindo a segurança", disse Sarah Tomassi Lindman, vice-presidente de programação e produção da N, que está apresentando os programas de encontros românticos de adolescentes e o tipo "Survivor".

Estranhamente, o responsável pelas relações públicas do programa "Trading Spouses", da Fox, não deixou que as crianças envolvidas no programa fossem entrevistadas pela repórter do jornal, apesar de sua rede estar colocando as mesmas crianças em televisão nacional. "Temos cuidados em relação às crianças", explicou em mensagem eletrônica.

Dado o desejo insaciável por novos personagens de programas de realidade, provavelmente era inevitável a introdução de crianças ao gênero. "O cerne das séries cômicas americanas é a família", disse Stephen Lambert, produtor executivo de "Wife Swap". "A televisão de realidade está substituindo muitas séries tradicionais" como o novo instrumento de televisão para exploração e fantasia sobre como as famílias operam.

Como quase tudo na televisão, também não é novidade. A televisão pública rompeu essa barreira em 1973, com "An American Family", a novela de vida real de 12 episódios sobre a família Loud, de Santa Bárbara, Califórnia. Durante a série, o pai descobriu a homossexualidade do filho, e a mãe decidiu pedir divórcio.

A notoriedade atingida pela família Loud dificilmente será superada pelos personagens de hoje, simplesmente porque os Loud se expuseram muito antes de isso se tornar uma prática relativamente comum. E também porque os programas de realidade hoje são mais leves, com poucas pretensões sociológicas. "Isso é muito mais leve", disse Steven Cantor, 35, produtor de "Family Bonds". "É entretenimento com apelo comercial."

Para recrutar participantes de "Girls vs. Boys", a N fez uma campanha nacional por três meses, disse Lindman, executivo de programação. "Tínhamos centenas e centenas de jovens em cada localidade, alguns dos quais conheciam o canal e outros que apenas viram o panfleto no shopping que dizia: 'Hei, quer aparecer na televisão?'"

Mas ser escolhido para participar não é tão simples quanto parece. A câmera não ama a maior parte das pessoas. Os produtores procuram nos candidatos aos reality shows o mesmo tipo de qualidade que busca em atores: a capacidade de projetar alegria e ansiedade de uma forma que faça as pessoas reagirem. "Frankie é muito mais fotogênico e carismático do que seus amigos", disse Cantor, produtor de "Family Bonds".

Participantes de programas de realidade menores de idade parecem completamente indiferentes à exposição a que se submeteram; de fato, dizem que gostaram profundamente de suas experiências. Laura Bradley, 13, filha de Lynn, disse que sentiu uma onda de prazer quando as câmeras invadiram sua casa em Nova Jersey, por 10 dias. "Eles dizem que uma vez que você está na frente da câmera você se vicia, e acho que é verdade", disse ela. "Gosto da sensação da câmera ali o tempo todo e não me importo com o fato de as pessoas me verem na televisão".

Frankie Evangelista acha a coisa toda preferível a ser ator, "porque você não tem que decorar o roteiro", disse ele (para se acomodar aos horários das crianças, algumas redes fazem os programas durante as férias de verão ou de inverno). Mesmo assim, em uma entrevista posterior, ele expressou o desejo de começar a trabalhar como ator em séries de ficção - de preferência em "Full House" (um programa que repetindo há quase 10 anos).

A mãe de Frankie, Flo Evangelista, foi a única da família que relutou em participar do programa. Loura voluptuosa que foi entrevistada vestindo uma camiseta preta curta com as palavras "Von Bitch" no peito, Evangelista diz que capitulou porque seu marido, Tom, fiador, a convenceu de que a série seria boa para os negócios da família.

Hoje ela diz ter aceitado a exposição. "Essa é nossa vida", disse ela. "A única diferença é que alguém a está filmando e irá ao ar. Nós achamos que não temos nada a esconder". Como se quisesse provar seu ponto, no canto da sala em que estava sendo entrevistada havia uma privada e um chuveiro à vista, sem porta ou cortina.

Evangelista disse que ficou preocupada quando viu a facilidade com que Frankie participou de uma conferência de imprensa, na excursão de publicidade da HBO no verão em Los Angeles. "Não quero que isso suba à sua cabeça e que ele se torne um garoto arrogante", disse. "E as crianças são cruéis. Não quero que impliquem com ele."

De fato, dois dias depois de "Family Bonds" ir ao ar, Frankie contou que uma criança na escola tinha implicado com ele, dizendo que, apesar de aparecer na televisão, Frankie ainda continuava desconhecido. "Senti que as crianças na escola tinham inveja", disse ele.

Essa preocupação foi repetida por Cantor, que ficou ligado à família; ele e sua equipe jantam com os personagens de três a quatro vezes por semana. "Tentamos não usar nada que possa envergonhá-lo", disse ele.

Cantor começou sua carreira como documentarista, mas, como muitos de seus colegas, acabou no ramo do reality show (ele é um dos produtores de "Amish in the City", da UPN).

Seu primeiro filme, um documentário curto indicado para um Oscar, foi "Blood Ties: The Life and Work of Sally Mann", sobre a fotógrafa controversa. Mann é conhecida por tirar fotografias chocantemente reveladoras de seus próprios filhos, retratos que geraram preocupação sobre os efeitos de tal exposição sobre as crianças. Cantor disse que as fotos de Mann, muitas das quais mostravam seus filhos nus, eram muito mais invasivas que seu programa. "Sally jogou essa coisa de inocência infantil aos lobos", disse ele.

Mesmo assim, talvez por ter se tornado pai no ano passado, Cantor diz que tem tentado proteger Frankie. "Se ele chora por pouca coisa, não quero que as pessoas pensem que é maricas. Se ele não tivesse aprendido a andar de bicicleta depois de chorar, não teríamos usado o material. Se isso tornar as coisas menos reais, tudo bem."

Enquanto parentes entravam e saíam dessa casa de família movimentada, Frankie discutia como era ver sua vida se desenrolar em "Family Bonds", que assistiu com uma grande platéia em uma apresentação da HBO.

"Achei engraçado quando chorei", disse ele.

Como se sentiu quando ouviu sua mãe falando de sexo na televisão?

"Fechei os ouvidos", disse ele.

Ficou com vergonha?

"Como vou saber?" respondeu. "Estava com os ouvidos fechados."

Há algo que gostaria que não tivesse saído na televisão?

Ele olhou para Cantor, que estava sentado ali perto, e sorriu. "Espero que tudo que você filmou apareça na televisão." TV se volta aos mais novos, que podem reagir mal ao programa Deborah Weinberg

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