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28/09/2004

Bush só faz comício para eleitores de carteirinha

The New York Times
David M. Halfbinger

Em Nova York
Quer ver o presidente Bush quando ele vier a sua cidade? Entre na fila --para fazer chamadas telefônicas para sua campanha.

Os assessores do presidente George W. Bush dizem que encontraram uma nova forma de recrutar voluntários para seu exército em busca de votos. Qualquer um que queria participar dos comícios de Bush, em qualquer lugar do país, primeiro tem que pegar um convite. Quem quiser um ingresso ou um lugar na frente pode aumentar suas chances se dedicar algumas horas de serviço fazendo chamadas telefônicas para números de um banco de dados, distribuindo propaganda em lares Republicanos ou colocando cartazes no jardim.

Talvez a prática de comícios seja tão antiga quanto a própria política, mas neste ano de recordes de custos e velocidade, a campanha de Bush levou essa forma básica de comunicação a um novo estado de arte e pressiona o público a trabalhar como cabo eleitoral antes, durante e após os eventos de Bush.

A tática aponta uma clara diferença entre campanhas presidenciais: enquanto o senador John Kerry está usando seus comícios e sessões em prefeituras para tentar atingir eleitores indecisos e Democratas hesitantes, Bush está lotando suas platéias com partidários e formando brigadas prontas para patrulhar distritos críticos e levar todos eleitores às urnas.

Os assessores de Kerry riem dos comícios fechados, só para convidados, e do que chamam de seqüestro de voluntários. "Não pedimos voto de fidelidade e não tornamos as pessoas cativas", disse Tom Shea, diretor da campanha de Kerry na Flórida. Ele conseguiu atrair quase 10.000 pessoas para um comício em Orlando, no dia 21 de setembro, em que 700 se candidataram a ajudar, disse ele.

Mas Donald P. Green, professor de ciências políticas em Yale e autor de "Get Out the Vote! How to Increase Voter Turnout" (Consiga o voto! Como aumentar a quantidade de votantes) disse que a estratégia de Bush era inspirada.

"Há um princípio básico em psicologia experimental: a mão ensina o coração", disse Green. "Depois que a pessoa faz telefonemas para George Bush, ela solidifica seu compromisso com a campanha. Se antes não era entusiasmada, pode passar a ser."

Em um comício em Bangor, Maine, na quinta-feira (23/09), Katrina Waite dirigiu quase duas horas e esperou outras sete sob um sol escaldante para ver o presidente. Sua recompensa por chegar cedo? Um lugar bem distante, em cima de um caminhão, onde bebia copos de água trazidos por seus dois filhos.

Waite disse que sua mãe tinha conseguido um lugar na frente. "Ela fez três horas de telefonemas para isso", disse ela, tentando ver sua mãe na multidão.

Bush gosta de chamar sua política de "fertilização das raízes". De fato, o recrutamento de voluntários pode criar uma espécie de efeito estufa.

Por exemplo, quando a primeira dama Laura Bush foi ao Maine, há poucas semanas, muitas pessoas foram persuadidas a ficar algumas horas a mais e fazer telefonemas de um banco de telefones, no porão do prédio onde ela discursou.

E quando George W. Bush concluiu um evento de uma hora de "Pergunte ao Presidente Bush", em Hudson, Wisconsin, há pouco tempo, as 1.500 pessoas que participaram, enquanto se dirigiam para a saída, foram primeiramente levadas para uma tenda gigante, montada com mesas, cadeiras e telefones. Ali, foram estimuladas a fazer telefonemas por algumas horas.

"Nesta campanha, tiramos vantagem de todas as oportunidades para engajar as pessoas", disse Randy Bumps, diretor da campanha no Maine.

O comitê começou a engajar recrutas potenciais logo que o comício de Bangor foi marcado, uma semana antes. Quem quisesse ingresso precisava se inscrever, preenchendo formulários com seu endereço físico e eletrônico, números de telefone, CPF e grau de disponibilidade para trabalho voluntário. Havia também uma pergunta se defendiam o presidente.

Os partidários foram estimulados a fazer ligações para a campanha com promessas de lugares mais próximos ao presidente, de acordo com muitos na multidão que foram recompensados com os disputados ingressos azuis. (Ingressos vermelhos significavam ficar na ponta dos pés).

Bumps disse que a "animação" gerada pela visita do presidente significava que a campanha, pela primeira vez, atingia sua meta semanal de 20.000 telefonemas para moradores do Estado --até quarta-feira, dois dias mais cedo.

Questionado se os oponentes de Bush eram bem-vindos, Reed Dickens, porta-voz nacional da campanha, disse que a política era premiar os partidários mais dedicados, alocando um "número limitado" de convites.

Mesmo assim, não é raro sobrar espaço em comícios de Bush. Somente 4.000 das 9.400 pessoas que receberam ingressos para o evento de Bangor apareceram. (Bumps insistiu que os eleitores indecisos eram bem-vindos. Se havia algum no comício, conseguiu fingir seu entusiasmo por Bush).

A política de ingressos foi aplicada por alguns organizadores locais com excesso de zelo, segundo a equipe de campanha de Bush. Pelo país afora, houve ocasiões em que os participantes dos comícios tiveram que assinar compromissos de apoio para receber os bilhetes.

E Kerry, em seus eventos, começou a ridicularizar a política de Bush. "Ninguém aqui teve que assinar um voto de lealdade para entrar, certo?" disse ele em Jacksonville, Flórida, no dia 21 de setembro.

Protestos

Outro resultado é o jogo de gato e rato com os que querem provocar Bush. Com raras exceções, como a mãe de um soldado morto no Iraque que interrompeu Laura Bush em Nova Jersey, poucos passaram pelo processo de seleção. Mas em Bangor, ao menos uma dúzia de agitadores entraram no comício, o que Bumps atribuiu ao fato de ser a primeira parada do presidente na campanha em Maine.

Um dos que protestavam, Michael Thorne, 51, disse que tinha vindo em parte por raiva por Bush ter fechado seus comícios ao público. "Ele também é meu presidente", disse ele.

Isso foi depois de Thorne ter gritado "Chega de mentiras!" durante o discurso de Bush. Ele foi rapidamente cercado por meia dúzia de assessores de campanha que gritavam apaixonadamente "Mais quatro anos!" e levado para fora do comício, com vários outros que vestiam camisetas contra Bush, por seguranças e policiais. Bush, em seu discurso, não fez observações sobre o tumulto.

A campanha de Kerry, consciente de que ele ainda tem que convencer alguns Democratas e eleitores indecisos, abriu seus comícios ao público. No evento de Orlando, por exemplo, milhares de ingressos foram doados a grupos de eleitores, como membros de partidos trabalhistas e empresas ambientalistas, mas a apresentação de ingresso não era obrigatória. Milhares de outras pessoas apareceram para o evento, depois de ter sido anunciado em estações de rádio locais no dia anterior.

Os assessores de Kerry expressaram surpresa com a concentração do comitê de Bush em Republicanos assumidos, aparentemente à custa de eleitores indecisos. Eles disseram que a campanha de Kerry estava cortejando tanto os Democratas dedicados quanto os eleitores em cima do muro.

"É como ir à Disney World, mas ao invés de personagens das histórias em quadrinho dizendo a altura que você tem que ter para usar o brinquedo, eles têm um retrato de Rush Limbaugh dizendo que você tem que ser de direita para entrar", disse Shea.

No entanto, os assessores de Bush dizem que caçar eleitores indecisos pode ser perda de tempo. "Acreditamos que o número de indecisos ou independentes será menor do que nunca", disse Dickens, porta-voz da campanha.

Sim, o comitê de Bush pode estar enchendo sua platéia com partidários convictos. No entanto, isso se passa em distritos indefinidos, onde cada voluntário entusiasmado pode fazer a diferença, disse ele.

Mesmo o público leal tem seus limites, entretanto. Christian Morris, 23, da equipe de Bush, recebeu vários nãos enquanto se misturava com a multidão em Bangor para inscrever voluntários. Finalmente, Janelle Vigue, 17, aproximou-se dela e ofereceu-se.

Vigue disse que tinha razões particulares para querer ter um vislumbre do processo político: "Quero concorrer à presidência, um dia", disse ela. Quem quer assento para ver o presidente de perto deve telefonar Deborah Weinberg

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