UOL Notícias Internacional
 

28/09/2004

FBI admite não entender a comunicação terrorista

The New York Times
Eric Lichtblau

Em Washington
Três anos depois dos ataques terroristas de 11 de setembro, mais de 120 mil horas de gravações potencialmente valiosas relacionadas ao terrorismo ainda não foram traduzidas pelos lingüistas no FBI, e problemas de computador podem ter levado o birô a apagar sistematicamente algumas gravações da Al Qaeda, segundo um sumário de uma investigação do Departamento de Justiça, que foi liberado e divulgado nesta segunda-feira (27/09).

Divulgado em versão editada, o relatório de Glenn A. Fine, o inspetor-geral do Departamento de Justiça, revelou que o FBI ainda não conta com capacidade para traduzir todo o material relacionado ao terrorismo obtido com escutas e outras fontes de inteligência, e que o afluxo de novo material excede os recursos do birô.

Ampliar a capacidade de tradução tem sido uma alta prioridade para o governo Bush e sua campanha contra o terrorismo. Mensagens da Al Qaeda dizendo: "Amanhã é a hora zero" e "O jogo está prestes a começar", foram interceptadas pela Agência de Segurança Nacional em 10 de setembro de 2001, mas só foram traduzidas dias depois, ressaltando a urgência do problema.

O relatório do inspetor-geral sobre o FBI, a principal agência para combate doméstico ao terrorismo, disse que o birô enfrenta "desafios administrativos significativos" para fornecer traduções rápidas e precisas.

O relatório ofereceu a avaliação mais abrangente até o momento dos problemas persistentes do FBI para decifrar centenas de milhares de telefonemas, conversas, e-mails, documentos e outros materiais interceptados, que podem incluir informação sobre planos terroristas e assuntos de inteligência estrangeira.

Ele revela problemas não apenas na tradução rápida de material, mas também na priorização do trabalho e em assegurar que os centenas de lingüistas recém-contratados estejam fornecendo traduções precisas. Apesar dos lingüistas terem que supostamente se submeter a avaliações periódicas de competência segundo a política do FBI, tal exigência foi freqüentemente ignorada no ano passado, revelou o inspetor-geral no sumário recém divulgado de sua investigação. Grande parte do relatório continua confidencial.

Autoridades do Congresso, que foram informadas recentemente pelo FBI sobre o problema da tradução, disseram que o relatório oferece uma avaliação ainda mais sombria do que a reconhecida pelo próprio birô, e os principais senadores de ambos os partidos condenaram o que descreveram como uma demora para resolver o problema.

"De que vale gravar milhares de horas de conversas de alvos de inteligência em língua estrangeira se não temos como traduzi-las prontamente, com segurança, precisão e eficiência?" perguntou o senador Patrick J. Leahy do Estado de Vermont, o líder da bancada democrata no comitê judiciário. "O problema da tradução no Departamento de Justiça se tornou crônico e tem implicações óbvias para nossa segurança nacional."

O FBI, em resposta ao relatório, disse nesta segunda-feira que tomou "medidas substanciais para fortalecer nossas capacidades de línguas", mas reconheceu que uma escassez de lingüistas qualificados e problemas nos sistemas de computador do birô levaram a um atraso na tradução de material terrorista.

Robert S. Mueller III, diretor do FBI, disse concordar que "mais precisa ser feito em nosso programa de serviços de línguas". Ele acrescentou: "Nós estamos dando a mais alta prioridade a este esforço".

Inépcia

Com cerca de US$ 48 milhões em recursos adicionais desde os ataques de 11 de setembro, o número de lingüistas no FBI aumentou de 883, em 2001, para 1.214, em abril de 2004, com aumentos acentuados no número de tradutores de árabe, farsi e outras línguas consideradas fundamentais nas investigações de contraterrorismo. Mas o relatório de Fine deixou claro que a expansão não eliminou os problemas de administração e eficiência que atrapalharam o birô antes de 11 de setembro.

A investigação atribuiu parte da culpa ao sistema de computador do FBI, há muito tempo criticado pelos congressistas como antiquado e desajeitado. A investigação revelou que as baixas capacidades de armazenamento no sistema fizeram com que gravações de áudio mais antigas às vezes fossem apagadas automaticamente para abrir espaço para material mais recente, apesar delas ainda não terem sido traduzidas pelos lingüistas do birô.

Nos testes de campo conduzidos pelo inspetor-geral em oito escritórios do FBI, três escritórios "possuíam sessões da Al Qaeda que potencialmente foram apagadas pelo sistema antes que lingüistas as analisassem", disse o relatório.

Um funcionário do FBI, falando sob a condição de anonimato, disse que os funcionários tiveram que procurar pelas gravações originais da Al Qaeda e em algumas ocasiões restaurá-las, após perceberem que cópias foram apagadas inadvertidamente devido à problemas de capacidade.

Mas o relatório do inspetor-geral disse que os lingüistas podem não ter percebido que material foi apagado a menos que um agente do caso perceba a falta de material na tradução final. Além disso, o relatório revelou que o FBI fracassou em instituir os controles necessários "para prevenir que material chave de áudio seja automaticamente apagado".

Gravações de áudio ligadas às investigações da Al Qaeda devem ser analisadas em um prazo de 12 horas após a interceptação, segundo a política do FBI. Mas o relatório revelou que o prazo não foi cumprido em 36% dos quase 900 casos analisados pelo inspetor-geral. Em 50 casos da Al Qaeda, foi necessário pelo menos um mês para que o FBI traduzisse o material.

O birô "não priorizou nacionalmente sua carga de trabalho para assegurar atraso zero nos casos mais prioritários do FBI -casos de contraterrorismo e, em particular, casos da Al Qaeda", revelou o relatório.

Problemas de computador e a escassez de lingüistas qualificados agravaram o atraso na tradução de material, revelou o relatório.

Nos casos de contraterrorismo, mais de 123 mil horas de gravações de áudio em línguas normalmente associadas ao terrorismo não foram traduzidas desde os ataques de 11 de setembro, o que representa 20% do total de material, revelou o relatório.

Somando todas as línguas, quase meio milhão de horas de gravações de áudio, ou 30% do material coletado, não foram analisadas, disse o relatório. Os dados refletem material obtido com mandados de vigilância de inteligência estrangeira em operações dentro dos Estados Unidos.

Vários legisladores que têm pressionado por melhorias na capacidade de tradução do FBI disseram que o relatório reforça sua preocupação de que o birô foi conduzido na direção errada.

"Desde que terroristas atacaram os Estados Unidos em 11 de setembro, o FBI tem tentado assegurar ao Congresso e ao público que seu programa de tradução está no caminho certo", disse o senador Charles E. Grassley, republicano de Iowa. "Infelizmente, este relatório mostra que o FBI ainda está afogado em informação sobre atividades terroristas, com centenas de milhares de horas de áudio ainda aguardando para serem traduzidas."

Grassley também pediu ao inspetor-geral a divulgação de uma versão pública de um relatório interno sobre o caso de uma ex-lingüista do FBI, Sibel Edmonds, que se queixou de inépcia e possível espionagem no programa de tradução. Uma versão ainda confidencial do relatório revelou que as queixas dela influíram na decisão do FBI de demiti-la em 2002, disseram as autoridades. Apesar da guerra ao terror, polícia federal dos EUA não lê em árabe George El Khouri Andolfato

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