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28/09/2004

Mostras exploram o lado egoísta de Salvador Dali

The New York Times
Alan Riding

Veneza, Itália
Tendo se proclamado um gênio quando tinha pouco mais de 20 anos, Salvador Dali continuou a promover essa idéia com uma convicção tão incansável que o egoísta acabou por eclipsar o artista. Quando morreu, em 1989, deixando centenas de folhas de papel assinadas para estimular uma indústria de trabalhos falsificados de Dali, muitos integrantes do mundo da arte haviam se voltado contra ele.

Mas Dali jamais perdeu o seu apelo popular. Expulso do movimento surrealista em 1939, ele continuou sendo o surrealista mais conhecido. E mesmo após o expressionismo abstrato e a arte pop suplantarem o surrealismo, uma grande retrospectiva de Dali, em Paris, em 1979, ainda atraiu 800 mil visitantes. Hoje, entre os artistas do século 20, a sua fama provavelmente só é superada pela de Picasso.

Assim, não é de se surpreender que o centenário do seu nascimento tenha gerado tantas exposições na sua nativa Catalunha e em outras partes da Espanha, Europa e Estados Unidos. Entre elas, duas se destacam. Apoiadas pela Fundação Gala-Salvador Dali, elas procuram estimular uma reavaliação da sua obra.

"Dali e a Cultura de Massa", que avalia o seu impacto sobre a linguagem visual atual, foi mostrado na Espanha --em Barcelona nesta primavera e em Madri neste verão-- e estará no Museu Salvador Dali em Saint Petersburg, Flórida, de 1º de outubro a 30 de janeiro. E "Dali", que enfatiza as suas pinturas, fica no Palazzo Grassi, em Veneza, até 16 de janeiro, e será apresentada no Museu de Arte de Filadélfia de 16 de fevereiro a 15 de maio.

Juntas, essas duas exposições ressaltam Dali não só como um artista de talentos múltiplos (pintor, desenhista, escultor, tipógrafo, cineasta, desenhista de cenários, fotógrafo e escritor), mas também como uma personalidade mais complexa do que é sugerido pelo seu exibicionismo sem fim.

De fato, um dos objetivos da exposição de Veneza, segundo a sua curadora britânica, a especialista em surrealismo Dawn Ades, é procurar um Dali "real" por trás das "máscaras públicas" e identidades místicas que ele construiu.

E talvez mais radicalmente, ambas as mostras também contestam a idéia muito aceita de que, tendo feito trabalhos poderosamente originais entre 1927 e 1939, Dali se rendeu ao mercantilismo e ao kitsch. Conforme Ades observa em um ensaio incluído em um catálogo, o seu trabalho pós-1939 é freqüentemente apresentado como pertencente à fase do "Dali velho", ainda que em 1939 ele tivesse apenas 35 anos e contasse com mais 44 anos de trabalho pela frente. Para ela, o Dali pós-1939 merece atenção.

Como nova forma de mudar o foco, ela organizou a exposição de Veneza cronologicamente, retrocedendo no tempo. Ao começar com "A Cauda da Andorinha", terminada em 1983 e tida como a última pintura de Dali, e concluir com "Auto-Retrato no Estúdio", pintado em 1919, quando Dali tinha 15 anos, a exposição ressalta a fascinação tardia de Dali pela física atômica; a devoção à mulher e musa russa, Gala; e a sua nova religiosidade.

Ades diz que a cronologia reversa foi inicialmente favorecida porque vários trabalhos mais recentes eram muito grandes para o terceiro andar do palazzo. "Foi uma experiência, mas sinto que ela funcionou muito bem", explica.

"A exposição faz com que as pessoas prestem atenção ao trabalho da maturidade do artista e enfatiza o contraste com o foco extraordinário e a obsessão característicos das primeiras obras surrealistas".

Dito isto, 1939 continua sendo um divisor de águas.

Dali emergiu como uma figura central do surrealismo no final dos anos 20. Assim como outros surrealistas, ele foi enormemente influenciado por Freud, e foi por meio do prisma freudiano que interpretou o papel central da sexualidade em sonhos e no comportamento humano, assim como o seu relacionamento com o pai autoritário e a mãe distante.

Disso surgiu aquilo que ele chamava de seu "método paranóico crítico" de ver o mundo, criado para celebrar o irracional. Ele aplicou esse método ao filme "O Cão Andaluz", dirigido por Luiz Buñuel, e à escultura, como foi o caso com "O Telefone-Lagosta".

Mas o método é mais aparente em trabalhos monumentais (entre os 200 da exposição em Veneza), como "O Grande Masturbador", "O Enigma do Desejo", e, talvez, o mais famoso, de 1931, "A Persistência da Memória", com os seus relógios "moles" inspirados por queijo camembert.

O seu sucesso instantâneo fez dele um discípulo menos que obediente do líder surrealista Andre Breton. Foi ele, e não Breton, que levou o surrealismo aos Estados Unidos em meados da década de 30 (Dali foi capa da revista "Time" em 1936).

Ele foi o primeiro do grupo a enriquecer com suas pinturas. E ele se recusou a entrar para o Partido Comunista Francês. A sua expulsão do movimento surrealista, que teria ocorrido por motivos políticos, se tornou inevitável.

Após a Alemanha ocupar a França em 1940, tanto Dali quanto Breton escaparam para Nova York. Mas enquanto Breton continuou sendo um estrangeiro distanciado da nova realidade, Dali tirou proveito da sua imensa popularidade, interessando-se pela indústria de entretenimento e vendendo seus trabalhos e imagens com lucro enorme (foi nessa época que Breton lhe colocou o apelido de "Avida Dollars", ou ávido por dólares, um anagrama do seu nome). Ele não necessitava mais do surrealismo. Agora, ele era simplesmente Dali.

A sua versatilidade e o seu instinto comercial se sentiram em casa nos Estados Unidos. Lá, conforme é ilustrado em "Dali e a Cultura de Massa", ele trabalhou com Alfred Hitchcock e os Estúdios Walt Disney, pintou capas para as revistas "Vogue" e "Town & Country", desenhou gravatas e vestidos, e chegou a criar imagens de propaganda.

Na pintura, o seu rompimento com o surrealismo o levou, segundo as suas palavras, a "se tornar clássico". O surrealismo continuou presente em alguns trabalhos, mas a partir do final da década de 40, ele manifestou novo interesse pela desintegração da matéria e, o mais surpreendente, pela religião, temas aglutinados na sua pintura de 1952, "Cruz Nuclear".

Apelando, como era comum, para uma hipérbole, ele anunciou: "Na realidade, não estou nem um pouco interessado em pintura e literatura. Estou interessado exclusivamente em cibernética, física e biologia". Mas ele ainda voltou a usar a pintura para interpretar a física, como em "Cabeça Rafaelesca Explodindo" e "A Desintegração da Persistência da Memória", na qual refez a sua obra-prima de 1931.

A partir dos anos 50, ele pintou numerosos crucifixos em um estilo clássico, incluindo "Crucificação (Corpus Hypercubus)", em que Gala representa Maria Madalena ao pé da cruz. Gala foi também seu modelo para "A Madona de Port Lligat" e para "Ascensão", onde ela paira sobre uma reduzida figura de Jesus.

Embora a sua reaproximação com a religião pareça quase ter sido maquinada para irritar os seus críticos esquerdistas na Europa, Dali deu a eles motivos maiores para se sentirem indignados. Após voltar a se estabelecer na Catalunha no final dos anos 40, ele passou a apoiar o regime de Franco.

Depois, ao inundar o mercado com os seus trabalhos (alguns dizem que isso aconteceu devido à influência de Gala), ele pareceu mais do que nunca ser um "Avida Dollars". O "velho" Dali também está presente em Veneza em uma pequena exposição de fotografias tiradas por Tony Keeler, enquanto o artista vivia na cidade catalã de Cadaques, de 1963 a 1978. Essa exposição, vista anteriormente em Sitges, na Catalunha, e agora na Galleria Del Leone Venezia, mostra Dali como o ator perene, que não poderia estar mais consciente da presença de uma câmera.

"Dali", no Palazzo Grassi, é uma exposição mais complacente. Ela vai além do exibicionismo, cupidez e política para revelar a essência da sua arte. Olhar de perto as suas pinturas a óleo é enxergar um mestre-pintor. E estudar as imagens que ele usa, conforme diz Ades, é perscrutar "os mistérios da mente, do desejo, da morte, do espaço e do tempo". Quinze anos após a sua morte, talvez se possa dizer que Dali finalmente sobreviveu a Dali. Pintor chegou a apoiar a igreja e a ditadura de Franco, na Espanha Danilo Fonseca

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