UOL Notícias Internacional
 

28/09/2004

Pesquisadores investigam a eficiência do placebo

The New York Times
Denise Grady

Em Nova York
A maior parte das pessoas conhece o efeito placebo, no qual pacientes que recebem comprimidos de açúcar apresentam melhora porque acreditam que estão tomando remédio. Mas poucos gostariam de receber um placebo: quem pede um analgésico quer a coisa de verdade.

Os médicos, ao menos oficialmente, não aprovam a prática de receitar placebos, porque isso, em geral, envolve mentiras, implica desrespeito e pode destruir a confiança na classe. Alguns hospitais proíbem placebos, a não ser em experimentos que depois revelam aos pacientes que receberam pílulas ou injeções inertes.

Uma nova pesquisa, entretanto, sugere que a profissão talvez nem sempre pratique o que prega. De 89 médicos e enfermeiras entrevistados em Israel, 60% disseram que tinham receitado placebos. Muitos disseram que às vezes funcionava, e mais de um terço disse que os receitava no mínimo uma vez por mês.

Entre os pacientes que recebem o remédio falso estão mulheres em trabalho de parto e pessoas sofrendo de dor, ansiedade, agitação, vertigem, distúrbios de sono, asma e síndrome de abstenção de drogas. A maior parte não sabia que estava recebendo um placebo. Entre os profissionais que receitaram as pílulas inertes, 68% disseram aos pacientes que estavam recebendo um remédio, 17% não disseram nada, 11% que o remédio não era "específico" e 4%, a verdade.

Quando perguntados por que receitavam placebos, 43% disseram que os pacientes fizeram pedidos "injustificados" por remédios; 28% queriam testar se os sintomas dos pacientes eram verdadeiros ou imaginários; 15% esperavam adiar a próxima dose de remédio de verdade e 11% disseram que sua razão era "fazer o paciente parar de reclamar".

Os médicos que conduziram a pesquisa disseram que não esperavam que mais de 10% dos profissionais entrevistados tivessem usado placebos.

"Aparentemente, essa é uma prática comum", disse Pesach Lichtenberg, psiquiatra do Hospital Herzog em Jerusalém.

Ele conduziu a pesquisa com Uriel Nitzan em dois grandes hospitais e várias clínicas comunitárias na área de Jerusalém. Seu relatório foi publicado on-line no dia 17 de setembro, pela revista médica britânica BMJ (www.bmj.com).

A noção do efeito placebo existe pelo menos desde os tempos de Hipócrates, que observou que certas pessoas gravemente doentes pareciam recuperar-se por puro "contentamento" com seus médicos. Acreditando que a mente podia curar o corpo, os clínicos posteriores algumas vezes tentaram fomentar esse efeito dando pós ou pílulas inertes para doentes que não podiam ajudar de outra forma.

Hoje, alguns pesquisadores estão estudando o efeito placebo, enquanto outros duvidam até que exista. Em entrevista telefônica, Lichtenberg disse que achava que o efeito placebo era real, e que podia ajudar alguns pacientes com mais segurança que muitas drogas.

"Acho que o placebo tem um lugar legítimo no tratamento médico", disse ele, mas acrescentou que era errado mentir aos pacientes.

"Há certas questões éticas", disse ele. "Você diz a um paciente: 'Estou lhe passando um antibiótico ou um analgésico', quando não está? Ou diz: 'Você receberá um agente que se provou eficaz em várias pesquisas, que vai ajudar você a se sentir melhor. Não sabemos exatamente como funciona, mas foi mostrado que causa mudanças nas imagens cerebrais, tem efeitos psicológicos no corpo e estamos confiantes que você sentirá alívio?' Diz algo assim?"

Experiência própria

Lichtenberg disse que se interessou pelo efeito placebo por ter sido ajudado por ele. Durante anos, sofreu de infecções na garganta, até que consultou um amigo que praticava medicina alternativa.

"Ele conversou comigo por cinco horas", disse Lichtenberg, lembrando-se que fez associações mentais livres em relação à garganta e descreveu como foi forçado a cantar quando era criança, para suas tias idosas. O amigo lhe disse que ele ia se sentir levemente doente, depois ia se recuperar. Foi exatamente o que aconteceu, disse Lichtenberg. A experiência convenceu-o de que havia algo no efeito placebo.

"As pessoas hoje em dia ficam surpresas que uma intervenção não farmacológica possa ser útil; eu acho que essa é a mensagem do efeito placebo. Existem outras formas de trazer conforto e socorro a um paciente que sofre."

Uma pesquisa entre médicos dinamarqueses publicada em 2003 também revelou que muitos deles receitavam placebos, mas Lichtenberg disse que não se sabia se os profissionais de outros países se comportavam da mesma forma que os israelenses e dinamarqueses.

Robert M. Wachter, chefe do serviço médico da Universidade da Califórnia em San Francisco, disse em mensagem eletrônica: "O uso de placebo no tratamento clínico é virtualmente desconhecido nos EUA. É considerado uma forma sutil de enganação --e cria um pequeno risco de processo judicial e questionamento ético".

Mas Wachter também disse que todo médico conhece o efeito, que é responsável por grande parte do alívio que as pessoas tiram de antidepressivos e de antibióticos tomados para infecções virais, que não são afetadas pela droga.

"'Tome isso, tenho certeza que vai se sentir melhor' --isso é uma manobra de placebo", disse Wachter. "Mas, nos EUA, seria acompanhada de remédio de verdade, não uma pílula de açúcar." Pílulas sem efeito contribuem para que pacientes se sintam melhor Deborah Weinberg

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