UOL Notícias Internacional
 

28/09/2004

Primeiro-ministro do Iraque é marionete de Bush

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYTimes
É realmente confortador.

O presidente tem agora a sua própria miniatura, alguém que faz eco a cada uma de suas palavras e imita as suas ações.

Durante muito tempo, Bush teve que aturar as caricaturas em que aparecia como um W. diminuto sentado ao colo do vice-presidente, enquanto o grande Dick Cheney dava as ordens. Mas agora o presidente arranjou uma marionete privada para brincar.

Durante toda a semana passada, em Nova York e Washington, o primeiro-ministro Ayad Allawi, do Iraque, papagaiou as alegações absurdas de Bush de que a luta no Iraque seria parte essencial da batalha dos Estados Unidos contra os terroristas, de que o sonho utópico dos neoconservadores de transformar o Iraque em uma democracia moderna estava indo muito bem, e de que quanto piores ficarem as coisas no país, melhores elas ficarão de fato.

É uma falha da mídia o fato dos dois homens gorjearem em um dueto tão perfeitamente harmônico que se fica perguntando se Karen Hughes escreveu o discurso de Allawi, por este não ter mencionado os milhões de indivíduos no Iraque que não estão sendo decapitados, seqüestrados, explodidos por homens-bomba ou pegos em meio ao fogo-cruzado de cada dia.

E é uma falha de John Kerry o fato de encorajar os insurgentes iraquianos ao expressar as suas dúvidas quanto ao nosso plano no Iraque, como já fez outrora no caso do Vietnã.

"Essas pessoas que duvidam se arriscam a subestimar o nosso país e a alimentar as esperanças dos terroristas", disse Allawi ao Congresso em um violento discurso anti-Kerry e favorável a Bush e Cheney, um complemento à alegação de Cheney de que um voto para John Kerry é um voto para um outro ataque terrorista aos Estados Unidos.

Assim como Cheney, Rummy e os neoconservadores transformaram W. em um corpo hospedeiro capaz de abrigar os seus antigos esquemas para derrubar Saddam Hussein, transformar as forças armadas e estabelecer uma doutrina preventiva para atacar aliados e inimigos que ameacem a supremacia da hiper-potência norte-americana, agora W. transformou Allawi em um corpo hospedeiro para a retórica panglossiana que ele crê que o conduzirá à reeleição. Toda vez que o governo dá um passo que, segundo ele, reduzirá a violência, a violência aumenta.

Bush não parece se importar com o fato de que, ao usar Allawi como marionete na sua campanha, faz com que, no Iraque, diminuam as chances de que o povo iraquiano deixe de acreditar que Allawi não passa de uma marionete de Bush, acabando assim com a única maneira de fazer com que o primeiro-ministro conquiste alguma credibilidade para estabilizar o seu país devastado e se eleger.

De fato, ser a marionete do presidente representa uma evolução para Allawi, que antes disso foi escudeiro de Saddam Hussein e informante da CIA.

É hilariante constatar que os republicanos apresentam Allawi como um analista objetivo da situação no Iraque, quando, como escolhido pela administração, demonstrou enorme talento para semear o caos no país.

Embora Allawi se apresente como o representante de todos os iraquianos, as suas ações foram planejadas para fazer com que a maior parte do país fique a mercê deste novo ditador --que tem o poder de declarar lei marcial, resgatar a pena de morte e expulsar a Al Jazeera.

Os assessores de Bush, que se dizem tão altruístas quanto a trazer a liberdade para o Iraque, na verdade encaram o país de uma maneira assustadoramente narcisista: tudo gira em torno da reeleição de Bush.

Conforme relatou o jornal "The Chicago Tribune", o vice-secretário de Estado Richard Armitage alegou que insurgentes iraquianos intensificaram os seus ataques sangrentos porque querem "influenciar negativamente a campanha do presidente Bush".

Em um recente evento para arrecadação de verbas para o Partido Republicano, o líder da Câmara Dennis Hastert alegou que os terroristas ficariam felizes com uma presidência Kerry.

"Não tenho informações de inteligência para garantir qualquer coisa, mas eu acharia que eles estão mais aptos a aprovar uma pessoa que entrasse com um processo no Tribunal Internacional, ao invés de responder com tropas".

Encarando o seu pesadelo, os utópicos estão redimensionando as suas grandes visões para o futuro glorioso do Iraque.

Rummy sugeriu na semana passada que uma democracia fragmentada poderia ser o suficiente. "Digamos que se tente fazer uma eleição, e que isso só seja possível em três quartos ou quatro quintos do país, ficando de fora alguns locais onde a violência é muito grande", disse ele em uma audiência no Congresso. "Na vida nada é perfeito".

Em uma declaração no Pentágono na última sexta-feira (24/09), Rummy também defendeu a idéia de Colin Powell, segundo a qual, se quebrarmos o Iraque, seremos donos do país.

"Creio que a idéia de que aquele lugar tenha que ser pacífico e perfeito antes de podermos reduzir o tamanho das forças norte-americanas e da coalizão não é sábia, porque o Iraque nunca foi pacífico e perfeito", disse ele. "Trata-se de uma região problemática do mundo".

Ou como afirmou após a onda inicial de saques ocorrida no Iraque: "Acidentes acontecem". Quanto mais Allawi aparece com o presidente, maior será o terror Danilo Fonseca

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