UOL Notícias Internacional
 

29/09/2004

Bush só vence Kerry no debate no quesito teatral

The New York Times
Paul Krugman

Colunista de NYTimes
Vamos encarar a verdade: seja lá o que acontecer no debate desta quinta-feira (30/09), os noticiários da TV a cabo proclamarão o presidente Bush como vencedor. Isto refletirá a inclinação política que ficou tão evidente durante as convenções partidárias. Também refletirá o fato indubitável de que Bush faz uma boa imitação de Clint Eastwood.

Mas o que a mídia impressa fará? Vamos torcer para que não faça o que fez há quatro anos.

Entrevistas com grupos focais realizadas após o primeiro debate de 2000 apontaram Al Gore com uma pequena vantagem. As análises pós-debate deveriam ampliar tal vantagem. Afinal, durante o debate, Bush contou uma mentira atrás da outra --sobre seus planos para o orçamento, sobre sua proposta de medicamentos prescritos e outras. A checagem de fatos nos jornais no dia seguinte deveriam ser devastadoras.

Mas como Adam Clymer apontou nesta segunda-feira, na página de editoriais de opinião do jornal "The Times", a cobertura de primeira página dos debates de 2000 enfatizaram não o que os candidatos disseram, mas sua "linguagem corporal". Após o debate, os artigos principais diziam muito sobre os suspiros de Gore, mas nada sobre as mentiras de Bush.

Mesmo os artigos de checagem de fatos "enterrados dentro dos jornais" eram, como Clymer colocou delicadamente, "refreados por um esforço para equilibrar os grandes erros de um candidato" --isto é, as mentiras de Bush-- "com os erros menores do outro".

O resultado desta ênfase no talento de representação dos candidatos em vez de sua substância foi que, poucos dias depois, a derrota de Bush no debate foi transformada em vitória.

Desta vez, o primeiro debate será sobre política externa, uma área onde Bush estará extremamente vulnerável. Afinal, suas promessas grandiosas de livrar o mundo dos malfeitores não deram em nada.

A prova Nº 1, é claro, é Osama Bin Laden, que Bush prometeu capturar "vivo ou morto", depois descartou de seu discurso após a operação fracassada em Tora Bora tê-lo deixado escapar. E não é apenas Bin Laden. A maioria dos analistas acredita que a Al Qaeda, que poderia ter sido esmagada caso Bush não tivesse desviado recursos e atenção para a guerra no Iraque, está mais perigosa do que nunca.

Também há a Coréia do Norte, que Bush declarou como sendo parte do "eixo do mal", depois ignorou quando seu regime começou a produzir armas nucleares. Recentemente, quando um repórter perguntou a Bush sobre os relatos de que a Coréia do Norte tem meia dúzia de bombas, ele simplesmente deu de ombros.

Mais importante, é claro, é o Iraque, uma guerra desnecessária que --após inicialmente se vangloriarem da vitória-- se transformou em um desastre ainda pior do que os oponentes da guerra esperavam.

A campanha de Kerry está tirando proveito da famosa aparição de Bush com o traje de piloto, mas para mim, o pior momento de Bush ocorreu dois meses depois, quando ele declarou: "Há alguns que sentem que as condições são tais que eles podem nos atacar lá. Minha resposta é: que venham".

Quando eles realmente vieram, ele piscou: as forças americanas --obviamente sob instruções para minimizarem as baixas pelo menos até novembro-- cederam grande parte do Iraque aos rebeldes.

Durante o debate, Bush tentará compensar este péssimo histórico com bravatas e com ataques ao seu oponente. Será que a imprensa jogará o jogo de Karl Rove, como Clymer colocou, confundindo cobertura política com crítica de teatro, ou cumprirá seu dever e checará os fatos do candidato?

Há alguns sinais encorajadores recentemente. Houve um interlúdio perturbador no qual muitas organizações de notícias pareciam aceitar as falsas alegações de que o Iraque tinha-se acalmado após a transferência da soberania.

Mas agora, com a escalada da violência, elas parecem dispostas a fazer as perguntas difíceis sobre a versão fantasiosa de Bush da situação no Iraque. Por exemplo, uma análise da (agência de notícias) Reuters apontou que as fontes independentes contradizem suas afirmações sobre tudo, "do treinamento da polícia e reconstrução até os preparativos para as eleições de janeiro".

Bush também está recebendo menos liberdade do que costumava ter para difamar seu oponente. Na semana passada, depois que Bush declarou que Kerry "preferia a ditadura de Saddam Hussein em vez da situação atual do Iraque", a (agência de notícias) "The Associated Press" apontou que isto "distorcia as palavras de seu rival" --e então citou o que John Kerry realmente disse.

Todavia, na noite de quinta-feira haverá a tentação para a retomada da crítica de teatro --enfatizando a aparência e interpretação dos candidatos-- e para empurrar as análises do que disseram, e se era verdade, para as páginas interiores. Com tanto em jogo, o público merece algo melhor. Em 2000, mídia preferiu analisar performance e ignorou as mentiras George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host