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29/09/2004

Comédias da TV retratam pai como gordo palhaço

The New York Times
Rick Marin

Em Nova York
Na condição de ex-crítico da TV dos EUA, não tenho mais a obrigação legal de identificar as tendências vigentes na temporada de lançamentos, mas algumas dessas tendências são perturbadoras demais para serem ignoradas. Por exemplo, agora é assim: todas as sitcoms familiares --praticamente todas as sitcoms do momento-- são sobre um cara obeso com sua esposa sexy.

Somente na CBS, na rede que já exibe seriados nesse estilo, como "The King of Queens" e "Still Standing", agora estreiam "Listen Up", o novo programa com Jason Alexander (o hilário careca de "Seinfeld"), e "Center of the Universe", estrelando o queixudo John Goodman.

A ABC, que já conta com "According to Jim" (veículo para Jim Belushi, atualmente exibido pelo canal Sony no Brasil, quintas, às 20h30), agora tem uma nova comédia chamada "Rodney", com um comediante caipira chamado Rodney Carrington, que não é propriamente obeso mas certamente é um gordinho.

A rede Fox não oferece novos gordões, mas tanto "The Bernie Mac Show" como "Quintuplets", com Andy Richter, estão de volta. Isso sem falar de Homer Simpson. E, falando em papais comilões dos desenhos animados, o herói pesadão da série de animação "Family Guy", que não chegou a ser cancelada como se pensara, voltará à programação da rede em 2005.

Enquanto isso, a NBC, último bastião na TV aberta para os urbanóides neuróticos subalimentados, ainda está livre de gorduras. Mas não fica tão distante assim, ao apresentar um reality show sobre um profissional especializado em comer cachorro quente e sua esposa, que faz o estilo "atriz-e-modelo".

E os heróis da temporada não são apenas gordões. São preguiçosos inúteis, que vivem bebendo cerveja diante da TV, que não prestam para nada dentro de casa, que mal encontram os filhos e acreditam que emoção é algo que só se pode expressar em programas inúteis, como as transmissões de golfe pela televisão. De alguma forma todos conseguiram conquistar mulherões como esposas, garotas que ficam ótimas em seus jeans --como Jami Gertz em "Still Standing"-- e depois todos displicentemente rolaram ladeira abaixo.

Para todos nós que almejamos a paternidade abaixo dos, digamos, 110 quilos, tudo isso é meio desinteressante, com exceção do que diz respeito à monumental Jami Gertz. Mas de quem será essa fantasia sobre o papai gordão da família americana: será do homem, será da mulher ou será de ambos? E até que ponto isso reproduz a realidade?

A Spike TV, uma rede a cabo voltada para os "machos", fez uma pesquisa nacional entre os papais da vida real. E 72% disseram que prefeririam estar com suas famílias a fazer sacrifícios em nome de empregos melhores e maiores. Eles também disseram que passam mais tempo com suas famílias do que com os esportes, com a TV ou com os amigos.

O canal Spike não perguntou aos rapazes qual é o peso deles. Mas de qualquer forma há algo de revelador sobre todos esses homens da vida real, que lutam tanto para participar mais da vida dos filhos ("O Stress e o Superpai" foi a manchete de um artigo recente da revista "Time"), ao mesmo tempo em que na TV fazem tanta graça e deboche sobre palhações inchados de cerveja.

A razão de ser, ou a própria estrutura vertebral da série "Listen Up", que estreou semana passada na TV americana, está na gordura, no tamaninho e na carequice de Jason Alexander. Tudo isso e mais o fato de que a filha adolescente o odeia. Quando ele segura a caneca de "Melhor Papai do Mundo" perto da "caneca do careca", é com um sarcasmo um tanto azedo. A mulher dele é mais alta e, nem precisa dizer, mais magra. Jason vive um co-âncora de um noticiário esportivo, que não é assistido pela esposa. Ele também escreve uma coluna de jornal sobre a própria família, e abastece seu repertório com o fato de estar "sempre errado" nas situações domésticas.

Essa nova série "Listen Up" foi exibida após a estréia da nova temporada de "Still Standing", cujo protagonista, Mark Addy, usa uma camiseta onde está escrito "Só estou aqui por causa da cerveja". Diante de uma filha adolescente deprimida, ele só alerta "Tente ser mais feliz", enquanto abre a segunda cerveja do dia. O filho constata o que há de errado com o pai: "Bebida demais, reflexão de menos".

Já a mulher de Andy Richter definiu, curta e grossa, na estréia da temporada de "Quintuplets", quando o casal deixou os filhinhos quíntuplos em casa para uma pretensa noitada de prazer num motel. Enquanto fingem ser desconhecidos num bar de hotel, ela diz: "Meu marido é meio paradão. Só fica ali, de bobeira, vendo TV..."

"Peraí, assim não vale, assim você está falando de mim de verdade...", reage o personagem de Andy, também disparando nas suas respostinhas espertas que "não tem culpa por ter uma mulher gostosona e ser pai de quíntuplos, quando tudo que ele queria era ser famoso pelas 'minhas grandes e poderosas coxas'"

Em "According to Jim", no episódio que será exibido dia 21 de setembro nos Estados Unidos, a atriz Courtney Thorne-Smith e o astro rechounchudo Jim Belushi se esforçam para ter o quarto bebê. Jim supostamente subirá sua contagem de espermas cortando as cervejas, os cigarros e as garotas de aluguel. Em vez disso, só para se garantir como homem fértil, ele troca o próprio esperma do teste pelo esperma do cunhado. Mas aí, quando a mulher diz que "implantou" o esperma do teste, ele fica assustado com a possibilidade de incesto.

Num momento assim meio "cá entre nós", a mulher faz com que Jim admita que seu maior temor era o de não ser capaz de engravidar a própria esposa. Tudo sob o disfarce da bebida e dos cigarros... E aí, quando sua masculinidade é questionada, Jim se compensa devorando uma asa de frango, pra comer e ficar calminho.

Scott Haltzman, um psiquiatra da cidade de Barrington, no Estado de Rhode Island, que ensina na prestigiosa universidade de Brown e administra um site especializado para os segredos do homem casado, em SecretsofMarriedMen.com, destrincha os estereótipos do que acontece numa sitcom atualmente: "Os homens são uns idiotas, e agora só resta a eles, na ficção, serem instruídos pelas mulheres a perceber como erraram nos papéis de pai e marido, e também como fracassaram como seres humanos. Aí o papel das mulheres passa a ser o de modelar o homem sob todos os aspectos."

Acontece de tudo, até porque quando eu mudei para a série "Trading Spouses", no canal Fox, vi dois maridos nem tão obesos assim, casados com umas mulheres bem gordonas. Por conta disso até rolava um certo troca-troca, se bem que isso jamais será assunto central para uma sitcom. Lembrem que até em "Roseanne" John Goodman é quem era o gordo, e não aquela estrela da época, a obesa comediante Roseanne Barr.

John Goodman, Belushi, Richter, Addy, Jason Alexander...todos esses atores obviamente são comediantes talentosos. Talvez os gordos sejam mais engraçados. Quem acredita nisso é Seth MacFarlane, criador da série de animação "Family Guy", que fala sobre o tolo personagem que é o paizão da série que criou: "Ainda bem que ele é um panaca, isto até rende mais quando se quer fazer comédia."

A partir da pesquisa que despertou, o canal masculino Spike TV produziu um documentário chamado "True Dads" (Pais Verdadeiros), investigando os aspectos mais complexos da paternidade. Keith Brown, vice-presidente de jornalismo e de documentários para o canal Spike, promete mostrar depoimentos de homens que "levam o papel de pai muito, mas muito a sério."

Será que todos eles são gordões?

"Depende... alguns parecem saídos de uma capa de revista, já outros são mesmo meio gordinhos", disse o executivo de TV Brown, garantindo que "não haverá nada de engraçado" no que irá mostrar.

É, talvez o magro não seja tão engraçado quanto o gordo. É só voltar lá nas origens da sitcom, lá nos tempos do magrelo Ralph Kramden. Mas, peraí, a graça nunca esteve garantida, nem com Fred Flintstone. Até o Dick Van Dyke era magrelo. Darren Stevens, o marido da "Feiticeira" dos anos 60 --em ambas as versões... Por acaso ele era sempre magrelo e engraçado. E olhem onde viemos parar, numa época em que o casal arquetípico de uma sitcom pode ser chamado de "10", nota dez, sendo que o algarismo "1" é ligado à mulher boazuda e o "0"...é do careca Jason Alexander...

O psiquiatra Haltzman disse que, em sua investigação de casais, "as mulheres atraentes, que são casadas, geralmente têm maridos atraentes, homens que outras mulheres consideram atraentes."

Mas acho que isso não é muito engraçado. Acho que nada aconteceria, em termos de comédia, numa história em que existam o marido e a mulher, com o mesmo peso, e o marido normal nada fizesse, se mantendo longe do centro das piadas.

A não ser que, no centro das piadas, estivesse, como animado protagonista, o filho do casal. Um cara legal, assim meio gordinho... Sitcoms americanas são apresentadas pelos canais pagos do Brasil Marcelo Godoy

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