UOL Notícias Internacional
 

29/09/2004

John Kerry precisa provar que é bom de chegada

The New York Times
Todd S. Purdum

Em Nova York
Em 1996, o senador John Kerry, de Massachusetts, lutava para manter seu cargo num duro desafio diante do popular governador do estado, o republicano William F. Weld, de origem sulista, quando, em plena série de debates pela TV, ele começou a se vangloriar em meio a uma confissão.

"Estou bem certo de que, quando Deus me criou, me puniu com uma espécie de dose exagerada de intensidade, talvez com uma dose exagerada de honestidade", Kerry disse naquele mês de agosto, no quarto de uma série de oito debates. "Eu não sou aquela pessoa expansiva, de gestos evidentes, e estou consciente disso. Por outro lado, o que eu tenho certeza sobre a minha pessoa é que, no meio de uma luta, sou uma boa pessoa para se ter numa trincheira, e eu sei que agora estamos numa luta".

Oito anos depois, Kerry está na luta mais importante de sua vida política, contra o presidente Bush. E tanto ele como seus partidários estão contando com um fator que deu certo na campanha de 1996, originando uma reputação que se confirmou nas primárias do Partido Democrata em 2004 --ele seria aquele candidato que normalmente começa a corrida lá atrás, um "Seabiscuit" político, bom de chegada, que "atropela" e dispara no final, depois de inícios lentos que chegam a gerar ansiedade.

"Se essa fosse uma disputa de boxe tradicional, ele agora poderia estar perdendo por pontos nos primeiros cinco ou seis assaltos", diz Dan Payne, consultor de mídia em Boston e veterano em várias campanhas de Kerry. "E aí quando ele percebe, 'Ih, eu posso perder essa se não tomar uma atitude drástica', então o Kerry acorda e é capaz de arrasar com o adversário."

Payne acrescenta: "Ele tem problemas é nos momentos que antecedem essas decisões, nessas situações costuma seguir pelo piloto automático." No momento em que Kerry se aproxima de momentos decisivos na campanha, com o primeiro debate na próxima quinta, dia 30, há muitas evidencias no passado dele sugerindo que o candidato acredita que as eleições são decididas na reta final. Ele teria essa tendência de se preservar de propósito e só começar a se concentrar totalmente na corrida apenas no momento em que ele acredita que os eleitores estão fazendo o mesmo.

Resta saber se essa abordagem, que já funcionou no estado natal dele, de tendência liberal, ou com os eleitores das primárias Democratas, tão dispostos a abençoar um candidato de consenso, funcionará numa eleição nacional. De qualquer forma, agora Kerry tem pouca escolha, a não ser exercer sua estratégia e chegar ao seu ponto alto a partir de agora.

Ele certamente está se esforçando. Durante o mês passado, mexeu na equipe, afiou seus ataques contra Bush, e colocou de lado a ênfase na economia, que planejara, em benefício de uma crítica vigorosa à maneira como o presidente agiu em relação à guerra no Iraque. A mudança gerou manchetes enfáticas e uma cobertura jornalística mais favorável.

Kerry já esteve em posições parecidas em outras corridas. Segundo a maioria dos registros, ele só deu sinal de vida na disputa contra Weld pelo senado em 1996 a partir do quinto debate, em meados de setembro. Naquele debate, ele disparou uma série de farpas e respostas rápidas, atacando Weld e o chamando de hesitante, até invocando o nome de um ex-assessor do adversário, que havia renunciado ao posto que ocupava entre os Democratas, no comitê de reeleição do presidente Bill Clinton, depois de um escândalo envolvendo o assessor e uma prostituta.

"Governador", Kerry disse a Weld, "o senhor muda de posições mais rapidamente que o seu amigo Dick Morris". Depois dessa, Weld só conseguiu ficar ruborizado.

Em seguida, Kerry disse ao jornal "The Boston Herald": "É hora de ação, hora do rock and roll. É nesse momento que as pessoas realmente estão ouvindo. Preciso me focar". Sete semanas mais tarde, Kerry ganhou por sete pontos percentuais, na mesma eleição de Massachusets em que Clinton venceu Bob Dole por 33 pontos percentuais.

Pelo menos um candidato que enfrentou Kerry diz que essa abordagem do senador depende tanto de estratégia como de uma certa alquimia de fatores.

James Shannon, que trabalhou com Kerry na única derrota eleitoral, em 1972, e que depois perdeu para ele nas primárias Democratas para o senado em 1984, acredita que a reputação de Kerry como "bom de chegada" é merecida, mas talvez um tanto simplista. Shannon diz que a atual abordagem de Kerry é uma conseqüência do que aconteceu naquela disputa em 1972 na cidade suburbana de Lowell, em Massachusetts.

Na época, uma pesquisa divulgada semanas antes da eleição mostrou que ele estava uns 30 pontos à frente do Republicano. Kerry relaxou e acabou perdendo, depois de menosprezar a possibilidade de ataques duros de última hora por parte do adversário e por parte da própria imprensa local e hostil.

Kerry "parecia estar navegando tranqüilamente em direção à vitória, e de repente perdeu o que já parecia faturado", diz Shannon. "Pode-se falar do 'bom de chegada', tudo bem, mas acho que isso acaba sendo um desserviço para Kerry, como se ele pudesse de repente tirar um coelho da cartola. Mas tudo isso tem a ver com a importância de se acertar o foco no final, e com o fato de que a corrida se define realmente no final".

Fenomenal

Não está bem claro até que ponto a atual disputa está definida. Na maior parte do ano passado, pesquisas mostraram Bush com índices de aprovação invejáveis. Mas Kerry teve problemas em faturar com isso. Pesquisas recentes mostram Bush firmando uma vantagem, embora haja uma volatilidade que Kerry ainda poderá explorar.

Muitos dos amigos mais antigos de Kerry ficam meio desesperados com o timing do candidato em suas campanhas. A tendência dele de render melhor quando "está no sufoco" é um hábito antigo, proveniente, no mínimo, dos tempos em que era um dos grandes debatedores na Universidade de Yale, e não pode ser explicado apenas como resultado de mera procrastinação ou por falta de atenção.

"Ele era tão incrivelmente superenvolvido com tantas atividades que era difícil fazer com que ele se concentrasse numa só", diz Bradford Snell, um de seus companheiros nos debates naquela época. "Só quando eram umas 11h da noite ou então meia-noite na véspera de um debate é que eu conseguia "colocá-lo contra a parede". Aí, com as costas na parede, a adrenalina dele começa a fluir e então Kerry faz coisas fenomenais. Sempre na última hora, num pique final."

Nos debates, segundo Snell, Kerry era "capaz de compreender inteiramente o que acontecia do outro lado, perceber a falha e destrinchá-la. Uma das piores coisas que se pode fazer é ficar excessivamente programado. Você precisa realmente ouvir o outro lado para realmente prevalecer no final. Eu lembro que umas duas vezes eu fiz sugestões, e ele disse 'essa eu já tinha planejado'. É como se ele tivesse se preparado durante meses."

Nas últimas semanas, até os próprios assessores de Bush admitiram as qualidades de Kerry como debatedor. Matthew Dowd , estrategista do presidente, chegou a chamar Kerry de "o melhor debatedor que já concorreu à presidência", "melhor que Cícero" (!).

De fato, o histórico demonstra que Kerry, tantas vezes evasivo em discursos preparados, pode ser sucinto e eficaz na espontaneidade das trocas de argumentos.

Em seu segundo debate contra Weld em 1996, Kerry interrompeu o Republicano num certo momento dizendo "Lá vem você de novo", frase "clássica" de Ronald Reagan contra Jimmy Carter em 1980.

"Pelo menos eu sabia quem era Ronald Reagan" Weld disparou, por sua vez repetindo o que o Democrata Lloyd Bentsen disse a respeito de John F. Kennedy, querendo desprezar o Republicano Dan Quayle em 1998. Mas aí Kerry contra-atacou: "Também conhecemos Reagan, e já não precisamos de ninguém do tipo dele em Washington".

No primeiro debate de 1996, estava sentada na platéia a mãe de um policial que havia morrido em serviço. Weld pediu para que Kerry defendesse sua oposição à pena de morte, para explicar "por que a vida do homem que assassinou o filho dela vale mais que a vida do filho dela".

Kerry, ex-promotor da justiça de Massachusets, retrucou em voz baixa: "Ela não vale mais, ela não vale nada. Ele é um marginal que deve ficar na cadeia para o resto da vida".

Mas Kerry acrescentou, numa inequívoca referência ao desempenho que teve no Vietnam (uma Guerra que Weld não combatera por conta de um mal na coluna): "Eu tenho sido contra a pena de morte. Eu sei de algumas coisas sobre matança. E eu não gosto de matanças. Não acho que um Estado consiga promover a vida ao sancionar a morte".

Em 32 anos, Kerry só perdeu uma eleição --aquela primeira disputa para o
Congresso-- e raramente perdeu um debate. Ele detesta perder.

Há quarenta anos praticamente exatos, o jornal "The Yale Daily News" relatou que a equipe de Kerry tinha perdido um debate com os alunos da Cambridge University, da Inglaterra, num enfrentamento ocorrido por meio de ligação telefônica transatlântica a cabo. Nesse debate, a equipe de Kerry havia argumentado contra a proposta de que "a China vermelha deveria ser admitida nas Nações Unidas".

Dias depois, Kerry escreveu uma carta ao editor do jornal, protestando contra a tal declaração de vitória. O argumento foi o de que o público dos americanos e dos ingleses não estava bem equilibrado, já que o de Cambridge era inteiramente formado por pessoas que apoiavam a entrada da China na ONU.

"Por esse motivo", Kerry escreveu na época, "o voto deles apenas confirmou o que já pensavam. E acrescentou: "O debate não foi nem vencido nem perdido por nenhum dos lados."

Mas agora, do seu próximo debate até o dia 2 de novembro, Kerry não poderá se contentar com um empate. Debate com Bush mostrará se ele é somente um cara muito sortudo Marcelo Godoy

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