UOL Notícias Internacional
 

29/09/2004

Kerry deve mostrar que Bush foi uma catástrofe

The New York Times
Al Gore*

Especial para o NYTimes
Neste ano, como é usual, o domínio dos ataques nas propagandas políticas de televisão tornou difícil discernir um quadro claro a respeito da posição dos candidatos. Mas a mesma revolução da mídia que nos trouxe os comerciais de 30 segundos também nos proporcionou os debates presidenciais televisados --e desde o primeiro desses debates, há 44 anos, eles desempenham um papel crucial na moldagem da opinião dos leitores a respeito dos candidatos.

Os Estados Unidos há muito aceitam o embate entre adversários políticos como sendo a melhor forma de avaliar informações. Nesta era de confusão na mídia, é ainda mais importante para os eleitores contar com esse momento de clareza simples quando os candidatos aparecerem à sua frente sem o auxílio de assessores, efeitos sonoros e jogadas de mídia.

O meu conselho a John Kerry é simples: se prepare para o debate mais difícil da sua carreira. Embora o comitê de George Bush tenha transformado a "redução de expectativas" em uma alta manifestação artística, o registro histórico é claro --ele é um debatedor habilidoso que sabe tirar proveito desse formato midiático.

Não há motivo para esperar por menos desta vez. E se alguém realmente tem "baixas expectativas" quanto ao atual presidente, isso por si só é uma questão.

Porém, mais importante que as características de Bush como debatedor é o seu histórico como presidente. E é aí que reside a verdadeira oportunidade para John Kerry --porque, não obstante as habilidades políticas do presidente, o seu desempenho no cargo é um fracasso catastrófico. E os debates representam um momento de pressioná-lo para que assuma a responsabilidade por esse fracasso.

Para os eleitores, esses debates representam uma oportunidade para explorar quatro questões relevantes: Atualmente os Estados Unidos estão no curso correto, ou saíram dos trilhos? Se estamos indo na direção errada, o que aconteceu, e quem é o responsável? Como retornar ao caminho certo, para que tenhamos um país mais seguro e próspero? E, finalmente, quem é mais capaz de nos guiar para aquele caminho?

Uma nítida maioria dos norte-americanos acredita que estamos rumando na direção errada. As razões são óbvias. A situação no Iraque piora. Osama Bin Laden está vivo e conspirando contra nós Cerca de 2,7 milhões de empregos industriais desapareceram. Quarenta e cinco milhões de norte-americanos não tem plano de saúde. As taxas do Medicare (seguro público de saúde dos Estados Unidos) são as mais altas da história. E as proteções ambientais foram neutralizadas.

Nos próximos debates, Kerry terá uma oportunidade de mostrar aos eleitores que atualmente as tropas e os contribuintes norte-americanos estão arcando com um fardo pesado, sem um fim à vista, porque Bush nos conduziu à guerra segundo falsas premissas e sem um plano para ganharmos a paz.

Kerry terá a oportunidade de demonstrar a conexão entre o desemprego e a colossal isenção de impostos que Bush concedeu aos ricos. E ele pode lembrar aos eleitores que Bush quebrou a sua promessa de ampliar o acesso aos serviços de saúde.

Kerry poderá ainda usar os debates para falar diretamente aos eleitores e apresentar uma visão otimista para o nosso futuro. Se após os debates os eleitores entenderem melhor em que situação está o nosso país, como chegamos a esse ponto e para onde cada um dos candidatos nos conduzirá caso seja eleito, então os Estados Unidos estarão preparados para a eleição.

O debate não deve procurar mostrar que candidato se divertiria mais com uma lata de cerveja. Conforme Jon Stewart, do programa "The Daily Show", colocou tão bem em 2000: "Quero que o meu presidente seja o motorista titular".

Os debates não são um momento para truques de retórica. Eles são a oportunidade para um enfrentamento honesto de idéias. A recusa de Bush em admitir qualquer erro pode lhe render alguns pontos por estilo. Mas isso faria com que a sua eleição para mais quatro anos se tornasse um risco perigoso. Rebeldia não é força; e Kerry deve mostrar aos eleitores que há uma distinção entre os dois.

Se Bush não está disposto a admitir que as coisas estão indo de mal a pior no Iraque, será que se pode confiar nele para a tomada das decisões necessárias para mudar tal situação? Se ele insistir em continuar fingindo que se trata de uma "missão cumprida", será que poderá completar a missão? E se o governo Bush deu mostras de estar tão escandalosamente errado em praticamente tudo que previu sobre o Iraque, com as horríveis conseqüências que se seguiram, como poderíamos confiar nele para outros quatro anos?

A maior diferença entre os debates deste ano e os de quatro anos atrás é que o presidente Bush não pode mais simplesmente fazer promessas. Ele agora possui um histórico. E espero que os eleitores se lembrem da última vez que Bush subiu no palanque para um debate presidencial.

Ele disse que, se fosse eleito, apoiaria a idéia de os norte-americanos comprarem medicamentos com receita médica no Canadá. Prometeu que as suas reduções de impostos criariam milhões de novos empregos. E disse que acabaria com a briga partidária em Washington. Acima de tudo, ele prometeu que, caso enviasse tropas americanas para o campo de batalha, "tal força teria que ser suficientemente forte para que a missão fosse cumprida. E a estratégia de retirada precisaria ser bem definida".

Comparar essas promessas grandiosas com o seu histórico fracassado é suficiente para, bem, nos fazer suspirar.

*Al Gore foi vice-presidente dos EUA entre 1993 e 2001 e o candidato democrata à presidência em 2000. Obteve mais votos que Bush, mas perdeu no Colégio Eleitoral devido à polêmica apuração de votos na Flórida. Democrata precisa superar o desempenho midiático do presidente Danilo Fonseca

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