UOL Notícias Internacional
 

30/09/2004

Bush e Kerry diferem pouco em muitas questões

The New York Times
James Bennet

Em Washington
É um axioma das duas campanhas presidenciais seus candidatos oferecerem uma opção clara para o papel dos Estados Unidos no mundo.

Na noite desta quinta-feira (30/09), os eleitores terão sua melhor chance para julgar as opções quando o presidente Bush e o senador John Kerry se encontrarem em seu primeiro debate, sobre política externa.

"Eu não acho que tivemos uma diferença tão acentuada entre dois candidatos presidenciais em questões internacionais desde 1980", disse Richard C. Holbrooke, um alto conselheiro de Kerry.

Mas, na visão de alguns políticos e analistas de política externa, esta disputa fez pouco até o momento para esclarecer tais questões. "Eu tinha um pouco mais de esperança de que neste ano teríamos um debate robusto sobre estas questões", disse Lee H. Hamilton, ex-deputado democrata por Indiana e que foi vice-presidente da comissão de 11 de setembro. Mas, ele continuou, "é espantoso se você olhar para o que não está sendo abordado. Você está enfrentando não apenas o terrorismo no mundo, mas está enfrentando turbulência, caos".

Um motivo para os candidatos não estarem discutindo uma série de questões de política externa é que apesar de toda a conversa sobre diferenças acentuadas, em muitos assuntos, das relações com a China ao conflito entre israelenses e palestinos, os dois diferem apenas ligeiramente, se é que diferem.

Mesmo em relação ao Iraque, as diferenças mais acentuadas declaradas dos candidatos são em retrospecto, não em perspectiva. Bush defende a guerra como central na luta contra o terrorismo; Kerry a critica como uma distração. Mas ao olharem para frente, nenhum deles está pedindo pela partida imediata das tropas americanas; ambos defendem a aceleração do treinamento das forças iraquianas.

Ambos querem criar condições semelhantes para uma retirada americana; Kerry argumenta que encontrará uma forma para que isto aconteça mais rapidamente.

Em relação à China, ambos os candidatos falam da construção de um relacionamento cooperativo, promovendo ao mesmo tempo a reforma interna. Susan Rice, outra conselheira de segurança nacional de Kerry, argumentou que os candidatos exibem "diferenças fundamentais" em política externa, mas disse que na questão específica da China, "as diferenças são mais de nuance do que nos fundamentos".

Na questão Israel e palestinos, ambos os candidatos apóiam Ariel Sharon, o primeiro-ministro israelense, na construção da barreira contra os palestinos da Cisjordânia e no planejamento da evacuação dos colonos da Faixa de Gaza sem um acordo de paz.

Sam Nunn, o ex-senador que é co-presidente da Iniciativa de Ameaça Nuclear, que se concentra nas ameaças de armas de destruição em massa, notou que ambos os candidatos consideraram o controle de tais armas como o desafio Nº 1 de política externa. "Mas não acho que há discussão suficiente", disse ele.

Por exemplo, disse Nunn, será que os Estados Unidos poderiam construir simultaneamente um forte relacionamento com a Rússia para controlar tais armas e pressionar os russos para prosseguirem com as reformas democráticas internas? "Se há um conflito entre estas duas metas", ele perguntou, "qual será a mais importante e como você lidará com isto?"

Ambos os candidatos propuseram planos para restringir novos países de produzirem combustível potencial para armas nucleares. Kerry tem dito que acelerará drasticamente o programa, que ele argumenta que Bush não financiou o suficiente, para tornar seguros os estoques nucleares na Rússia.

O senador Chuck Hagel, republicano de Nebraska, disse: "Eu acho que ambas as campanhas decepcionaram este país". Ele disse que a questão mais importante a ser discutida é "como recuperar a posição da América no mundo".

Nas campanhas presidenciais modernas, os candidatos tendem a tratar as questões de política externa pelo que elas dizem a respeito deles tanto quanto pelo que podem ter a dizer sobre as questões. Eles apresentam as diferenças na política externa como símbolos, como marcadores de valores, julgamento ou estilo.

Quando debatem o Iraque, os candidatos disputam sobre assuntos do momento -se, por exemplo, a insurreição está ficando mais forte ou mais fraca- e também tentam consolidar imagens específicas. Chame de caráter versus competência: Bush quer apresentar a si mesmo como um líder com coragem de ir à luta sozinho, enfrentando um rival vacilante; Kerry quer apresentar a si mesmo como sábio e prudente, mais capaz de julgar ameaças e alistar aliados contra elas.

"O que eles dizem sobre assuntos de política externa importa -importa muito- e é um indicador de seus valores e estilo de liderança", disse Holbrooke.

Ao discutir o que considera as grandes diferenças entre os dois candidatos, Holbrooke argumentou que "a questão central é que John Kerry é um verdadeiro internacionalista", mas que, pelos discursos de Bush -"você poderia colocá-lo ao lado de Woodrow Wilson"- não há "ligação entre seus discursos e sua atuação".

Os funcionários da Casa Branca continuam a considerar o debate sobre política externa principalmente como uma forma de Bush argumentar que Kerry não é um comandante-em-chefe adequado.

Há "claras diferenças nas maiores prioridades para o povo americano, acima de tudo a guerra contra o terrorismo", disse Scott McClellan, o porta-voz da Casa Branca, na quarta-feira. "Nós ainda somos uma nação em guerra, e é importante que o presidente fale com clareza e exiba determinação. E é isso o que este presidente tem feito. Ele falará sobre sua visão otimista, sua determinação e sua estratégia clara para o sucesso. E isto difere profundamente do senador John Kerry, que tem oferecido pessimismo, incerteza e derrotismo durante um tempo de guerra."

Há motivos importantes para os candidatos enfatizarem seu estilo na política externa, pois não é fácil antecipar quais crises de política externa surpreenderão o próximo governo. Há quatro anos, durante os três debates entre o vice-presidente Al Gore e Bush, "terrorismo" foi mencionado apenas uma vez --por Gore.

Mesmo quando se trata de questões de abordagem básica, os presidentes freqüentemente se vêem forçados pelas circunstâncias a mudarem ou reverterem uma posição que defenderam como candidatos nos debates. "Eu não acho que nossas tropas devam ser usadas para a chamam de construção de nação", declarou Bush em 2000.

James B. Steinberg, vice-presidente e diretor de estudos de política externa da Instituição Brookings, argumentou que as questões de caráter e política estavam interligadas neste ano como não se via desde 1972, durante a Guerra do Vietnã. "Há uma grande questão de caráter sendo debatida aqui", disse ele. "Mas as pessoas também estão se alinhando em torno de duas visões de mundo bem diferentes, e duas respostas muito diferentes a 11 de setembro."

Estas duas visões de mundo são facilmente caricaturadas, com Bush sendo ridicularizado pelos democratas como um "trigger happy loner" (um solitário que aperta o gatilho à menor provocação) e Kerry escarnecido pelos republicanos como alguém que pede permissão à ONU para proteger os Estados Unidos.

Mas por trás dos cartuns há uma diferença filosófica inconfundível com aplicações por todo o espectro da política externa: Bush tem um histórico de ruptura com antigos aliados para agir no que entende como um interesse americano vital; Kerry, um senador de três mandatos, fica mais à vontade agindo com consenso.

O debate face a face da quinta-feira provavelmente se concentrará no Iraque. Os conselheiros de Bush identificaram o que consideram a maior vulnerabilidade nos argumentos de Kerry.

O democrata, segundo eles, está mais interessado em falar sobre os planos para a retirada das tropas americanas do que descrever como estabilizará o Iraque e levará a democracia para a região. Eles insinuaram que Bush tornará este o principal ponto de debate. Um alto funcionário de Bush chamou os argumentos de Kerry de "uma versão lenta de fuga".

Kerry se apoderou da confissão de Bush de um único "erro de cálculo" na fase pós-invasão no Iraque, e regularmente expõe uma lista de outros erros de cálculo que ele argumenta que custaram vidas e dinheiro. Seus conselheiros têm debatido internamente quão longa deve ser a lista apresentada por Kerry durante o debate.

Mas apesar do Iraque poder dominar o debate, também é provável que ele servirá como entrada para outras questões. Kerry já argumenta que o Iraque é uma distração que o levou a acusar Bush de negligenciar outros assuntos. Em um discurso na Universidade Temple, na sexta-feira, ele citou a independência do petróleo do Oriente Médio e as relações com o mundo muçulmano, e pediu para a redução da dívida para apoiar os direitos humanos e progresso social nas "nações mais vulneráveis".

Kerry também argumentou que o governo Bush fracassou em tratar do "risco nuclear" representado pelos avanços nos programas nucleares do Irã e da Coréia do Norte.

Alguns analistas de política externa argumentam que o Irã tem sido um beneficiário acidental das duas guerras lideradas pelos Estados Unidos nos últimos quatro anos, que removeram governos hostis nos vizinhos Afeganistão e Iraque. Os 160 mil soldados americanos nestes dois países estão ocupados, pelo menos por ora. Os preços do petróleo estão em níveis recordes, uma bênção para o Irã, e os líderes religiosos fundamentalistas do Irã têm firmado seu controle do poder.

"Eu não me importo com quem vença a eleição, Bush ou Kerry; o Irã estará no topo da agenda, logo abaixo do Iraque", disse Geoffrey Kemp, diretor de programas estratégicos regionais do Centro Nixon.

O Irã teve arrogância suficiente na semana passada para rejeitar a exigência da agência de monitoramento nuclear da ONU para que parasse de enriquecer urânio. O Irã insiste que seu programa visa unicamente produzir eletricidade, e não bombas.

Tanto Bush quanto Kerry consideram o programa nuclear do Irã inaceitável, e ambos falam em empregar diplomacia para encerrá-lo. Kerry disse que também buscará sanções, apesar de haver pouco indício de que os países europeus acompanharão tal abordagem.

Nenhum dos candidatos disse o que fará em caso de fracasso da diplomacia. Ou os EUA não têm opções claras, ou elas são muito parecidas George El Khouri Andolfato

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