UOL Notícias Internacional
 

30/09/2004

Mulher é condenada a ser estuprada no Paquistão

The New York Times
Nicholas D. Kristof
Colunista do NYTimes
Em Meerwala, Paquistão
Ainda estou tentando ajudar o presidente Bush a encontrar Osama Bin Laden. Após vasculhar regiões remotas do Paquistão, perguntando por um árabe alto e barbado, não posso dizer que ganhei aquela recompensa de US$ 25 milhões. Mas topei com uma pessoa ainda mais extraordinária que Osama.

Geralmente, nós jornalistas escrevemos sobre vilões, mas Mukhtaran Bibi não poderia ser mais altruísta e corajosa, conforme descobriram os homens que a estupraram em grupo. Eu acredito firmemente que o principal desafio moral deste século, equivalente às lutas contra a escravidão no século 19 ou contra o totalitarismo no século 20, será combater a desigualdade sexual no Terceiro Mundo --e são histórias de mulheres como Mukhtaran que me convencem disso.

No Ocidente não se dá a atenção devida ao sofrimento das mulheres dos países em desenvolvimento, e, certamente, este não é um tópico dos mais discutidos na campanha presidencial. Mas trata-se de uma questão de vida ou morte em vilas como Meerwala, que fica a 12 horas de carro de Islamabad, capital do Paquistão.

Segundo a polícia, em junho de 2002 membros de uma tribo da elite local abusaram sexualmente de um dos irmãos de Mukhtaran e a seguir acobertaram o crime acusando-o falsamente de ter um caso com uma mulher da elite local. O conselho tribal da vila determinou que a punição recomendável para o suposto relacionamento indevido seria fazer com que uma das irmãs do garoto fosse estuprada por membros da elite do lugar.

Assim, o conselho condenou Mukhtaran a ser estuprada por um grupo de homens. Enquanto membros da tribo dançavam alegremente, quatro homens arrancaram a sua roupa e se revezaram em estuprá-la. Depois, eles a obrigaram a andar nua até a sua casa em frente a 300 moradores da aldeia.

Na sociedade muçulmana conservadora do Paquistão, o dever de Mukhtaran após esses acontecimentos era bem claro: ela deveria se suicidar.

"Assim como outras mulheres, a princípio pensei em me matar", conta Mukhtaran, que hoje tem 30 anos. O seu irmão mais velho, Hezoor Bux, explica: "Uma garota que foi estuprada não possui um lugar honroso na vila. Ninguém respeita tal garota ou os seus pais. Existe um estigma, e a única saída é o suicídio".

Uma moça de uma vila próxima foi estuprada nas mesmas circunstâncias uma semana após Mukhtaran, e escolheu a saída tradicional: tomou uma garrafa de pesticida e caiu morta.

Mas, ao invés de se matar, Mukhtaran depôs contra os seus algozes e propôs a idéia chocante de que a vergonha reside no estupro, e não no fato de ser estuprada.

Os estupradores aguardam agora a execução no corredor da morte, e o presidente Pervez Musharraf indenizou Mukhtaran com uma quantia equivalente a US$ 8.300 (não chega a R$ 25 mil) e ordenou que ela recebesse proteção policial 24 horas por dia.

Mukhtaran, que nunca freqüentou uma escola, usou o dinheiro para construir na vila uma escola para meninas e outra para meninos --já que, segundo ela, a educação é a melhor forma de se promover mudanças sociais.

A escola para meninas tem o seu nome, e ela atualmente está cursando a quarta série. Fotografias de Mukhtaran e de sua escola podem ser vistas no meu site no portal de The New York Times.

"Por que eu deveria ter gastado o dinheiro comigo mesmo?", pergunta ela. "Desta maneira o dinheiro está ajudando todas as garotas, todas as crianças".

Eu gostaria que a história terminasse aqui. Mas o governo paquistanês se
esqueceu da promessa de cobrir os custos operacionais da escola. "O governo prometeu muito, mas não fez muita coisa", diz Mukhtaran asperamente.

Ela teve que comprar comida para os policiais que a protegem, além de pagar algumas despesas da escola. "Fiquei sem dinheiro", reclama. A menos que as escolas sejam capazes de arrecadar novas verbas, elas talvez tenham que ser fechadas.

Enquanto isso, moradores da vila dizem que parentes dos estupradores aguardam apenas que a polícia vá embora para colocar Mukhtaran no seu lugar, massacrando não só ela, mas toda a sua família. Eu fui até a área onde moram os integrantes da tribo privilegiada. Eles negaram as acusações de que planejam matar Mukhtaran, mas não se desculparam pelo estupro.

"Mukhtaran caiu em desgraça total", disse com satisfação Taj Bibi, uma
matriarca da família. "Ela não é respeitada na sociedade".

Assim, embora eu não tenha achado Osama, encontrei uma forma bem mais disseminada de terror e malignidade: uma cultura que está presente em cerca de metade do planeta, e que mastiga e cospe as mulheres.

Nós no Ocidente poderíamos ajudar a acabar com tal opressão, por meio de programas de saúde e literatura, ou simplesmente com denúncias, assim como no passado nos opusemos à escravidão e ao totalitarismo. Mas ao invés de nos postarmos ao lado de lutadoras como Mukhtaran, ainda estamos sentados em cima do muro. Islamismo radical pratica um dos machismos mais atrozes do mundo Danilo Fonseca

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