UOL Notícias Internacional
 

01/10/2004

Bush e Kerry usam medo e esperança no debate

The New York Times
James Bennet

Em Coral Gables, Flórida
O senador John Kerry falou de famílias de militares que compram armaduras pela Internet, de "material nuclear perdido", de indústrias químicas vulneráveis aos ataques terroristas. Ele acredita que faria melhor como presidente, e que "tornará os Estados Unidos seguros".

Durante essa preleção atemorizante e os repetidos ataques à sua "maneira de julgar", o presidente Bush ficou em silêncio, com a boca cerrada para baixo, num gesto que conseguiu combinar impressões de deboche com tristeza.

Em sua vez, Bush desempenhou sua própria versão dessa temática, alternando entre tons de alerta e de esperança. Sobre os terroristas, disse: "Eles formam um grupo de assassinos, capazes de matar não somente aqui, mas também capazes de matar crianças na Rússia".

Mas garantiu que "permaneceria constantemente na ofensiva", acrescentando, com um sorriso, que "ao mesmo tempo espalharia a liberdade, e é isso o que as pessoas dizem que está acontecendo agora no Afeganistão."

Os dois candidatos ficaram estabelecendo contrastes não só entre eles, mas também, inevitavelmente, contrastes com eles mesmos --se esforçando para emitir sinais de otimismo, ao mesmo tempo em que também soavam alarmes sobre o estado atual do mundo e a escalada das ameaças.

Esse tipo de contraste existe em qualquer campanha presidencial, é claro. Mas os ataques de 11 de setembro e as guerras que se seguiram só fizeram aumentar essa atitude dividida por parte dos dois candidatos, que se alternaram entre a esperança e o medo, entre a luz do sol e a sombra, entre o amanhecer e o luto nos Estados Unidos.

Pareceu até adequado que esse combate de contrastes acontecesse no campus da Universidade de Miami, onde estudantes em trajes de banho e sandálias de dedo circulavam nessa quinta-feira pela grama verde-esmeralda, entre barricadas policiais e máquinas de detecção. Para a realização do debate, havia cercas em torno de todo o campus.

Esse contraste também foi mais nítido do que já aconteceu em qualquer campanha do passado recente --de um lado a gravidade do debate; do outro, a incrível leveza de fazer parte de uma imensa badalação.

Antes do debate, os assessores dos dois lados discutiram sobre uma questão aparentemente insignificante. Os assessores de Kerry estavam insatisfeitos sobre a utilização das cores vermelha, amarela e verde como indicadores do tempo restante para cada resposta; já a turma de Bush queria as luzes.

O lado de Kerry argumentava que os partidários de Bush gostavam das luzes porque elas distrairiam os espectadores dos eventuais escorregões de seu candidato, e porque poderia haver muita luz vermelha sobre Kerry, que é notoriamente prolixo. Já os assessores de Bush achavam que a turma de Kerry estava era com medo de que seu candidato excedesse o tempo para respostas.

Para quem viu de casa, foi a oportunidade de observar, pela primeira vez, Bush e Kerry lado a lado, debatendo questões fundamentais que dizem respeito ao país e a todo o mundo.

A alguns passos do palco do debate, do outro lado de uma pista e de um estacionamento, o que se via era uma cena bem diferente, com milhares de jornalistas, assessores, militantes dos partidos e congressistas analisando, xingando o adversário e debochando baixinho, numa borbulhante mistura de comentários, jornalismo e pura maledicência.

Talvez tenha sido um acidente do destino, ou talvez pura malícia por parte dos organizadores do debate, que essa multidão sarcástica, barulhenta e hipercafeinada tenha sido reunida no "Centro de Bem Estar" da universidade.

Chegou-se lá atravessando um lago, pela "Ponte do Amor", docemente dedicada a "todos aqueles que se conheceram e se apaixonaram na Universidade de Miami".

Antes e durante o debate presidencial, ocorria um debate sobre o debate, com os integrantes da turba palpitando idéias espertas sobre o que os candidatos precisavam fazer. Já alguns tipos responsáveis foram ouvidos se preocupando com essa discussão paralela, que segundo eles estava dispersando a atenção do que era mais importante. Ou seja, fazia-se também um debate sobre o debate sobre o debate.

Na verdade, agora que a campanha vive o momento dos debates presidenciais, nessa quinta-feira tudo parecia estar se revirando e girando cada vez mais rapidamente, nem tão diferente do que acontece durante a passagem dos furacões que periodicamente varrem esse Estado, arrasando a paisagem e deixando os perplexos moradores perguntando: Por quê?

Os assessores de Bush diziam que o debate seria do tipo tudo-ou-nada para Kerry, que estaria precisando de mais do que uma simples vitória. "As pesquisas instantâneas poderão até dizer que Kerry vencerá o debate, mas a não ser que ele atinja visceralmente o eleitorado isso não terá importância". Isso quem dizia era Matthew Dowd, estrategista de primeira linha da campanha de Bush, enquanto mascava um charuto ao passar pela turma da imprensa.

Quando soube do que o pessoal de Bush falava, Joel Johnson, um dos principais assessores de Kerry respondeu: "Se eles estão dizendo que nós decididamente precisamos vencer, isso quer dizer que não precisamos tanto assim dessa vitória". Segundo Johnson, o que um comitê propaga geralmente é o contrário do que acontece na verdade.

Pode ser que todos esses assessores e analistas estejam preocupados demais com os gestos e a aparência dos candidatos, em vez de observarem propriamente a substância do debate.

Mas ninguém que faça parte de um comitê de campanha está isento de encarar esse tipo de avaliação superficial. Durante a preparação para o debate, Bob Shrum, o principal estrategista de Kerry, conversou pelo telefone com a cantora Cher, agradecendo a ela pelo apoio num evento em benefício do candidato.

Cher aproveitou a oportunidade para aconselhar Shrum a tirar do ar o porta-voz da campanha, Joe Lockhart. E o que foi que Cher disse? O próprio Lockhart, robusto e embaraçado, admite: "Você precisa de gente mais magra na TV."

Por todo o centro de imprensa, sinais com setas indicavam aos repórteres a direção do "Beco das Versões", onde os partidários costumam se reunir para avaliar o desempenho de seus candidatos. Depois de apenas três campanhas presidenciais, o que no começo fazia parte do jargão irônico dos jornalistas agora virou um lugar comum, como um clichê da temporada de campanha presidencial. Candidatos procuram manipular as emoções do público no debate Marcelo Godoy

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h59

    -0,57
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h05

    -0,41
    75.294,20
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host