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02/10/2004

Analgésico Vioxx afeta coração, diz farmacêutica

The New York Times
Gina Kolata

Em Nova York
A empresa farmacêutica Merck anunciou, nesta quinta-feira (30/09), que vai parar de vender seu medicamento contra atrite e dor chamado Vioxx, porque um novo estudo revelou que seu uso faz dobrar o risco de ataque cardíaco e derrame. Atualmente, o remédio é consumido por cerca de dois milhões de pessoas em todo o mundo.

O Vioxx foi campeão de vendas da Merck --US$ 2,5 bilhões (em torno de R$ 7,5 bilhões) no ano passado-- e foi amplamente anunciado como alternativa segura a remédios como aspirina, que podem causar úlceras e sangramentos gastrintestinais.

A Merck resolveu tirar o Vioxx do mercado, a maior remoção da história em termos de vendas, e está com dificuldades de encontrar novos remédios para substituir sua linha de produtos, que está ficando antiga. O Vioxx representou 11% da renda da empresa no ano passado. As ações da Merck despencaram 27% com a notícia na quinta-feira, reduzindo o valor de mercado da empresa em US$ 25 bilhões (em torno de R$ 75 bilhões) e ajudando a empurrar a média industrial do Dow Jones para baixo em 0,6% no dia.

A empresa decidiu retirar a droga das farmácias depois de um estudo que esperava que provasse que o Vioxx prevenia a formação de pólipos de cólon, que podem se tornar cancerígenos. Em vez disso, o estudo mostrou que a droga aumentou os índices de ataques cardíacos e derrames. Depois de receber os resultados, na semana passada, a Merck rapidamente suspendeu a pesquisa.

O risco é pequeno --15 casos de ataques cardíacos, derrames ou coágulos sangüíneos a cada mil pessoas que tomam o remédio, em um período de três anos, comparados a 7,5 desses eventos em cada mil pacientes tomando placebo. Mas os dados foram tão claros que a Merck disse aos fiscais federais nesta semana que tinha interrompido a pesquisa e ia tirar a droga do mercado. A decisão foi anunciada na última quinta-feira.

"O que descobrimos neste estudo foi que, depois de 18 meses de uso do medicamento, há um aumento inesperado e claro em índices de doenças cardiovasculares", disse o presidente da Merck Research Labs, Peter S. Kim, em entrevista no dia 30. A empresa já tivera pistas de que a droga poderia aumentar o risco de ataques cardíacos e derrames, mas em estudos que não foram definitivos. Assim, não estava convencida de que os riscos eram reais, apesar de ter acrescentado observação ao rótulo da droga há dois anos para incluir essa possibilidade.

Desta vez foi diferente.

"O que vimos foi impressionante", disse Kim. "Certamente não compreendemos a causa desse efeito, mas é estatisticamente significativo e indicou a existência de um problema."

Kim disse que a decisão foi feita na segunda-feira, depois de uma série de teleconferências dramáticas com especialistas médicos durante o final de semana. Na terça-feira, funcionários da empresa foram à agência federal americana responsável por remédios e alimentos consumidos no país (FDA - Food end Drug Administration) e disseram que iam suspender a droga. A decisão foi unicamente da empresa e não houve pressão do FDA, que disse estar surpreso com a medida da Merck, mas que concordava.

"Acreditamos que a Merck fez a coisa certa", disse o diretor interino do Centro de Avaliação de Drogas e Pesquisa do FDA.

Nem todo mundo que toma Vioxx faz uso diário do remédio, nem por um prazo de 18 meses ou mais. Alguns pacientes de artrite tomam-no apenas durante as crises. Outras pessoas usam a droga por alguns meses, depois de uma lesão esportiva, por exemplo.

Especialistas médicos dizem que é seguro os pacientes pararem de tomar Vioxx abruptamente, acrescentando que existem muitas alternativas à droga que não requerem receita, como aspirina. Algumas são muito mais baratas que o Vioxx, que era vendido a US$ 2,50 (aproximadamente R$ 7,50) ou mais por comprimido.

O Vioxx fornece o mesmo tipo de alívio para a dor que a aspirina, apesar de os estudos mostrarem que os pacientes têm menor chance de desenvolverem úlceras ou hemorragias gastrintestinais.

Há também remédios vendidos sob apresentação de receita médica, como Celebrex e Bextra, produzidos pela Pfizer, que são similares ao Vioxx, mas não há indicações de que impõem riscos cardiovasculares. Isso e a extensa propaganda da Pfizer podem ajudar a explicar por que o Celebrex ultimamente foi duas vezes mais vendido que o Vioxx.

O FDA, entretanto, diz que os ensaios sobre o uso de Celebrex e Bextra tiveram apenas um ano de duração e que o estudo do Vioxx encontrou riscos apenas depois de 18 meses de ingestão da droga. Em teleconferência com a imprensa, Galston disse que ainda não há uma decisão no sentido de requerer estudos de longo prazo para os remédios dessa classe. "Ainda é cedo para dizer, mas obviamente estaremos mais interessados nos dados de longo prazo", disse ele.

Kim, da Merck, disse que soube dos novos resultados sobre os índices de ataques cardíacos e derrames na noite de quinta-feira da semana passada. Ele foi informado por telefone pelo comitê independente de cientistas que estavam monitorando o estudo de pólipos de cólon. "Eles recomendaram que parássemos o estudo", disse ele.

"Na sexta-feira, avaliei os dados com minha equipe", disse Kim. "A primeira coisa que se faz é rever os resultados. Fizemos isso. Depois, confirmamos os dados, para ter certeza de que estavam corretos". Nesta altura, ele disse: "Eu sabia que, se não fosse um grande erro de análise, tínhamos um problema em questão."

Descoberta acidental

"Em torno do meio dia, liguei para Ray Gilmartin e contei-lhe o que estava acontecendo", prosseguiu Kim, referindo-se ao diretor executivo da Merck. "Ele disse: 'Descubra o que é melhor para a segurança dos pacientes'. Então, passamos a sexta-feira e o resto do final de semana avaliando os dados de diversas formas e ligando para especialistas médicos para marcar reuniões para discutir os dados e suas interpretações e o que fazer."

Na noite de domingo e na manhã de segunda, Kim e sua equipe falaram do estudo aos pesquisadores e especialistas médicos da reumatologia, cardiologia e gastroenterologia.

Alguns recomendaram que a droga fosse retirada do mercado imediatamente. Outros não souberam tomar uma decisão. Reumatologistas, entretanto, disseram que havia pacientes que precisavam da droga.

No final da manhã de segunda-feira, Kim fez sua decisão. "Vamos retirar", disse ele.

Ele transmitiu-a a Gilmartin e recebeu seu aval. Na terça-feira, a Merck notificou seu conselho diretor e, na mesma tarde, informou o FDA. Na quarta-feira, a empresa começou a notificar as agências fiscalizadoras de outros países. Na quinta-feira pela manhã, a Merck fez o anúncio público.

Apesar de Kim ter-se surpreendido com os dados, outros não.

A possibilidade de o Vioxx aumentar o risco de ataques cardíacos surgiu há três anos, em um estudo da Merck com 7.000 pacientes com artrite reumática. A empresa se perguntava se os que tomavam altas doses do remédio --50 miligramas por dia-- tinham menos efeitos colaterais gastrintestinais do que os que tomavam naproxen.

Os resultados mostraram que os pacientes de Vioxx tinham metade da incidência de reclamações gastrintestinais, mas também indicaram que tinham cinco vezes o número de ataques cardíacos --cinco em cada 1.000 pacientes, comparados com um a cada 1.000 com naproxen.

A questão era por quê. Talvez o Vioxx causasse ataques cardíacos, diziam os cardiologistas. Ou, argumentava a Merck, o Vioxx era neutro, mas o naproxen de fato reduzia a probabilidade de um ataque cardíaco.

Em abril de 2002, seguindo um pedido do FDA, a Merck acrescentou os resultados do estudo sobre o risco de ataque cardíaco ao rótulo da droga. Vários outros estudos se seguiram. Um deles avaliou um milhão de pacientes do Medicaid; outro, 1,4 milhão de pacientes inscritos em planos de saúde da Kaiser Permanente; um terceiro observou mais de 50.000 pacientes do Medicare. Todos encontraram maior taxa de ataques cardíacos e derrames com Vioxx, mas os especialistas diferiram quanto à interpretação dos dados.

Eric Topol, cardiologista da Clínica Cleveland, escrevendo em revistas médicas, argumentou veementemente contra o Vioxx. Segundo ele, não valia a pena tomar o remédio nem outros da classe, citando "eficácia marginal, maior risco e custo excessivo", se comparado com drogas como aspirina.

Daniel Solomon, reumatologista e epidemiologista do Hospital Brigham e Women's, em Boston, disse na quinta-feira que ficou tão convencido pelos dados que parou de receitar Vioxx há dois anos.

Falta de alternativas

Outros, porém, inclusive Michael Lockshin, especialista em artrite do Hospital de Cirurgia Especial em Nova York, tiveram mais dúvidas. Lockshin disse que, até agora, "os dados eram pouco substanciais" para indicar que o Vioxx estava causando o problema. Os resultados do estudo original tinham uma explicação alternativa, disse ele, e os outros estudos foram complicados pelo fato de não terem o rigor necessário para serem convincentes.

Os novos dados, entretanto, convenceram. Segundo Lockshin, mesmo que a Merck não retirasse a droga, ele deixaria de receitá-la.

"Apesar de os números não serem gigantescos, em termos de risco, como médico, não posso dizer: 'Ah, tudo bem. A droga é tão segura quanto qualquer outra.'"

Ele acrescentou, entretanto, que alguns de seus pacientes talvez tenham dificuldades em encontrar uma alternativa ao Vioxx. O alívio da dor, disse ele, é idiossincrático e imprevisível. "Alguns pacientes respondem belamente a uma droga e não a outra."

E alguns pacientes simplesmente relutam em desistir de um remédio que funciona.

Jerry Lynn, dentista aposentado que mora em Manhattan, disse que o Vioxx foi o único remédio que já tomou para seu joelho com artrite. "Fez enorme diferença", disse ele na quinta-feira. Ainda tenho um amplo estoque em casa, disse Lynn, acrescentando: "Vou usá-lo até o fim". Merck retira medicamento do mercado, prescrito para diminuir a dor Deborah Weinberg

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