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02/10/2004

Avedon era vanguarda de uma estética engajada

The New York Times
Andy Grudenberg

Em Nova York
Richard Avedon, cujas fotografias da moda e retratos ajudaram a definir a imagem de estilo, beleza e cultura dos EUA nos últimos 50 anos, morreu nesta sexta-feira (01/10), em um hospital em San Antonio. Ele tinha 81 anos e morava na cidade de Nova York.

A morte foi causada por complicações depois de uma hemorragia cerebral sofrida no sábado, disse seu filho, John. Avedon estava no Texas fazendo um trabalho para a revista "The New Yorker", que o contratara em 1992.

As fotografias de Avedon capturavam a liberdade, o excitamento e a energia da moda, enquanto esta entrava em uma era de transformação e popularização. Independentemente do estilo prevalecente, sua câmera sempre encontrava uma forma de dramatizar seu espírito, enquanto a atenção criativa do mundo da moda oscilava entre o "New Look" da Paris liberada para a roupa esportiva americana de Nova York, e da moda contestadora da Rua Carnaby em Londres para os vestidos e ternos sofisticados de Milão.

Partindo do trabalho de fotógrafos anteriores como Martin Munkacsi, Avedon revolucionou a arte da fotografia da moda do século 20, imbuindo-a com toques de realismo duro e fantasia absurda e instilando-a com um experimentalismo incansável.

A fotografia de Avedon teve tamanha influência na imaginação do público que quando ele tinha 30 e poucos anos foi a inspiração de Dick Avery, personagem de Fred Astaire no filme "Cinderela em Paris", de 1957, em que fazia o papel de um fotógrafo de moda. Ele também apareceu na capa da revista "Newsweek", em 1978, durante uma retrospectiva de seu trabalho no Metropolitan Museum of Art.

Apesar do amplo reconhecimento, Avedon permaneceu relativamente insulado do mundo, passando a maior parte do tempo em seu estúdio, onde podia manter o controle da luz e, na maior parte dos casos, de seus modelos também. Nasceu e criou-se em Nova York e fez de Manhattan sua casa durante toda a vida, apesar de viajar muito a trabalho.

Famoso por seus trabalhos publicados na "Vogue" e na "Harper's Bazaar", Avedon tinha uma segunda carreira no mundo artístico. Suas fotografias foram apresentadas no Smithsonian Institute pela primeira vez em 1962 e, mais recentemente, na primavera de 1994, em uma retrospectiva organizada pelo Whitney Museum. Ele também manteve um trabalho paralelo lucrativo, criando fotografias de divulgação para clientes como Revlon e Christian Dior.

Magro e forte, descabelado, Avedon tinha a intensidade de um terrier e podia deixar exaustos os que trabalhavam com ele. Apesar de manter a agenda cheia em seu estúdio de fotografia, no lado oeste de Manhattan, ele também encontrava tempo para ler, ir ao teatro e visitar museus, mantendo contato com a vida artística e cultural de seu tempo.

Além disso, ele apoiou o movimento pelos direitos civis e outras causas sociais, com dinheiro e trabalho; em meados dos anos 60, ele ensinou jovens fotógrafos negros a registrar as marchas e manifestações no Sul.

Quando Avedon tornou-se o primeiro fotógrafo a ser contratado pela "New Yorker", que antes usava apenas pequenas e poucas fotografias, o "USA Today" sugeriu que chamar Avedon de um fotógrafo de equipe era como chamar o Michelangelo de pintor de paredes local. Mas o próprio fotógrafo viu o novo cargo como uma oportunidade de ir além da moda.

"Fotografei quase todo mundo", disse Avedon. "Mas o que espero fazer é fotografar as pessoas de realização, e não de celebridade, e ajudar distinguir os dois novamente."

Diferentemente de sua fotografia da moda, positiva e glamorosa, os retratos de Avedon mostravam uma sensação crescente de desilusão com as possibilidades do estilo de vida e da cultura americanos, especialmente depois dos anos otimistas do fotógrafo, na década de 50 e início da de 60.

Desde o início, seus retratos pareciam querer descascar o brilho da celebridade para revelar o ser humano ordinário e inseguro subjacente. No entanto, nos anos 70, seus trabalhos passaram a retratar mais as dificuldades da velhice e da morte.

Avedon, porém, sempre alegou que seus retratos, como as fotografias da moda, eram simplesmente registros de aparências. "Minhas fotografias não vão abaixo da superfície", disse certa vez. "Não vão abaixo de nada. São leituras do que está na superfície. Tenho grande fé nas superfícies. Uma boa superfície é cheia de pistas."

Richard Avedon nasceu em Nova York, no dia 15 de maio de 1923. Seu pai, Jacob Israel, segunda geração de imigrantes judeus russos, era proprietário da Avedon's Fifth Avenue, uma loja de roupas em Manhattan. A família de sua mãe, Anna Avedon, era proprietária de uma confecção. Quando menino, Avedon lia avidamente revistas de moda e decorava as paredes de seu quarto com recortes das fotografias que admirava.

"Certa noite, meu pai e eu estávamos descendo a Quinta Avenida olhando as vitrines", disse à "Newsweek". "Em frente ao hotel Plaza, vi um homem careca com uma câmera e uma mulher muito bonita, posando contra uma árvore. Ele levantou a cabeça dela, ajustou seu vestido e tirou umas fotos. Mais tarde, vi o resultado na "Harper's Bazaar". Não compreendi por que ele tinha usado aquela árvore até ir a Paris, anos depois: a árvore em frente ao Plaza tinha a mesma casca que se vê no Champs-Elysees."

Avedon estudou na escola De Witt Clinton High, onde ele e James Baldwin eram co-editores da revista literária da escola, "The Magpie". Depois, cursou um ano na Universidade de Columbia e entrou para a marinha mercante, onde foi designado para a seção de fotografia. Ali, aprendeu a fotografar, tirando milhares de retratos de identificação de marinheiros.

Ao deixar a marinha mercante, em 1944, ele procurou Alexey Brodovitch, diretor de arte da "Harper's Bazaar" e entrou para seu curso na New School for Social Research. No curso, oficialmente chamado de Laboratório de Design, Brodovitch oferecia críticas e estímulos aos fotógrafos, ilustradores e designers e, ocasionalmente, dava-lhes serviços pagos da revista.

Brodovitch e Avedon, na época com 21 anos, logo criaram uma afinidade; em 1945, as fotografias de Avedon começaram a aparecer na Junior Bazaar e, um ano depois, na própria "Harper's Bazaar". Depois de entrar para a folha de pagamentos da revista, ele abriu um estúdio próprio, que Brodovitch escolheu para dar suas aulas do Laboratório de Design nos anos 50.

Avedon foi estimulado por Brodovitch a romper com os limites da fotografia convencional da moda, misturando realidade e fantasia e criando efeitos surrealistas. Logo ele aprendeu a visualizar suas fotos em termos estritamente gráficos.

Sua adoção posterior de um fundo branco infinito de estúdio na maior parte de suas fotos foi, ao menos parcialmente, inspirada pelo uso do "espaço branco" característico de Brodovitch, um meio de fazer o objeto parecer suspenso e leve na página.

No estúdio, ele podia isolar seus objetos não só graficamente, mas também psicologicamente, produzindo uma ilusão convincente de um confronto direto entre o objeto retratado e o leitor.

Avedon foi capaz de ser profundo e sucinto em suas fotos e palavras. A definição que deu para um retrato serve de exemplo de sua concisão: "Um retrato fotográfico é um perfil de uma pessoa que sabe que está sendo fotografada. O que ela faz com esse conhecimento faz parte da fotografia, tanto quanto o que está vestindo ou sua aparência." Fotógrafo morto aos 81 captava o cotidiano com perspectiva social Deborah Weinberg

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