UOL Notícias Internacional
 

02/10/2004

EUA ainda negam aos negros o direito ao voto

The New York Times
Bob Herbert

Colunista do NYTimes
Viola Gregg Liuzzo não é um nome muito lembrado atualmente.

Liuzzo, uma mulher branca que viveu em Detroit, tinha 39 anos, era casada e mãe de cinco quando decidiu, no início de 1965, ir para o Sul para servir como voluntária na luta brutal para dar aos negros o direito de votar. Ela disse ao seu marido que era algo que ela tinha que fazer.

Ela participou da agora lendária marcha ao longo da Rota 80, a Rodovia Jefferson Davis, que liga Selma a Montgomery, Alabama. A marcha foi liderada pelo reverendo dr. Martin Luther King Jr. Quando ela terminou, Liuzzo se ofereceu para levar de carro alguns dos membros da marcha de volta para Selma, em seu Oldsmobile de dois anos de idade.

Na viagem de volta a Montgomery, na noite de 25 de março, Liuzzo estava acompanhada apenas de um adolescente negro. Em um trecho deserto da estrada, eles foram surpreendidos por um carro cheio de membros enraivecidos da Ku Klux Klan e por um agente disfarçado do FBI. Liuzzo levou um tiro no rosto e morreu. O carro acabou em uma vala. O adolescente sobreviveu ao se fingir de morto.

O debate presidencial da noite desta quinta-feira (30/09) foi um exercício importante para a democracia ao estilo americano. Mas democracia não tem significado real quando cidadãos qualificados para votar são impedidos deliberadamente de fazê-lo, ou são intimidados a ponto de ficarem assustados demais para votar.

Tal privação de direitos ocorre de muitas formas. Dois professores da Universidade de Miami fizeram uma análise extensa dos chamados erros dos eleitores no Condado de Miami-Dade que não foram divulgados anteriormente, e isto nos dá um quadro ainda mais preocupante do descarrilamento da democracia na disputa presidencial de 2000 na Flórida.

A dra. Bonnie Levin, uma professora de neurologia e psicologia, e Robert C. Duncan, um professor de epidemiologia, disseram que o propósito de seu estudo era examinar os aspectos demográficos associados aos votos anulados em Miami-Dade, um condado que desqualificou 27 mil votos.

Grande parte da atenção pública em torno da eleição disputada na Flórida se voltou para os "undervotes", votos que não foram registrados pelas máquinas de votação por algum motivo --seja pela não perfuração plena da cédula (um cartão de perfuração), formando uma ondulação, ou pelo não desprendimento total do picote de papel, por exemplo.

Levin me disse na quinta-feira que o estudo a convenceu de que um problema muito maior em Miami-Dade envolveu "over-votes", casos em que as cédulas foram anuladas porque os indivíduos votaram em mais de um candidato presidencial.

Na análise deles, os professores levaram em consideração variáveis mais associadas a erros, como idade avançada ou nível mais baixo de escolaridade. Eles ficaram surpresos com o que descobriram. Os casos de erros de eleitores, após terem sido levadas em consideração todas as variáveis relevantes, foram muito maiores --maiores do que se poderia razoavelmente esperar-- nos distritos predominantemente afro-americanos. E, peculiarmente, havia um índice particularmente alto de anulação por "over-voting" entre os negros.

"Apesar de os distritos afro-americanos e hispânicos serem semelhantes em termos de renda e educação, os distritos afro-americanos apresentaram muito mais votos cancelados por "over-vote" (votação em mais de um candidato) do que por "undervote" (problemas no cartão), escreveram os professores. "Curiosamente, os grupos divergem acentuadamente na inclinação partidária (os afro-americanos são predominantemente democratas, os hispânicos são mais republicanos)."

Surpresa, surpresa.

Levin disse não acreditar que estes sejam erros honestos que alguém poderia esperar encontrar em uma análise dos padrões de votação. Algo mais esteve em ação. "Os dados mostram que foi específico demais em certos distritos", disse ela. "Visava diretamente os afro-americanos. Não havia nada de aleatório a respeito."

Ela disse: "O resultado mais importante foi que a educação não serviu como fator para os afro-americanos".

Agora, na eleição presidencial de 2004, nós já estamos vendo um amplo esforço de supressão de votos, da tentativa fracassada do governo estadual de Jeb Bush de usar listas espúrias, tendenciosas, de supostos réus, a esforços em muitas partes do país para impedir o registro de novos eleitores, especialmente os afro-americanos.

As pessoas que atualmente estão pisando nos direitos de votação estão seguindo a mesma tradição suja que resultou na privação de direitos a milhões de negros americanos e levou ao assassinato de Viola Liuzzo e outros.

Houve um tempo em que o Partido Democrata produzia os mestres na arte da privação de direitos. Agora tal tocha foi passada aos republicanos. O presidente Bush poderia colocar um fim nisto, mas até o momento ele optou por não fazer nada. Flórida é exemplo disso; maioria dos afro-americanos é democrata George El Khouri Andolfato

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