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03/10/2004

Economistas investigam relação religião-PIB

The New York Times
Daniel Gross

Em Nova York
Esse não é o tipo de pergunta que muitos economistas fazem. Afinal, fora exceções como Adam Smith, os gigantes da teoria econômica tiveram pouco a dizer sobre assuntos de fé. E os economistas tendem a aceitar a tese da secularização promovida por Max Weber em "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", a base da Civilização Ocidental: à medida que as economias se tornam mais avançadas e à medida que a tecnologia progride, a religião declinará como força.

Além disso, muitos economistas -com sua queda por dados e crença alicerçada na racionalidade humana- podem estar temperamentalmente desqualificados para levar a religião a sério. Mas algumas pessoas têm tentado estudar tanto a economia quanto a religião.

"A atividade religiosa é muito difícil de quantificar", disse Eli Berman, um economista da Universidade da Califórnia, em San Diego, que tem usado princípios econômicos para estudar milícias religiosas radicais. "E os grupos religiosos tendem a fazer uma série de coisas que parecem terrivelmente irracionais, pelo menos à primeira vista."

Mas o muro que separa a Igreja e a economia está começando a ser superado. "Nos últimos 5 a 20 anos, mais e mais estudiosos têm usado métodos econômicos convencionais para entender a forma com a qual a religião se relaciona com o restante da sociedade, e com a economia em particular", disse Laurence R. Iannaccone, um professor Koch de economia da Universidade George Mason, em Fairfax, Virgínia.

Entre os estudiosos atualmente estão Robert J. Barro e Rachel M. McCleary, uma equipe composta de marido e mulher baseada em Harvard. Barro é um economista prolífico que há muito tempo tem estado interessado em estudar como e por que os índices de crescimento econômico divergem entre os países. McCleary, que dirige o Projeto sobre Religião, Economia Política e Sociedade do Centro Weatherhead para Assuntos Internacionais de Harvard, adquiriu um apreço pela importância da religião na vida econômica enquanto estudava na Guatemala.

Em um estudo publicado no ano passado na "American Sociological Review", o casal começou a investigar a correlação entre variáveis como freqüência à igreja e crença no céu e inferno e os índices de crescimento econômico comparativos de 1965 a 1995. "Nós pensávamos que havia uma relacionamento positivo entre certas crenças religiosas e a performance econômica", disse Barro.

Investigar tal hipótese pode ser difícil, em parte porque sistemas religiosos diferentes possuem práticas bem diferentes quando se trata da forma de participação e crença no pós-vida.

Mas, no geral, o estudo confirmou a suposição de que um maior desenvolvimento econômico está associado a uma menor religiosidade. Em seus resultados, que McCleary notou serem preliminares e necessitarem de maior investigação, os dois também chegaram a algumas conclusões contra-intuitivas. Primeiro, em dois países onde a freqüência ao serviço religioso era essencialmente a mesma, aquele no qual as pessoas têm maior crença no céu e no inferno experimentaram um crescimento econômico mais rápido. Segundo, em dois países onde as populações tinham índices semelhantes de crença no céu e no inferno, aquele em que havia maior freqüência à igreja teve crescimento econômico mais lento.

Por quê? Esta "abordagem quantitativa ao estudo da religião", como chama McCleary, se apóia na suposição de que a religião pode afetar a economia ao promover crenças que influenciam a produtividade -acentuando características como frugalidade, esforço e honestidade. Um sentimento disseminado de que tal comportamento poderá eventualmente ser recompensado (a crença no céu), ou que a falta de tal comportamento poderá ser punida (a crença no inferno) pode, portanto, promover o crescimento econômico. E, se mais pessoas e recursos são dedicados à realização de serviços religiosos sem a produção do produto desejado (um nível mais elevado de crença), isto tende a diminuir a produtividade na economia.

Em outras palavras, as economias dos países podem ter uma melhor performance quando pessoas têm níveis relativamente mais elevados de crença religiosa do que de participação religiosa. Entre os países que se enquadram nesta categoria estão Japão, Coréia do Sul, Cingapura e alguns países escandinavos -todos com boa performance econômica no período estudado. Países em que a crença era baixa em comparação à participação religiosa incluíam a Índia e muitos na América Latina.

Outro resultado foi que a crença no inferno provou ser um fator economicamente mais importante do que a crença no céu. "A vara da punição pode ser mais poderosa em comparação à cenoura", disse Barro.

Apesar de notar que "precisamos de muito mais e melhores dados antes de podermos nos mostrar confiantes com os resultados" de tais estudos, Iannaccone disse que os economistas devem prestar mais atenção à intersecção de religião e economia. "É quase impossível viver no século 21, olhar ao redor e dizer que a religião não tem nenhum impacto", disse ele.

De fato, apesar de "Uma Investigação Sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações" de Adam Smith ter sido a bíblia para gerações de economistas, sinais indicam que alguns textos sagrados mais velhos também importam para eles. Em dezembro de 2002, quando Vernon L. Smith, um pioneiro em economia experimental, aceitou o Nobel de ciência econômica, ele prestou tributo a muitas influências intelectuais além de seus mentores e colegas. Ele citou Benjamin Franklin; o filósofo do Iluminismo, David Hume, e vários dos Dez Mandamentos. As censuras contra o roubo e a cobiça às posses do vizinho, ele notou, "forneceram as bases para o direito de propriedade dos mercados". E as proibições ao assassinato, adultério e falso testemunho "forneceram as bases para uma permutação social coesiva". Acreditar no céu e inferno é vantagem competitiva das nações? George El Khouri Andolfato

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