UOL Notícias Internacional
 

03/10/2004

Temas domésticos viram foco de Bush e Kerry

The New York Times
Adam Nagourney

Em Washington
Com uma enxurrada de novas propagandas e discursos, os assessores do senador John Kerry estão buscando mudar a batalha com o presidente Bush para o que disseram ser um terreno mais forte -política doméstica- enquanto os dois homens caminham para um segundo debate que se concentrará em economia, criação de emprego e atendimento de saúde.

Os assessores de Bush disseram que continuarão tentando centrar a campanha presidencial na política externa e na segurança nacional, apesar de até mesmo os republicanos terem dito que Kerry ganhou terreno no primeiro debate sobre política externa, realizado na quinta-feira. Mas os assessores disseram que enfrentarão alegremente Kerry em temas domésticos. O discurso semanal por rádio do presidente, feito no sábado, foi dedicado aos cortes de impostos, e Bush voará para Iowa na segunda-feira para sancionar a série mais recente de cortes.

A campanha de Kerry mudou seu cardápio de propagandas de televisão neste fim de semana, substituindo os ataques a Bush no Iraque e na segurança nacional por outros no qual Kerry fala sobre atendimento de saúde e criação de empregos, enquanto ataca Bush como instrumento de "interesses especiais".

Kerry fez um discurso sobre temas domésticos em Orlando, Flórida, na manhã de sábado, que assessores disseram que visava lançar esta nova fase de sua campanha, condenando Bush como "o primeiro presidente a perder vagas de trabalho em nosso país em 72 anos". Kerry realizará no domingo um encontro em Ohio sobre terceirização de serviços, e está planejando discursos sobre saúde para o início da semana.

"Nós sabemos que há muitas pessoas lá fora que estão mais preocupadas com seus empregos e em pagar suas contas dos planos de saúde do que preocupadas com o que está acontecendo do outro lado do mundo", disse Joe Lockhart, um alto assessor de Kerry. "Isto não é cirurgia cerebral."

Após semanas de confiança crescente na vitória, alguns republicanos disseram em entrevistas que estavam preocupados que a atuação de Kerry no debate -somada às imagens de televisão de Bush nervoso e franzindo o rosto enquanto seu oponente o criticava- possa ter mudado o cenário, e que Bush poderá novamente ter que partir para a luta. Mas altos conselheiros de Bush argumentaram que o debate não será suficiente para Kerry superar o que descreveram como preocupações a respeito dele, e disseram não estar preocupados com os mais recentes ataques.

"Nós achamos que estamos em terreno sólido na política doméstica e na política externa", disse o gerente de campanha de Bush, Ken Mehlman.

Não por acaso, essa mudança na ênfase por Kerry ocorre enquanto ele e Bush se preparam para o segundo debate, que será realizado na sexta-feira em Saint Louis, no qual os candidatos responderão perguntas de uma platéia composta de eleitores, e que esperam que se concentrará altamente em questões domésticas. Naquela manhã, o governo divulgará os mais recentes números do desemprego antes da eleição. E, na terça-feira em Cleveland, os dois candidatos à vice-presidência debaterão, e assessores do senador John Edwards, o democrata, disseram que ele espera manter a atenção em questões domésticas em seu único debate com o vice-presidente Dick Cheney.

Essa não é a primeira vez que os conselheiros de Kerry buscam ficar em vantagem no que tem sido um longo cabo-de-guerra com a Casa Branca sobre se a campanha deve ser travada no campo das questões domésticas ou de segurança nacional. Os conselheiros de Kerry reconheceram que ele foi malsucedido neste esforço durante grande parte do ano, em boa parte devido à espiral de violência em Bagdá.

E alguns democratas questionaram se faz sentido para Kerry tentar mudar o tema do Iraque em um momento de contínua violência, que está aumentando as dúvidas entre alguns eleitores sobre as credenciais de Bush para administrar as crises de política externa.

Mas os assessores de Kerry e os democratas do Congresso argumentaram que o debate presidencial de quinta-feira -restrito a questões de política externa por insistência dos assessores de Bush- deu a Kerry credibilidade sobre o assunto, lhe permitindo passar a criticar Bush nos temas domésticos.

Altos assessores de Bush disseram que independente do que fez Kerry, o presidente continuará questionando sua fortaleza de política externa, explorando em particular a sugestão de Kerry no debate de que não realizaria uma guerra preventiva sem submetê-la a um "teste global".

O conselheiro chefe de Bush, Karl Rove, descreveu o comentário como um "erro crasso", acrescentando: "Foi um vislumbre da alma de sua política externa".

"Olha, ele quer manter um diálogo sobre estas coisas?" continuou Rove. "Não. Mas vamos retê-lo. Nós continuaremos batendo nele."

O posicionamento ocorreu enquanto ambos os lados buscavam medir o impacto duradouro, se é que há algum, de um debate no qual Kerry ofereceu o que até mesmo os republicanos descreveram como um argumento claro e articulado contra o presidente.Com um punhado de exceções -Rove sendo a principal delas- parece haver um consenso entre ambos os partidos de que a performance de Kerry no mínimo manteve aberta uma janela que os democratas temiam estar se fechando para o senador.

Ao mesmo tempo, vários republicanos disseram estar preocupados com o que chamaram de fraca atuação de Bush no debate, assim como as imagens de televisão do presidente fazendo caretas enquanto seu rival contestava a forma como lidou com a guerra no Iraque e as ameaças de terrorismo em casa.

"Eu estava gritando para o aparelho de televisão", disse um associado republicano de Bush, que disse que não queria ser identificado, descrevendo sua irritação com a atuação de Bush. Um funcionário do governo, falando sob a condição de anonimato porque também não quer ser identificado como sendo um crítico da atuação de Bush no debate, disse ter ficado surpreso ao ver Bush sendo exibido repetidas vezes na televisão com o olhar desdenhoso, familiar para as pessoas que trabalham com ele na Casa Branca, mas que os assessores, na preparação para os debates, o alertaram a respeito.

E Paul M. Weyrich, o organizador conservador, escreveu em seu boletim: "Eu concordo relutantemente com as pesquisas que sugerem que, por uma pluralidade, os eleitores acreditam que o senador John Kerry venceu o debate da noite de quinta-feira com o presidente Bush. Ambos os candidatos se saíram bem. Mas o senador Kerry escapou impune e isto é frustrante".

Assessores de ambas as campanhas disseram estar aguardando o fim de semana para ver como a percepção do debate se estabelecerá entre o público, assim como os resultados das primeiras pesquisas completas de opinião. As pesquisas instantâneas feitas naquela noite, de valor questionável, revelaram que a maioria dos telespectadores achou que Kerry venceu o debate, mas não havia sinal imediato de que ele reduziu a pequena vantagem de Bush nas pesquisas de intenção de voto, um resultado que tranqüilizou alguns republicanos.

"Há duas histórias distintas", disse Bill McInturff, um analista de pesquisa republicano. "Uma é que Kerry se saiu muito bem no debate. A história mais importante é que não afetou a opinião de ninguém."

Rove disse: "É como seu discurso na convenção. Eu lembro de toda a conversa sobre ele ser um excelente discursador. E no final, isto não lhe serviu de ajuda."

Mas o senador Richard J. Durbin, democrata de Illinois, disse que Bush fracassou em realizar o que pretendia no debate, e que agora ele está vulnerável de uma forma como não estava antes.

"Aquele era para ser seu golpe de nocaute, o tema deles, a chance de apresentar o argumento mais forte para as pessoas, e não aconteceu", disse Durbin, acrescentando: "Eu acho que agora haverá uma transferência de momento. Na próxima noite de sexta-feira, o presidente Bush terá que jogar no campo do senador, dos temas domésticos".

E mesmo alguns republicanos disseram que Kerry pelo menos acabou com qualquer esperança que Bush tinha de uma vitória rápida e fácil.

"Eu não acho que algo mudou, mas acho que Kerry conseguiu se manter na disputa", disse o deputado Peter T. King, republicano de Nova York, acrescentando: "Eu acho que o povo americano está fazendo uma distinção, e aceita que Kerry é mais habilidoso no improviso, mas ainda confia mais no presidente".

Gary Bauer, um republicano conservador que concorreu à presidência em 2000, disse: "Eu acho que Kerry se saiu bem o suficiente para impedir a possibilidade de um colapso, que eu acho que ele estava enfrentando".

E Tom Rath, um republicano de New Hampshire que acompanhou Bush quando este fez campanha em seu Estado, na sexta-feira, disse: "Kerry ajudou modestamente a si mesmo". Apesar de Rath ter dito não achar que terá um impacto duradouro, ele acrescentou: "O que não gostei foi quando vi alguém na televisão reunir 30 segundos apenas dos closes das reações de Bush".

Entrevistas com democratas sugeriram que os simpatizantes de Kerry, que estavam desanimados com os relatos contínuos de levante dentro da campanha de Kerry, ficaram reanimados com a atuação de seu candidato.

"Pela primeira vez em termos concisos, ele estabeleceu um claro caminho alternativo", disse a senadora Dianne Feinstein, democrata da Califórnia.

Quanto ao futuro, os democratas disseram que ficaram satisfeitos por Kerry estar tentando novamente se voltar para os temas domésticos.

Vários republicanos disseram que esperavam que Bush, após ter forçado o primeiro debate a ser travado em torno da política externa, teria praticamente esmagado o desafio de Kerry por ora. Se a meta era realista ou não, os republicanos disseram que parece haver pouca esperança disso antes do último debate, em 13 de outubro.

"Nós o tínhamos no chão e tínhamos nosso pé sobre seu pescoço", disse Ron Kaufman, que atuou como conselheiro político do pai de Bush, sobre Kerry. "Ele conseguiu se levantar, mas ainda está ferido."

(Todd S. Purdum e Robin Toner contribuíram com reportagem para este artigo.) A uma semana de debate, campanhas escanteiam política externa George El Khouri Andolfato

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