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04/10/2004

Jornais de notícias falsas dominam TV nos EUA

The New York Times
Warren St. John

Em Nova York
Em meio à análise ao vivo do debate presidencial no programa "The Daily Show", na noite da última quinta-feira, o locutor, Jon Stewart, convocou os seus "correspondentes de campo" para uma análise aprofundada.

"Ed, como está se sentindo o pessoal do Kerry?".

"Estão empolgados, Jon", foi a resposta. "Os correligionários de Kerry não poderiam estar mais felizes. O seu candidato enfrentou um presidente que está em meio a uma guerra e que nunca perdeu um debate, e mesmo assim conseguiu prevalecer".

"Ok", disse Stewart. "E, Rob, qual é o estado de espírito no campo de Bush?".

"Triunfo, Jon", disse o correspondente. "Um triunfo orgástico. O candidato enfrentou John Kerry, um virtuose das palavras e capitão da equipe de debates de Yale. Ele tem afiado as suas habilidades de retórica desde os três anos. Ainda assim o presidente foi o grande vencedor da noite".

O episódio - que terminou com o "correspondente" da campanha de Bush implorando, "Vocês têm que reelegê-lo!" - consiste em um retrato do nível da cobertura eleitoral e da capacidade da mídia em veicular esse tipo de coisa, colocando no ar o programa "Comedy Central" na mesma noite em que os especialistas de verdade estavam analisando o debate em outras redes. Apenas para se certificar de que não haveria mal-entendidos, durante um intervalo para propaganda comercial Stewart lembrou à audiência do seu estúdio na Rua West, 54: "Lembrem-se de que não somos jornalistas de verdade".

As notícias de mentira são certamente a onda cômica do momento. Além do "The Daily Show", Ali G utiliza os programas de comentários para fins absurdos, zombando de políticos e celebridades e organizando mesas-redondas com falsos especialistas. O humorista Andy Borowitz divulga artigos diários no estilo perfeito de noticiários no seu Web site, www.BorowitzReport.com. O falso jornal, "The Onion", está expandindo as suas operações para novas cidades.

E em uma estranha reversão de tendências, os principais veículos da mídia têm procurado introduzir programas satíricos de notícias à sua própria programação, sem se importar com o fato de que são muitas vezes alvo das zombarias. O noticiário "Prime Time Live", da ABC, começou recentemente a fechar o seu programa com uma síntese musical satírica das manchetes. Mo Rocca, que trabalhou no "The Daily Show", desempenhou o papel de um sarcástico correspondente do programa "Larry King Live" durante as convenções políticas. E Borowitz trabalha regularmente para a CNN e aparece ao lado de especialistas sérios no "Court TV".

"Hoje, passei uma hora no Court TV falando sobre o caso Peterson, e não sei nada sobre o caso Peterson", disse Borowitz na quarta-feira. "Atualmente é perfeitamente apropriado para as redes de notícia manter um satirista em seu meio".

Não é de se surpreender, talvez, que os satiristas não estejam exatamente loucos para falar seriamente sobre o que fazem; Stewart é particularmente avesso a falar seriamente sobre humor. Mas, quando são pressionados, a maioria deles diz que está em ascensão devido a um eleitorado polarizado que suspeita que a mídia esteja favorecendo o adversário, e também por causa dos grandes escândalos jornalísticos.

Talvez decepcionadas com a mídia tradicional, 21% das pessoas com menos de 30 anos dizem que estão se informando a respeito da campanha por meio de fontes satíricas como o "The Daily Show" e os monólogos noturnos de televisão. Segundo o Pew Research Center, esse número era de 9% em 2000. O Comedy Central zombou do lema da CNN - "O nome mais confiável em notícias" - e da reputação de Walter Cronkite (como homem mais confiável dos Estados Unidos em um cartaz na Convenção Nacional Republicana, que proclamou que o "The Daily Show" é "o nome mais confiável em notícias falsas").

"Esse é um fato de dimensões apreciáveis já que há um desequilíbrio gigantesco e alguém tinha que compensar tal deficiência", diz o crítico cultural Neal Gabler, que é obcecado com o "The Daily Show". "Os jovens gostam do clima desses programas, onde se zomba da credibilidade dos noticiários, porque não podem encontrar tal coisa em nenhum outro lugar", afirma.

Rocca concorda. "A premissa de qualquer piada feita pelos comediantes é zombar do tratamento que a mídia dá às notícias, da mesma forma que se zomba dos indivíduos que são notícia", explica. "E se há algo quanto ao qual todos concordam é que, seja certo ou errado, todo mundo detesta a imprensa".

Tão logo conquistam a simpatia da audiência, os criadores dos falsos noticiários precisam cumprir a simples tarefa de serem engraçados.

"Uma piada bem contada que tem como alvo os republicanos, se for suficientemente inteligente fará com que os próprios republicanos riam", diz Rocca. É claro que as sátiras dos noticiários são uma vertente da comédia testada no decorrer do tempo. Mark Twain escreveu falsas notícias, e essas foram a base do jornal "The National Lampoon" nos anos 70. A era da televisão criou uma série de paródias como "Not Necessarily the News", "That Was the Week That Was" e "Weekend Update". Mas mesmos os próprios satiristas se confessaram surpresos com a magnitude do mercado para o seu produto.

"Quando saí da universidade, todos queriam escrever textos de comédia", disse Borowitz. "Tinha-se a idéia de que uma carreira como escritor de prosa satírica era possível. É difícil imaginar tal coisa até mesmo há cinco anos". A mais recente evidência da mudança: "America (The Book)", de Stewart e dos colegas do "Daily Show", uma paródia dos textos de civismo, aparecerá como número um na lista de best-sellers do "The New York Times", em 10 de outubro.

É claro que nenhum satirista de respeito receberia crédito por algo tão profundo a ponto de afetar o discurso político, ou mesmo de ter um ponto de vista político. Ao lhe perguntarem sobre os autores dos scripts do "The Daily Show", Ben Karlin, o produtor-executivo, insistiu: "Não temos nenhum outro compromisso além de manter os nossos empregos confortáveis e bem-pagos".

Quanto ao fato do estudo da Pew ter revelado que eles são responsáveis por educar um quinto dos jovens norte-americanos sobre política, Karlin diz que não acredita muito nisso. Até porque, explica ele, a audiência não poderia assimilar as piadas se não já conhecesse as histórias que são parodiadas. "As pessoas estão obtendo notícias nas capotas de táxis, nos textos do Yahoo e ao pararem incidentalmente o controle remoto na CNN", afirma.

O ciclo frenético dos noticiários tem sido uma bonança para a onda de falsos noticiários. Um motivo para isso é o fluxo constante de novos materiais. E, por outro lado, um público mais bem informado significa uma maior audiência potencial. Quando Cat Stevens foi impedido de ingressar no país no final do mês passado, após o seu nome aparecer em uma lista de alerta contra terroristas, Borowitz disse que se sentou e escreveu uma pseudomatéria sobre o fato. "Não é necessário que se comece por dizer ao público, 'Vejam, havia esse cantor e compositor dos anos 70 chamado Cat Stevens'", afirma. "O que fazemos é ir direto ao assunto".

No seu livro mais básico, as novas sátiras derivam o humor da justaposição de uma narrativa noticiosa séria e do absurdo. "Nada é mais sério e pomposo do que um âncora de uma rede de notícias ou o estilo sério do texto de um jornal", diz Borowitz. "A paródia de estilo se torna uma piada de si e em si mesma".

O formato das sátiras das notícias no "The Daily Show" é mais sofisticado, zombando não só do estilo das notícias, mas das convenções do jornalismo; por exemplo, da fixação das notícias da mídia com a justiça.

"Existem algumas restrições esquisitas na mídia tradicional de forma que eles sentem que, não importa o que aconteça, precisam apresentar os dois lados da argumentação, ainda que um dos lados esteja errado", diz Karlin. "A idéia de que é preciso proporcionar ao culpado uma oportunidade igual para se defender - não sabemos por que isso".

Em um falso noticiário, Stewart perguntou a um correspondente qual era a sua opinião sobre as alegações dos veteranos das Lanchas de Combate Rápidas sobre o senador John Kerry. "Minha opinião?", respondeu o repórter. "Não tenho opiniões. Sou um repórter, Jon. O meu trabalho é passar metade do tempo repetindo o que um dos lados diz, e a outra metade repetindo o que diz o outro lado. Uma coisinha chamada objetividade; você deveria dar uma olhada nisso".

Embora não goste de falar sobre a sua posição política, Stewart parece gostar mais de fazer gozações com os conservadores do que com os liberais, e no seu estúdio, na noite de quinta-feira, a multidão de gente com pouco mais de 20 anos, dividida quase igualmente entre homens e mulheres, não escondia a sua antipatia por Bush, enquanto assistia ao debate em monitores de TV antes do início do programa.

Na sexta-feira, Michael Hoyt, editor-executivo da "Columbia Journalism Review", disse que de certa forma Stewart contrabalança o conservadorismo do canal Fox News.

"As pessoas buscam algum tipo de atitude correta e orientação em meio a esse oceano da mídia", diz ele. "A Fox fornece isso de uma determinada forma, e Jon Stewart de outra. Ambos são reações à objetividade distorcida, aquilo que eu chamo de falsa objetividade. Eles são peças do mesmo quebra-cabeça".

"É uma forma de humor que subverte a idéia convencional de mídia e revela as pomposidades e idiossincrasias dos políticos, mas ainda mais as pomposidades e idiossincrasias da mídia que cobre os políticos", diz Gabler.

E tudo isso conduz a questão: Por que programas como "Larry King Live" e "Prime Time Live" promovem novos satiristas? As farsas de Rocca em "Larry King Live" durante as convenções deste verão, embora ocasionalmente engraçadas, apenas ressaltam a natureza moderada dos noticiários, e, de sua parte, King pareceu não saber como reagir, a não ser rindo de forma um pouco exagerada das tiradas de Rocca.

Shelley Ross, a produtora de "Prime Time Live", que teve a idéia de trazer as sátiras musicais ao programa, inspirada por "That Was the Week That Was", dos anos 60, disse ter sentido que a sátira é uma resposta apropriada à época. "Ela representa uma sociedade saudável", disse ela.

De sua parte, Rocca disse considerar a sua sátira, em parte, um serviço público. "Os noticiários de televisão estão tão calcificados e rígidos, que qualquer desvio de rota é estimulante", diz ele. País assiste cada vez mais a shows que zombam da realidade Danilo Fonseca

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