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04/10/2004

Marca Prada domina os desfiles em Milão

The New York Times
Guy Trebay

Em Milão (Itália)
Com sapatos de couro de jacaré, casaco de cashmere de gola em V delicado e uma saia rodada que parecia perfeita para Donna Reed, Miuccia Prada está além do mundo incomum em que vive como um colosso modesto.

Certo, há muitas outras pessoas hoje em dia que participam da recuperação da moda de Milão, ajudando a recuperar o negócio decadente de vestuário, cuja receita está estimada em US$ 84 bilhões (em torno de R$ 252 bilhões) em 2004, com um pequeno aumento percentual em relação ao último ano.

Sim, há muitos estilistas com suficiente habilidade para agradar o público, até em tempos de vacas magras, que levam para casa lucros em carrinhos de mão ou, como no caso de Diego Della Valle, diretor da Tod's, em um jato privado.

Mas, nesta temporada, com os desfiles das coleções da primavera de 2005 acabando no dia 3 de outubro, talvez seja difícil encontrar outro estilista italiano que chegue perto da influência criativa e impacto cultural de Prada.

Uma mulher de mercúrio, contraditória e perspicaz, de 50 e poucos anos de idade, ela é patrocinadora e conhecedora das artes, mãe amorosa, patroa tempestuosa e típica da geração do "baby boom". Talvez o elemento mais revelador de seu currículo de estilista seja sua formação de cientista política.

"Neste momento, Prada é totalmente monumental. Ela está na frente de todo mundo", disse Kal Ruttenstein, diretor de moda da Bloomingdale's, depois do desfile da Prada de 29 de setembro.

E a opinião de Ruttenstein, de forma alguma, é única. "Todo mundo está copiando Prada e tudo mais parece velho perto dela", disse Elizabeth Saltzman, diretora de moda da Vanity Fair. Desde os desfiles da coleção de primavera de Nova York, que terminaram há duas semanas, ficou claro que os estilistas teriam que se esforçar para não deixar que o estilo amalucado, mas persuasivo de Prada penetrasse em suas cabeças.

"Nova York foi de Prada", disse Robert Burke, diretor de moda da Bergdorf Goodman, referindo-se à temporada em que as coleções de todos os estilistas pareciam fazer o que se poderia chamar educadamente de uma homenagem à Prada.

Muito antes da estilista apresentar suas novas idéias para a primavera, outros estilistas estavam fazendo referências, conscientes ou não, ao seu catálogo. Dava para detectar Prada nos vestidos de estampas shibori de Behnaz Sarafpour, em Nova York; nas sandálias estilizadas que Tomas Maier apresentou para Bottega Veneta, de Milão; no uso de penas, contas e saias rodadas de Consuelo Castiglioni, em Marni; e na excentricidade de estilo Old Maid que passeou por coleções tão díspares quanto Tommy Hilfiger, Blumarine e Derek Lam.

"Eu disse à Miuccia hoje: 'Você é a única razão para nós virmos a Milão'", disse Anna Wintour, editora da Vogue, no dia 30 de setembro. Ela estava na primeira fila no desfile de Gucci, onde o futuro da casa luxuosa estava nas mãos de um ex-assistente de Tom Ford, em sua capacidade de manter os clientes indolentes e sensuais, que dão a impressão de raramente pagarem por suas roupas.

"Ela se tornou a vida desta cidade", acrescentou Wintour, referindo-se à Prada. Essa opinião tem mais peso quando se considera o ciclo frenético da Semana de Moda de Milão, que envolve nada menos que 219 coleções apresentadas em nove dias.

Talvez não seja exagero sugerir que Prada tornou-se um dos principais produtos de exportação culturais da Itália. Com a possível exceção do movimento culinário de Slow Food e os trabalhos do comentador e romancista Aldo Busi, não tem muita coisa vindo da Itália hoje em dia que tenha ao menos uma fração da destreza e entretenimento quanto o trabalho de Prada.

As razões são simples: diferentemente de quase todos os envolvidos na religião da costura, Miuccia Prada é intelectual.

Desde quando isso tem a ver com a costura, pode-se perguntar. Bem, não tem, de fato. Mas somente os que vivenciaram o absurdo inimaginável das histórias ensandecidas que a maior parte dos estilistas inventa para explicar sua inspiração ("Eu estava pensando que Heidi encontra Charlotte Rampling em 'The Damned' e depois todos saem de férias com Shrek") podem apreciar plenamente a firmeza de Prada.

E somente os que sofreram as manias dos costureiros convencidos de que seria bom as mulheres se vestirem como prostitutas dos anos 50, modelos dos anos 60, Barbarellas dos anos 70, vagabundas do rock dos anos 80 ou tristes amálgamas de todos os estilos anteriores nos anos 90 entenderão o prazer na explicação de Prada de sua própria relação com o prevalecente culto da moda ao passado.

"A nostalgia é um assunto muito complicado para mim", disse Prada em entrevista. "Sou atraída por ela, mas recuso-a intelectualmente", explicou. "Interessa-me ser moderna, então recuso a nostalgia, o que não quer dizer que não a sinto. Assim você vê que talvez sejam as contradições e oposições que tornam o trabalho contemporâneo, porque hoje em dia, somos todos compostos de opostos."

É exatamente seu conforto com opostos que torna Prada uma estilista carismática -seu jeito de associar elementos diferentes, tecidos improváveis e de estender os limites da tecnologia têxtil para aumentar os parâmetros de estilo e imitar efeitos do artesanato de séculos atrás em escala de produção em massa.

Os anacronismos de Prada, como os broches de vidro e chapéus de plumas, que trouxe de volta à cena, seriam uma piada se fossem apresentados por qualquer um menos seguro.

"Miuccia ouve, recebe informações. Ela não se isola no palácio, como tantos outros estilistas de Milão, com seus guarda-costas", disse Wintour.

Em seu desfile de 29 de setembro, que teve reação variada entre alguns revendedores e foi quase universalmente popular na imprensa, ela reuniu influências tão liberais e com tanta vivacidade quanto os músicos da grande banda nova de Nova York TV on the Radio.

Ela tirou inspiração da natureza (estampas de penas), de poetas da Escola de Nova York (mocassins de couro de Frank O'Hara), de entregadores de encomendas da UPS (bermudas sensuais até os joelhos) e do rastafarianismo (gorros que simultaneamente evocam seguidores de Haile Selassie e os alienígenas de cérebros grandes de "The Twilight Zone"). Seria cortesia chamar sua palheta de estranha. E, ainda assim, mesmo no sentido da cor, Prada despreza idéias banais de adequação e gosto. "Nesta altura, ela provavelmente é dona do marrom e do azul", disse Burke, da Bergdorf's.

Em mãos menos confiantes, o conceito das recentes apresentações de Prada poderia facilmente desmoronar. No entanto, ao menos para este membro da platéia, o desfile de Prada continua sendo toda a justificativa necessária para continuar acreditando que a moda ainda é feita em Milão.

"Talvez, nos últimos dois anos, a moda tenha se afastado da realidade", disse Prada. "Não estou dizendo que estou na moda, mas há questões sociológicas que me interessam, coisas teóricas, políticas, intelectuais e também relacionadas à vaidade e à beleza que todos pensamos a respeito e que tentamos misturar e traduzir em moda."

Ela ligou para acrescentar uma nota por telefone. "Quero fazer roupas bonitas, é claro", disse ela, "mas também que sejam interessantes e inteligentes e não fora de lugar". Sofisticação da moda italiana cai no gosto do público do festival Deborah Weinberg

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