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05/10/2004

Bob Dylan luta com seu passado em autobiografia

The New York Times
Janet Maslin

Em Nova York
O Velho Dylan é o demônio que zomba do atual Bob Dylan. De tempos em tempos este semideus dos anos 60 aparece, levando nostálgicos a expressões exaltadas (o Velho Dylan está de volta!), mas deixando Dylan furioso o suficiente a ponto de querer se morder. Ou pelo menos é como ele coloca em suas novas memórias de deixar pasmo, "Chronicles: Volume One".

Ele ficou louco quando, segundo ele, pouco antes do seu 30º aniversário, ele foi atraído para a Universidade de Princeton com a promessa de um doutorado honorário, apenas para ouvir ser proclamado como "a expressão autêntica da consciência perturbada e preocupada da América Jovem".

Ele ficou ainda mais furioso quando Robbie Robertson do grupo The Band, um dos raros contemporâneos de Dylan que não lerão esta autobiografia com fascínio total, ousou ameaçá-lo como guru reinante do cenário da música. O local foi Woodstock, Nova York, mas "eu senti como se pudesse estar vivendo em outra parte do sistema solar", ele diz agora.

Que parte? Aqui está uma promessa: não é nenhuma parte na qual você esperaria. Com a Esfinge discursando com uma franqueza atípica, para colocar de forma leve, ele confessa gostos notavelmente fora de moda e pontos de referência improváveis.

Ele se pergunta por que não foi um dos três membros do Peter, Paul and Mary. Ele tem coisas agradáveis a dizer sobre o Kingston Trio, o senador Barry Goldwater (republicano ultraconservador), Mickey Rourke, Frank Sinatra Jr., Bobby Vee.

Ele sente afinidade com Ricky Nelson, apesar de apenas um deles ter crescido em uma série de televisão dos anos 50. "Foi como se ele tivesse nascido e crescido em Walden Pond, onde tudo era como deve ser, e eu saísse da mata sombria e demoníaca", ele escreve, "mesma floresta, mas uma forma diferente de ver as coisas".

Ele adora "Moon River". Ele diz que "dança polca sempre faz meu sangue pulsar". A história militar lhe interessa, tanto que ele responde menos profundamente aos eventos históricos ao longo de sua vida do que àqueles da Guerra Civil. "A terrível verdade" daquela luta, diz ele, 'seria o molde todo abrangente por trás de tudo o que eu escreveria".

Este livro recaptura os primeiros movimentos de criatividade de seu autor com urgência surpreendente. Dylan está plenamente presente ao revivenciar o despertar de sua carreira de compositor. "Você não simplesmente acorda um dia e decide que precisa escrever canções", diz ele. Em vez disso, ele lembra de sentir a necessidade de "converter algo --algo que existe em algo que ainda não existe".

E é igualmente vivaz quanto às sensações de seus anos posteriores, o senso desolador de carregar o fardo do legado de 16 toneladas do Velho Dylan.

"Era como carregar um pacote pesado de carne pobre", ele escreve sobre suas canções mais celebradas. "Eu não conseguia entender de onde elas vieram." Em suas memórias ele perambula convincentemente do auge da promessa até ser "um chefe de Estado fictício de um local que ninguém conhece", preso em "poço sem fundo de esquecimento cultural".

Deliberadamente, sem dúvida, "Chronicles: Volume One" implora por esforços de biógrafos para reconstrução do funcionamento interno de Dylan. Sem nenhum grande interesse nos supostos eventos marcantes de sua vida ou mesmo na cronologia e geografia específicas de seus movimentos, ele prefere explorar um tipo diferente de memória.

E ele novamente presta sua homenagem a Woody Guthrie --outra figura não conhecida por sua exatidão autobiográfica-- com um estilo de escrita tanto direto quanto profundamente extravagante. Descrevendo sua primeira exposição aos visionários e revolucionários que o instigaram (Voltaire, Rousseau, Montesquieu, Martin Luther), ele escreve: "Era como se eu conhecesse estes sujeitos, como se morassem no meu quintal".

Não está presente a verborragia entorpecente de seu romance de 1966, "Tarântula", enquanto Dylan --um homem que diz agora ter um adesivo de pára-choque que diz "O Maior Vovô do Mundo"-- revê sua vida.

Mas "Chronicles" não é domado. É lúcido sem ser linear, rodopiando pelo tempo sem perder seu forte fio de narrativa. E começa e termina mais ou menos no mesmo local: a calma antes da tempestade, a véspera da celebridade fenomenal do Velho Dylan. Quando o livro começa, ele é apresentado ao pugilista Jack Dempsey, que confunde Dylan com um pugilista de pegada forte. É claro, Dempsey estava certo.

O Holden Caulfield de Hibbing, Minnesota (ou como ele às vezes se chama), chegou em Greenwich Village por volta de 1961, de olhos arregalados para seus personagens maiores que a vida. Ele os esboça de forma sucinta e ousada, apesar de isto dificilmente poder ser considerado uma surpresa.

Dave Van Ronk, que deu a Dylan sua primeira chance de se apresentar em um clube de Nova York, "era passional e pungente, cantava como um soldado da fortuna e soava como se tivesse pagado o preço". Uma mulher chamada Chloe Kiel, "era cool, na moda da cabeça aos pés, uma gata maltês, uma víbora sólida --sempre atingindo a cabeça do prego".

Quando ela se ofereceu para decorar seus sapatos ("aquelas botinas podiam ter algumas fivelas") e ele recusou, Chloe disse: "Você tem 48 horas para mudar de idéia".

Epitáfio

Chloe vivia com Ray Gooch, e Dylan ficava freqüentemente no apartamento deles --ou pelo menos é o que ele diz, em meio à descrição da cornucópia alucinatória de livros e artefatos que encontrou lá. Ele inalou uma riqueza de conhecimento e sabe-se o que mais; este não é um livro para descrever em detalhe o lado selvagem do autor.

Mas este período de descoberta é relembrado de forma emocionante, e as opiniões literárias do autor são fascinantes. "Ulisses" não tinha utilidade para ele, considerava Balzac hilariante e disse que já elaborou um álbum a partir dos contos de Chekhov. O que ele chama de interpretação tipicamente charlatanesca saudou estas canções de Dylan como sendo autobiográficas.

Como ele poderia escapar de tal crítica? O livro se torna sombriamente engraçado ao descrever sua irritação. Anos depois, em Woodstock e depois em outros lugares, ele foi perseguido por fãs e turistas, "garotas que pareciam gárgulas" e "espantalhos", "malucos batendo com suas botas em nosso telhado".

Ele alega que afundou no álcool e visitou Jerusalém em seus esforços para se tornar menos popular --e eventualmente funcionou, apesar das ocasionais histórias "o que aconteceu com o Velho Dylan?" dos jornalistas. "Eles também podiam ir para o inferno", ele diz.

Parte de "Chronicles" é dedicada aos esforços de Dylan para se reinventar de muitas formas diferentes. Ele foi convidado por Archibald MacLeish para colaborar em uma peça --uma peça cuja carreira encerrou no terceiro dia. Ele continuou escrevendo canções, "mas elas não eram do tipo em que você ouve um rugido terrível na sua cabeça", diz ele.

"Eu sabia como eram aquelas canções, e estas não eram daquelas". Ele considerou se aventurar no mundo empresarial. (Uma fábrica de próteses para pernas foi uma possibilidade.) Ele adotou uma nova abordagem numerológica para as apresentações ao vivo --e aqui, brevemente, o livro se torna estranho. Também é difícil acreditar na retomada da energia criativa que ele conseguiu com uma canção que rima "breeze" (brisa) com "cheese" (queijo).

Aqueles interessados nas raízes da música de Dylan terão um dia de atividade fora do comum rastreando as referências obscuras do livro -a gravação de "Way Down in Florida on a Hog" de Darby & Tarleton, para citar uma.

Ele fica mais à vontade discutindo suas canções favoritas, e eventualmente também se anima no assunto de suas mulheres favoritas.
"O ar repentinamente ficou repleto de folhas de bananeira", ele escreve sobre a primeira vez que avistou Suze Rotolo, uma antiga paixão que aparece em suas primeiras gravações. Ela é uma presença no Éden do cantor, do qual Dylan está sendo expulso quando este livro chega ao final com gancho.

"Chronicles: Volume One" deixa muito ainda a ser contado em futuros volumes, e muitos bons motivos para aguardá-los. Enquanto isso, goste ou não, o Velho Dylan está novamente sob o microscópio.

E apesar deste não ser o momento para Dylan escrever seu próprio epitáfio, ainda assim ele o fez: "Algumas pessoas parecem desaparecer, mas então quando realmente se vão, é como se nunca tivessem desaparecido".

Chronicles: Volume One

De Bob Dylan
293 páginas. Simon & Schuster. US$ 24 Cantor lança "Chronicles: Volume One", em que expõe seu conflito George El Khouri Andolfato

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