UOL Notícias Internacional
 

05/10/2004

Maior problema de Bush é não enxergar realidade

The New York Times
Bob Herbert

Colunista do NYTimes
Durante pelo menos 90 minutos a democracia pareceu estar funcionando. Os dois homens de ternos escuros assumiram os seus lugares nas tribunas. Os analistas, os assessores, os relações-públicas e os demais presentes foram retirados do cenário. Sem interrupções de propagandas comerciais, mais de 60 milhões de norte-americanos tiveram a oportunidade rara de dar uma olhada de perto e sem edições nos candidatos em uma das eleições presidenciais mais importantes da história do país.

John Kerry levou a melhor sobre o presidente Bush no debate da última quinta-feira (30/09) em Coral Gables, Flórida. O presidente parecia apático e na defensiva, não dando a impressão de estar particularmente bem preparado. As expressões faciais e a linguagem corporal de Bush chegaram por vezes à esquisitice. Alguns dos seus mais enérgicos apoiadores ficaram perplexos com o desempenho do presidente, e as pesquisas estão mostrando que eles tinham motivos para se preocupar.

Havia certamente muitas razões para a performance sem brilho de Bush. Mas creio que um fator, acima de tudo, prejudicou o presidente no debate da semana passada, e continuará a atrapalhá-lo no decorrer da campanha. Trata-se da sua relação problemática com a realidade.

Bush é aquele tipo de pessoa que diz com freqüência --e que pode até acreditar no que diz-- que o acima é o abaixo, ou que o quadrado é redondo, quando a lógica e as evidências disponíveis indicam o contrário.

Durante o debate, isso ficou demonstrado com maior clareza quando, ao responder a uma pergunta sobre a guerra no Iraque, Bush disse ao moderador, Jim Lehrer: "O inimigo nos atacou, Jim, e eu tenho o dever solene de proteger o povo norte-americano, o dever de fazer tudo o que posso para nos proteger".

Momentos mais tarde, Kerry esclareceu as coisas para a audiência e para o presidente, explicando quem atacou os Estados Unidos. "Saddam Hussein não nos atacou", disse Kerry. "Osama Bin Laden nos atacou. A Al Qaeda nos atacou".

Tendo a oportunidade de responder, Bush fuzilou Kerry com um olhar de antipatia e disse: "É claro que sei que Osama Bin Laden nos atacou. Eu sei disso".

Sem nenhuma arma de destruição em massa para exibir, e incapaz de demonstrar qualquer vínculo entre Saddam Hussein e a Al Qaeda, Bush, não obstante, procurou pintar a guerra no Iraque como sendo não apenas a coisa certa a ser feita, mas também como uma empreitada muito bem sucedida.

A violência e o caos crescentes sugerem o contrário. Enquanto o debate presidencial se desenrolava, continuavam a chegar de Bagdá detalhes sobre atentados a bomba realizados no início do dia que mataram dezenas de iraquianos, incluindo pelo menos 34 crianças.

As crianças não estavam estudando porque a situação caótica impede a abertura das escolas.

O problema político de Bush é que, embora ele ofereça um retrato róseo dos eventos no Iraque --talvez porque acredite realmente nisso, ou quem sabe porque queira levantar a moral norte-americana--, os eleitores estão enxergando cada vez mais a realidade amarga e trágica desses eventos.

Um presidente não pode se manter por muito tempo em descompasso com a realidade. Cedo ou tarde há um preço político a ser pago. A embromação de Lyndon Johnson com relação ao Vietnã, por exemplo, nunca foi perdoada.

O presidente gosta de nos dizer que "a liberdade está vencendo" no Iraque, e que a democracia está em marcha. Mas os norte-americanos estão percebendo que o Iraque é, na verdade, um país em agonia, atormentado por atentados a bomba, tiroteios, seqüestros, decapitações e por uma miríade de outros flagelos.

O presidente pode achar que a liberdade está vencendo, mas os telespectadores nos Estados Unidos puderam ver no último fim de semana as imagens de iraquianos desesperados retirando corpos de crianças de destroços fumegantes --em uma metáfora trágica, mas perfeita, de uma política em ruínas.

Bush conseguiu o seu grande salto nas pesquisas de opinião pública com aquela tolice das lanchas rápidas de combate e com as zombarias e as críticas incessantes dirigidas a Kerry na Convenção Nacional Republicana.

Esses episódios foram formas de distrair o eleitor, para que este não olhasse para a realidade. Mas a realidade não é algo que possa ser mantido à margem por muito tempo. Leitores do "The Washington Post" receberam uma dose perturbadora de realidade nesta segunda-feira, ao lerem uma matéria de primeira página.

A reportagem revela a pressão que vem sendo exercida sobre os sobrecarregados serviços de assistência aos veteranos pelos milhares de soldados que retornam do Iraque e do Afeganistão com seqüelas físicas e problemas mentais.

O artigo ressalta que "o orçamento do Presidente Bush para 2005 prevê a redução dos funcionários do Departamento de Veteranos encarregados de processar os pedidos de benefícios".

Um sargento que ficou paralisado devido a um ataque de morteiro próximo a Bagdá disse à reportagem: "Eu adoro as forças armadas; elas foram a minha vida. Mas não creio que, neste momento, elas estejam tomando conta de mim".

O calcanhar de Aquiles de Bush é o mundo real. Ele não conseguirá mantê-lo à distância por muito tempo. Presidente começou a ser desmascarado no 1º debate com Kerry Danilo Fonseca

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